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A águia redentora

Cariocas devem agradecer à Portela esse momento que entra para a história da cidade como uma das mais belas evocações do Rio

O que melhor atesta a grandeza de uma pessoa? O senso comum acredita que seja a capacidade de enfrentar a adversidade. A coragem é sempre valorizada. Outra hipótese menos explorada seria que a grandeza se mostra na capacidade de viver a alegria. A alegria é suspeita de leviandade. Pode ser que essas duas versões às vezes se confundam e essa hipótese explicaria o destino da cidade em que, por sorte, nasci.

Amanhã o Rio completa 450 anos. Nessa já longa vida vem testemunhando uma história em que se misturam a dor e a alegria. Não é preciso na véspera do aniversário fazer o inventário das misérias que todos conhecemos. Nenhuma delas é aqui esquecida ou minimizada. “E, no entanto, é preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar e alegrar a cidade”. Impossível festejar o aniversário do Rio sem Vinicius. E vamos concordar com ele que “é melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe”.

Hoje, louvando o que bem merece, é a admirável capacidade do povo carioca de ser alegre que invade o texto.

As multidões que no carnaval tomam as ruas, vindas de todo canto, e se constituem em blocos onde milhões de pessoas se divertem de graça, incansáveis, durante uma semana, são a prova dessa alegria, em que há também “um bocado de tristeza”. E de uma energia que ninguém sabe de onde vem e que os dissabores não conseguem sufocar. Em tempos de fundamentalismos delirantes, os blocos são um discurso vivo contra todos os fundamentalismos, são eles que, pela irreverência, anunciam os pecados da cidade e afirmam, pelo simples fato de existirem, sua maior virtude, a tolerância.

O carnaval é uma festa virtuosa ao contrário do que dizem os que acreditam deter o monopólio da virtude. Se o carnaval causa problemas, e causa muitos, de barulho, mobilidade, limpeza, segurança, todas as soluções logísticas são urgentes e bem-vindas, exceto estancar essa alegria das ruas que veio para ficar.

Este ano, do fundo da Sapucaí surgiu uma águia branca, redentora, um Cristo alado pousado no asfalto, que atravessou a avenida fundindo no simbolismo o carnaval e o próprio Rio. Águia com vocação de pomba da paz, abrindo e fechando as asas em movimento protetor. Águia branca redentora, livrai-nos da ganância que prostitui o carnaval.

Abria caminho para ela um tapete de velas que, na cabeça das baianas, comemoravam o aniversário da cidade. Cada carioca deve agradecer à Portela esse momento de graça que entra para a história da cidade como uma das mais belas evocações do Rio produzidas pela arte popular, emblema do carnaval dos 450 anos.

Do que nos redime esse Cristo alado, surrealista, inspirado em Magritte? Do vício de só olhar para nossos defeitos e carências. Sofremos dos infernos de cada dia que afligem as grandes metrópoles, da falta d’água ao trânsito impossível, sem falar no mais sinistro, a violência. De mediocridade, não. De falta de criatividade, não sofremos.

Não se menospreze a alegria dos cariocas como um mito ou uma inútil peça de folclore. É um traço cultural, que melhor se mostra no carnaval, mas está presente o ano inteiro, recurso de sobrevivência precioso na luta contra um cotidiano áspero. Não fosse assim não teriam as escolas de samba nascido nos bairros mais pobres da Zona Norte nem os grandes blocos congregado os que precisam da rua, que é de todos, para brincar.

Qualidade de vida é um conceito difícil de definir e medir. Espalhadas pelo mundo há cidades afluentes onde tudo funciona bem, que levam sempre os primeiros lugares na escala de melhor qualidade de vida. Nem sempre são cidades alegres. A alegria essa palavra que, como a liberdade, o sonho humano alimenta, que também ninguém define e não há quem não entenda (perdoe-me a memória de Cecilia Meirelles pela paródia de pé quebrado), não entra em consideração nessas escolhas.

Não só alegre, o Rio é uma cidade inteligente. Inventa, não copia. Recebe todos, brasileiros ou não, para fazê-los seus. Inimitável, é ela a mãe nossa de cada dia. Rebelde, vive os paroxismos dos inconformados, diaba solta nas suas próprias ruas, nas vielas, testemunha e herdeira de descaminhos, erros e desgovernos. E se pergunta, desolada, por que não foi mais feliz.

Compõe então suas melhores canções, que exprimem a vocação de poesia que, para além do bem e do mal, emerge do espelho. Do espelho do mar. O mar que insiste em chamá-la de linda, em amá-la dia e noite, como se fosse perfeita. O mar que a consola, embala, perdoa. O mar que é como todos nós, seus filhos devotos e amantes incondicionais.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

rosiska.darcy@uol.com.br

Lata d’água na cabeça

NÃO NOS SUBESTIMEM, APRENDEMOS DEPRESSA O QUE É CRISE HÍDRICA E VOLUME MORTO: FALTA D’ÁGUA PARA MILHÕES DE BRASILEIROS

Sessenta anos atrás, no carnaval do Rio, o povo cantava a falta d’água. Lá ia Maria que, “lata d’água na cabeça, sobe o morro e não se cansa, pela mão leva a criança”, Maria que lutava pelo pão de cada dia e sonhava com a vida do asfalto que acaba onde o morro principia. Hoje, às voltas com a mesma lata d’água, não sei se ela sonha com a vida do asfalto já que, mais de meio século depois, no asfalto também falta água. Sensação de tempo circular, de eterno retorno. Pura sensação. Tudo mudou.

O carnaval chegando, à boca do povo voltam os versos carnavalescos que, na década de 50, contavam o que era o Rio de Janeiro, “cidade que me seduz, de dia falta água, de noite falta luz”. A marchinha mereceu, na época, tradução para o inglês da grande poetisa Elizabeth Bishop, moradora do Rio que estabeleceu com a cidade ambígua relação de amor e ódio, estarrecida com a alegria — ou a leviandade — com que os cariocas cantavam seus males.

Os cariocas mudaram. Mudou o humor. Cenhos franzidos, desgosto, olhares para o céu à cata de nuvens, ninguém está achando graça nesse inferno. Calor sufocante e uma irritação profunda e generalizada ensombrecem os tempos pré-carnavalescos. E abrem alas para quem quer engrossar e pôr na rua o bloco dos descontentes.

Nesse mais de meio século, o Brasil mudou muito e para melhor, a água encanada chegou a tantos lares que é mais difícil hoje aceitar quando a torneira seca. A população já não transforma em sambas seu desgosto. Quer saber o que está acontecendo e os riscos que corre. O ilusionismo das palavras não vivifica a terra crestada no fundo das represas.

Os governantes devem ao país uma informação cristalina sobre o que está se passando e um detalhamento das ações de resposta à crise que não deixem a sensação de que, de novo, há algo escondido. O problema é técnico, de difícil entendimento? Não nos subestimem, aprendemos depressa o que é crise hídrica e volume morto: falta d’água para milhões de brasileiros, para a indústria e agricultura. E a proximidade do fundo do poço.

A política de ocultação que precedeu as eleições, impedindo as medidas preventivas necessárias, erro gravíssimo imputável a gregos e troianos, deu no que deu: agravamento do problema e desgaste da credibilidade de todos. Sem credibilidade, vai ser difícil pedir ajuda à população para diminuir o consumo, dividir com ela as responsabilidades no enfrentamento da crise. Sem a certeza de que os governos estão dizendo, enfim, a verdade, não haverá mobilização nacional. E é certo que ela será incontornável.

O ministro de Minas e Energia apelou para Deus que, segundo ele, é brasileiro. Por pouco não cantou “Alá-lá-ô, ô ô ô, mande água pra ioiô, mande água pra iaiá”. Ora, Alá, meu bom Alá, anda às voltas com os horrores e barbáries que se cometem em seu nome e o Deus que nos protege não é só brasileiro. Seu ministro mandachuva, São Pedro, manda chuva também para outros lugares. Brasileiros mesmo, somos nós, e a conversa é conosco.

A crise, real e imediata, tem a virtude de ensinar a milhões de pessoas a responsabilidade pelo seu próprio futuro e a consciência de que viver melhor ou pior é, em boa medida, o resultado de nossas próprias escolhas. As crises são educativas e uma oportunidade para mudança de comportamentos.

Começando pelo comportamento de quem nos governa. É imperativo o entendimento entre a presidente da República e os governadores dos estados atingidos, acima das querelas partidárias. Em tempos de politicalha minúscula e picuinhas, de irresponsabilidade máxima, seria um alívio a união nacional em torno do interesse público, esse que é sempre a última das preocupações da classe política. Melhor seria se, reconhecendo os imensos erros cometidos — mentiras eleitorais, falta de planejamento, incompetência na gestão e atraso tecnológico — fossem os governantes capazes de unir forças para corrigi-los.

Resta o imponderável, a chuva. As florestas amputadas estão cobrando seu preço. A natureza tem história, uma história humana da natureza, e ela sempre acaba por mostrar quem tem a última palavra. No Sul Maravilha brotam angústias nordestinas. O sertão vai virar mar e o mar virar sertão? E se chover pouco ou nada no fim do período de chuvas?

Não adianta mais cantar, como nos carnavais de outrora, “Tomara que chova três dias sem parar”. O cerne da questão é que não estamos, como poderia parecer, voltando ao passado. Estamos chegando ao futuro. Apertem os cintos para aterrissar na real. Água será um bem cada vez mais raro no mundo.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

rosiska.darcy@uol.com.br

O amanhã do Rio

Quando o Rio começar a sair literalmente do buraco das obras de renovação em que está mergulhado, dias melhores virão

Feliz Ano Novo, leitores. Afinal, vivemos nesta cidade que vai fazer 450 anos, que nos oferece na passagem do ano uma chuva de ouro e onde o pôr do sol é aplaudido de pé por uma multidão maravilhada. A cada ano cai também uma chuva torrencial, assassina e, em pleno alumbramento no Arpoador, alguém pode ser apanhado em um arrastão de meninos assaltantes. Tudo isso, a chuva de ouro e a chuva assassina acontecem aqui. O pôr do sol no Dois Irmãos e os meninos selvagens. Luminosa, terna, corpo quente, essa cidade é a senhora dos sentidos. Violenta, é também a senhora da dor. Decidi nestes primeiros dias do ano acreditar na felicidade carioca que “é como a gota de orvalho numa pétala de flor”.

Há 50 anos o Rio comemorava seu quarto centenário. Na plateia lotada do Teatro Municipal, homens de smoking e mulheres de vestido longo assistiam ao “Martírio de São Sebastião”, de D’Annunzio e Debussy. Geneviève Page, uma linda atriz francesa, vestindo apenas uma malha sobre o corpo nu, encarnava nosso santo padroeiro.

Suspensos à sua voz encantatória, esperávamos o momento culminante em que o santo é flechado, senão quando entra pelas janelas abertas de um teatro então sem ventilação o canto alegre do Bola Preta, vizinho ruidoso do Municipal. “Quem não chora, não mama” entoava o cordão que, à sua maneira, comemorava o quarto centenário da Mui Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Gargalhadas na plateia. Assim é o Rio que eu nunca esqueci, o Rio que nos pertence a todos, diferentes e desiguais, absurdo e sedutor patrimônio dos cariocas, uma cidade rebelde e inconformada que nos momentos de desespero compõe suas melhores canções.

O ano que começa será festivo. Quatrocentos e cinquenta anos é data que se comemora como convém à índole desta cidade cosmopolita que, a cada réveillon, reúne no seu mais belo salão de festas — suas areias, seu mar — milhões de brasileiros e turistas para saudar o Novo Ano. Plural, abre-se ao mundo e às línguas que não fala, mas improvisa, acolhe a diversidade das crenças e ritos.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, criou uma rede global de cidades selecionadas para ser laboratório de estilos de vida sustentáveis. Lá está o Rio entre as escolhidas. Uma aposta inteligente em quem já deu provas sucessivas de energia criativa. Quando o Rio começar a sair literalmente do buraco das obras de renovação em que está mergulhado, quando os tapumes caírem, dias melhores virão.

O Rio é uma cidade que tem amanhã, o que é preciso lembrar quando bater o desespero no trânsito ou uma tragédia a mais abalar a confiança no futuro. Não é um acaso que seja aqui que um Museu do Amanhã avança sobre o mar, confundindo e desmentindo quem associa museu à guarda do passado. Neste caso, trata-se da guarda do futuro, o que é concepção originalíssima que coloca o Rio na ponta da reflexão sobre o mundo em que vamos viver. O curador do museu, o físico Luiz Alberto Oliveira, um dos melhores cérebros do país, explica que, se o amanhã guarda muitos futuros possíveis, para o bem ou para o mal seremos as escolhas que fizermos frente a esses possíveis. Já sabemos que vamos na direção de mudanças climáticas extremas que pedem reflexão sobre a matriz energética. De alteração da biodiversidade que ameaça com a extinção de espécies. De vidas mais longas que estão mudando os critérios do que é envelhecer.

Cidades estressadas e criativas serão mais integradas e enfrentarão os problemas do consumo e da desigualdade. A multiplicação de tecnologias vai impactar cada vez mais a medicina, a comunicação, a educação e a agricultura. Desponta a iminente possibilidade de vida artificial com seus riscos e desafios éticos.

O museu é uma promessa educativa, que propiciará o aprendizado da escolha refletida e informada e a consciência de que o amanhã já está em nós, hoje.

Na passagem de um ano vem à tona o desejo de descobrir o que o destino esconde para o ano que entra. Ora, o destino não está escrito em lugar nenhum, ele se escreve na medida em que se cumpre, foi o que me ensinou o Prêmio Nobel de Biologia Jacques Monod. É o resultado próximo ou longínquo de nossas escolhas, da ação humana.

As cidades — e o Rio é assim — são uma miríade de escolhas de vida, de formas de convivência que vão pouco a pouco desenhando um tecido urbano, um território e uma cultura. Assim também são os amanhãs que escolhemos todo dia e que desenham nossas vidas.

Desejo aos cariocas, nesse aniversário, que com 450 anos tomem juízo e façam sempre melhores e refletidas escolhas.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

rosiska.darcy@uol.com.br

Mudam-se os tempos

As mulheres são bem-vindas ao trabalho com a condição que não queiram os mesmos salários que os homens

A tsunami de lama que invadiu o país fez com que passasse despercebido o registro de uma revolução subterrânea resultante da soma de milhões de decisões individuais que está mexendo nas estruturas básicas da sociedade brasileira.

A pesquisa Saúde Brasil do Ministério da Saúde constatou que as mulheres estão tendo menos filhos e mais tarde. Apesar de o país nunca ter tratado com seriedade o planejamento familiar, inventaram seus próprios caminhos para fazer o que queriam, não esperaram pelo Estado. Quem quer desenvolver uma vocação, construir uma carreira ou simplesmente amadurecer antes de assumir a responsabilidade por outra vida vem exercendo essa liberdade de escolha que há 30 anos seria impensável ou condenada como uma aberração.

No entanto, nessa liberdade coloque-se um bemol: ela se exerce, muitas vezes, num quadro de coerção material. Não há surpresa em que as mulheres decidam assim quando o quadro institucional que acolhe os mais frágeis — e são as mulheres que se ocupam de crianças e idosos — é precário, a exemplo das creches, e inexistente, quando se trata do apoio aos que envelhecem. Quando 38% das famílias são chefiadas por mulheres e, em tantas outras, elas contribuem decisivamente para melhorar o padrão de vida familiar. Uma frase obsoleta desapareceu das conversas masculinas: “Tenho mulher e filhos para sustentar.” O homem provedor saiu do ar.

A maternidade tardia e a escolha de ter menos filhos são respostas que as mulheres estão dando a uma sociedade que se permitiu incluí-las no mercado de trabalho sem que nenhuma política coerente pensasse a acolhida, na sua ausência, dos que delas sempre dependeram. Para os governos, a maioria das empresas e até mesmo as famílias, a vida privada não existe como questão de interesse público. Se a vida privada é ocultada como problema, descartada em seu valor social, tudo isso é herança da invisibilidade das mulheres.

Midas ao contrário, tudo que elas tocam vira nada. Essa zona de sombra que o feminino habita é tão antiga quanto o Gênesis ou teria sido risível o mito do nascimento de Eva de uma costela de Adão, invertendo a realidade da gestação humana em que os homens nascem das mulheres. Se foi possível anular essa evidência, bem mais fácil é ocultar a vida familiar, a energia física e psíquica, o tempo que ela demanda.

E, no entanto, transformar o minúsculo animal que é um bebê recém-nascido em ser humano é um ato civilizatório por excelência, ainda que não tenha merecido até recentemente nas historias da civilização uma única linha. Note-se que os historiadores, como todos os seres humanos, foram iniciados à sua própria humanidade e à humanidade de seus semelhantes por uma mulher. A sociedade que põe um preço em todas as coisas torna invisível o que não anuncia seu preço.

A esquizofrenia vigente no mundo do trabalho resume-se assim: as mulheres são bem-vindas com a condição que não queiram os mesmos salários que os homens, de preferência não engravidem e que façam como eles, cujos problemas familiares são delegados às suas esposas e companheiras. Como são elas mesmas as esposas e companheiras, o que se lhes pede é a quadratura do círculo.

Sair desse impasse que desqualifica as mulheres requer audácia. Empresas pioneiras começam a experimentar a reengenharia do tempo de homens e mulheres, reservando para ambos o direito à vida privada, não como um favor, mas como um direito e um valor. Rara é a empresa que não anuncia a sustentabilidade como valor, palavra mágica que conota uma responsabilidade social quase nunca praticada. Já que assumem compromisso com a sustentabilidade terão que reconhecer que o ventre materno é o primeiro meio ambiente que os humanos conhecem e que a poluição da vida familiar pelo estresse atenta contra as vidas sustentáveis.

Mudam-se os tempos, as vontades… e o tempo. As mudanças demográficas exigem novas relações de trabalho e relançam o debate sobre o bem-estar e a responsabilidade moral. A longevidade que aumenta na população brasileira acrescenta mais um desafio à tarefa cotidiana de proteger as crianças. Trata-se agora de assistir também aos que envelhecem. Crianças e idosos não são descartáveis. Uma progressiva perda de espessura humana nas relações familiares está reduzindo todos à mera condição de mão de obra.

O poeta Manoel de Barros deixou uma fortuna de sabedoria no seu “O livro das ingnorãças”. Garimpo nele um diamante que vem a propósito: “Não sei mais calcular a cor das horas. As coisas me ampliaram para menos.”

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

rosiska.darcy@uol.com.br

 

Em pé de guerra

Saído não se sabe de que baú de velharias apareceu em uma manifestação na Avenida Paulista um cartaz falando em golpe militar

A violência virtual que devastou as relações entre as pessoas durante a campanha eleitoral acendeu um sinal vermelho. O legado é de perplexidade. Novas aflições somaram-se ao inventário de questões sobre a democracia contemporânea: a internet está ampliando a democracia? Ou revelando suas zonas de sombra? Ou as duas coisas?

Essa violência não teve origem na internet. Vem de longe, são os resquícios de uma atitude sectária em que o adversário é inimigo. Há tempos sobe a temperatura dos pertencimentos tribais. Um jogo de futebol pode oferecer, em carne e osso, o mesmo espetáculo de boçalidade contagiosa. Uma torcida organizada é uma tribo em pé de guerra. Partidos políticos também podem ser.

Como é da natureza da internet ser um potente amplificador, o ódio que caiu na rede fez-se epidêmico. Nos choques de opinião a própria opinião se perdeu. Sobraram cacos de insultos, lixo de calúnias, destroços de um estilo black bloc virtual. Quem queria discutir ideias foi se dispersando e saindo de cena como os manifestantes das ruas.

Se a internet, o que é verdade, é um rebatimento do mundo real, se os ódios e as crueldades que veicula são trazidos por quem a utiliza, esse rebatimento se dá como se estivéssemos no começo dos tempos, antes que séculos de civilização construíssem regras que domesticaram a fera que nasce conosco. Espelho de circo, deformante, o que a mais moderna tecnologia está espelhando somos nós, sim, mas na idade da pedra.

A violência digital alimenta-se da cumplicidade entre a identidade impalpável e a impunidade. A população do mundo virtual, porque incorpórea, pode ser ou não ser, ser muitos, quantas múltiplas vidas adote, ser alguém que não se é. A apropriação e a multiplicação das identidades propiciam a eclosão de delírios. Permitem não ser responsável pelo que se diz. Na vida real agredir alguém exige suportar o sofrimento e a reação do outro. No ciberespaço tudo é indolor e sem riscos. Vigora o direito ao crime sem autor.

Mesmo se o Brasil já produziu um aplaudido marco regulatório da internet, que consumiu cinco anos de debates, consultas e audiências públicas, a capacidade de fazer cumprir essa lei ainda é reduzida. O que é crime na vida real também é crime na internet. A realidade das punições é outra história. As rotas de fuga são inéditas, os esconderijos também. O mundo virtual ainda é um mundo desgovernado, sem superego e sem tabu.

Chegamos a essa terra de ninguém como se fora um continente encantado onde a possibilidade de informação e de expressão seria sem limites e sem dono. Logo os monstros ocultos no anonimato foram saindo das sombras e dele fizeram uma casa mal assombrada.

Apareceram os que assaltam contas bancárias, os que roubam reputações, os pedófilos e os terroristas. E as empresas que, violando nossa intimidade com um olhar orwelliano, surrupiam nossos dados e nos revendem no mercado de qualquer coisa.

Apareceram agora os donos da verdade, os profetas da intolerância que, qualquer que seja sua cor política, são, por definição, autoritários. O site do PT traz um exemplo lapidar desse pensamento autoritário. Convoca a “militância às armas” para combater com argumentos “a ignorância” de quem discorda de seu credo. Como se fôssemos 51 milhões de ignorantes a serem convertidos pela “militância” que, pelo visto, nada tem a aprender e se prepara para uma cruzada. A retórica guerreira não arrefeceu. Quando virá o auto da fé?

Se a democracia, por um lado, se consolidou — quem temia o desinteresse foi surpreendido pela participação — por outro lado a banalização da violência interpessoal e da intolerância política que se retroalimentam e que a internet espelhou está se alastrando. Não desaparecerá por si mesma. A rede que se propunha aproximar as pessoas, ao contrário afastou-as.

O vírus da violência, ora mais, ora menos agressivo, está circulando na sociedade. E a imunidade baixou muito nessas eleições. Saído não se sabe de que baú de velharias apareceu em uma manifestação na Avenida Paulista um cartaz falando em golpe militar, palavras malditas que há quarenta anos não ouvíamos.

A oposição, pela voz de Aécio Neves, repeliu qualquer proximidade com esses fantasmas de um passado trágico, traçando um cordão sanitário que de pronto esteriliza qualquer contágio.

O ódio e a violência são corrosivos. A democracia contemporânea se fortalece e se afirma no trabalho que a sociedade faz sobre si mesma, defendendo a liberdade e combatendo em todos os espaços, reais ou virtuais, seus espasmos de selvageria.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

Cara a cara

PT se quis exemplar e jogou na roleta da corrupção seu capital ético, do qual nada sobrou. Vive dos dividendos de suas políticas sociais

 

Foi cara a cara, longe do país das maravilhas com que o PT bombardeou o Brasil na propaganda eleitoral, que Aécio Neves enfrentou Dilma Rousseff. É possível que esses poucos minutos do último debate na Globo tenham mudado a história do Brasil. A inesperada votação de Aécio não é alheia à maneira como ele quebrou o gesso dos marqueteiros e, descontraído, desestabilizou Dilma, que sobraçava um calhamaço de colas e procurava respostas nos manuais de João Santana.

Foi também no cara a cara que Luciana Genro pôde explicar a Levy Fidelix que a homofobia deveria ser crime pois, se já fosse, ele sairia dali algemado. O contraste entre a intensidade do debate e a propaganda pré-fabricada mostrou o quanto, sendo enganosa, ela distorce a democracia. Moral da história, quanto menos marqueteiro mais verdade, quanto mais verdade mais democracia. O debate cara a cara decidirá a eleição.

Marina não estará lá. Apesar de derrotada, é uma presença incontornável. Se não conseguiu, literalmente do dia para a noite, improvisar uma candidatura à Presidência, se teve que gastar seus parcos minutos na televisão apenas para se defender de ataques, nem por isso deixou de ter plantado suas sementes. Dilma não contará com o seu apoio. Está colhendo os frutos do veneno que sua campanha destilou.

Se Marina apoiar Aécio, levará consigo um pacote de compromissos que, metabolizados, trarão frescor e audácia à sua plataforma, a exemplo da escola de tempo integral e da diversificação das fontes energéticas. O voto de 22 milhões de brasileiros já inscreveu o ideário da sustentabilidade na agenda do país.

Aécio e Dilma estão, agora, cara a cara. A candidata do PT não poderá continuar a se referir a vagos malfeitos quando questionada sobre crimes como o assalto à Petrobras. Os depoimentos de Paulo Roberto Costa e do doleiro Youssef puxam o fio de uma meada que enreda e vai estrangular o projeto do PT de se eternizar no poder. A corrupção desvelou a face perversa de um partido que, infiltrado no Estado até a medula, confundiu-se com ele e instaurou a comunhão de bens. A candidatura petista continuará a ser assombrada pelo que sussurram os delatores, diretores de empresas e doleiros, nos gabinetes do Ministério Público.

Um partido que se quis exemplar jogou na roleta da corrupção seu capital ético, do qual nada sobrou. Vive dos dividendos de suas políticas sociais de transferência de renda, um capital político investido, muito justamente, nos mais pobres, que ainda são tantos e precisam do governo para progredir.

Há um contraste no país entre os polos mais avançados e escolarizados e aqueles mais dependentes de políticas assistenciais. Esses, concentrados nas regiões Norte e Nordeste, ou espalhados pelo país em bolsões de pobreza, graças às políticas que lhes trouxeram alento, deram um respeitável lastro de votos a Dilma. Os outros, com maior autonomia, exigem mais serviços e de melhor qualidade. São os 60% que votaram pela mudança. O mapa eleitoral conta a história desses Brasis diversos que, ambos, movem-se, felizmente, numa trajetória constante de melhoria que vem de duas décadas e que só tende a se acelerar.

É cara a cara que o PT deverá ouvir que mente quando só fala dos seus sucessos, não aceita críticas e desqualifica os adversários. A mentira está inscrita no autoritarismo dos que falam em nome do povo, arvoram-se em seus defensores enquanto se autoabsolvem de crimes comuns como o desvio de dinheiro público. A mentira foi, desde que o PT assumiu o poder, um instrumento de governo.

O PT mente quando quer controlar a mídia porque a teme — e a teme porque ela diz que ele mente — mas diz que o faz porque ela é “parcial” ou “vendida”. Parcial é o jornalista que discorda do seu modo de governar ou investiga suas transações.

Quer controlar a sociedade, porque a teme — e a teme porque ela aprendeu, por si mesma, a cobrar direitos — mas diz que quer “incentivá-la” a participar em conselhos que seu governo nomearia. Sabe o que é bom para a sociedade e quem deve representá-la. Não admite que a sociedade é múltipla, dinâmica e, exatamente porque mais informada, rebelde aos controles e censuras. Já é participativa, não precisa de “incentivos”, como mostraram as manifestações de rua e como mostra, nas esquinas virtuais, o efervescente interesse pelas eleições.

Escolher entre Dilma e Aécio não é uma escolha entre pessoas. É uma escolha da sociedade em que queremos viver. Ao autoritarismo retrógrado do PT, prefiro os desafios e o ar fresco de uma sociedade aberta.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

 

Questões morais

Em visita a um templo evangélico, Aécio Neves, depois de fervorosas orações, declarou que era “contra o aborto e contra as drogas”. Como se alguém, afora os que lucram com o aborto ilegal ou os traficantes, fosse a favor do aborto ou das drogas. Temos consumido anos de argumentação em debates a respeito da descriminalização da interrupção da gravidez indesejada ou do fracasso da guerra às drogas.

Trata-se de problemas de saúde pública e de dramas humanos pungentes. Declarações simplistas, talhadas para o auditório, não diminuem o número de abortos nem abrem caminho para políticas mais humanas e eficientes de combate às drogas.

O tema da homofobia também saiu do armário nessas eleições. A homofobia é manifestação de violência corriqueira que, quando não mata ou fere, envenena com humilhação a vida dos gays. É odiosa e criminosa, assim como o racismo.

O projeto de criminalização da homofobia está travado no Senado há oito anos. Quem for presidir o país vai poder ignorar os milhões de manifestantes que desfilam nas grandes e médias cidades em paradas do orgulho gay? Uma parcela da população não aceita mais que eles sejam assassinados e ofendidos. Não se trata de uma questão menor.

Margaret Thatcher não acreditava que existisse essa coisa chamada sociedade. Esquecia que Gandhi, fragílimo e desarmado, expulsou os ingleses da Índia apoiado nessa coisa que ela achava que não existia. Gandhi dizia que “uma árvore que cai, faz muito barulho, uma floresta que germina não se escuta”. Frase oportuna para pensar o Brasil.

Só ouvíamos o barulho espetacular da queda em desgraça dos velhos partidos políticos enquanto uma nova sociedade germinava. Esse barulho de árvores mortas que tombam torna inaudível a germinação silenciosa de uma liberdade de pensamento que foi penetrando na sociedade, aquela que supostamente não existe, mas viceja em sua imensa diversidade e luta pelas causas que lhe são caras.

Germinou uma democracia do cotidiano, vivida em profundidade por cada um, onde o que comanda é a liberdade de escolha, o direito de decidir sobre a sua própria vida. Os gays sabem que o amor é um pássaro louco que ninguém sabe onde pousará. As mulheres aprenderam nos embates duríssimos da vida real que seus corpos lhes pertencem. Agem e defendem-se em consequência.

As opiniões sobre questões morais se formam, cada vez mais, em círculos de confiança, exprimindo uma subjetividade trabalhada e sofrida, insubmissa às palavras de ordem de partidos ou dogmas religiosos.

Esse exercício de liberdade em que a sociedade se autotransforma extravasa da lógica partidária que tudo submete à luta pelo poder a qualquer preço ou das igrejas que submetem a espessura da vida real ao fogo dos infernos. É nos fios cruzados dos círculos de confiança, da capilaridade das redes sociais e da mídia onipresente que circulam argumentos e deliberações.

As meias palavras não aproveitarão aos candidatos. As liberdades morais entraram na agenda política e são incontornáveis. Talvez se esteja subestimando a sociedade, julgando-a mais conservadora do que ela de fato é. E não se tenha percebido que a expectativa do eleitor, essa sim esmagadoramente majoritária, é a credibilidade do candidato. Que cada um esteja realmente por trás do que diz. Honestidade também é uma questão moral.

O Brasil é um Estado laico, garantia sólida contra o fundamentalismo religioso. Maior garantia ainda é a capacidade do cidadão de formar sua opinião e assumir a autoria de sua vida. Nisso reside uma nova postura que não se aplica apenas aos costumes, mas também às escolhas políticas.

Foi essa nova postura que Marina Silva, na sabatina do GLOBO, destacou: “O mundo está mudando, existe um novo sujeito político que quer papel de autor.” Filha da floresta, talvez tenha ouvido essa germinação, o que explicaria a esperança que suscita.

A questão moral que deveria ocupar o proscênio nessa eleição, porque há anos revolta a sociedade, não é o comportamento privado, dos gays, das mulheres, dos que usam drogas. É a deslavada corrupção que se instalou no Brasil como instrumento de governo. Essa sim, obscena e imoral, porque predadora do dinheiro público, tem que ser criminalizada nos atos e não apenas em declarações de princípio.

É esse mundo sombrio que o debate sobre moral deve iluminar. Possam os gays amar em paz. Socorram-se, nas melhores condições, as mulheres em desespero. Que sejam acolhidos os que se perderam nas drogas. Guarde-se a prisão para os verdadeiros bandidos.

 

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

Não desistam do Brasil

Quando um acidente fatal acontece instala-se um sentimento de absurdo. Aconteceu como poderia não ter acontecido. E, entre essas duas possibilidades, seja para uma família ou para um país, cava-se um abismo. A vida que poderia ter sido e a que, doravante, será. E, contra todas as expectativas, um aprendizado: o acaso tem sempre a ultima palavra.

A desgraça que se abateu sobre Renata Campos e seus cinco filhos é difícil de aceitar. O Brasil perde com a morte de Eduardo um dos raros homens públicos que despertavam entusiasmo em tempos em que políticos têm merecido da população indiferença, quando não asco. Sua última entrevista ao “Jornal Nacional” na véspera da tragédia mostrou, sob duro questionamento, alguém capaz de olhar nos olhos de seus eleitores. “Não vamos desistir do Brasil” foi sua última mensagem, que calou fundo mesmo em almas gastas pelos dissabores.

Eduardo teria sido eleito? Como teria governado? Silêncio. O que não quer dizer que a esperança que tinha e que despertava morra com ele. Renata, uma mulher forte, há de saber, com o poeta Drummond, que “as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”. Os filhos de Eduardo vão crescer — o mais velho, João, já se manifestou nas redes pró-candidatura de Marina Silva com um límpido argumento: não teria sentido apoiar Dilma, que era sua adversária, em detrimento de Marina, que seria sua vice. O que se lhes pode desejar é que não percam o gosto da política que trazem no sangue e o olhar atento sobre as injustiças.

Eduardo Campos foi um ar fresco na atmosfera viciada dos partidos. Sua morte soma a perplexidade de seus eleitores ao já agudo desencanto que fere os jovens — é neles que penso — de quem precisamos tanto, já que são os autores do futuro. A credibilidade junto à juventude é um bom sinal.

O país tem uma dívida de gratidão com quem lutou contra a ditadura e trouxe o Brasil de volta à democracia, mas é preciso reconhecer que o ciclo que começou com o golpe de 64 está terminando. Cai o pano sobre seus atores. Partidos nascidos deste ciclo se afrontam nas urnas enquanto passa ao largo uma juventude para quem suas propostas estão esgotadas e que dá as costas a um quadro institucional falido.

Trinta anos atrás milhões de brasileiros foram às ruas exigindo eleições diretas. Hoje, às vésperas de uma eleição democrática, a juventude promete votos brancos e nulos. Sequer se inscreve para votar. A recusa da juventude tem raízes profundas e é uma história em curso.

PSDB e PT completaram a transição da ditadura para a democracia — obra do povo brasileiro — consolidando as liberdades públicas, estabilizando a moeda e combatendo a pobreza. A sociedade metabolizou essas conquistas. O que antes era percebido como favor do Estado, hoje é afirmado como direito. Os jovens acusam quem governa e quem legisla de estelionato contra a população. Vivem o Estado como sucata e a eleição como pantomima.

Na recusa visceral aos políticos e à politica partidária há uma mensagem a ser decifrada. Essa juventude não diz, como diziam seus pais, que “um outro mundo é possível”. Acredita que “outra vida é possível”. Vivencia a política no cotidiano, ancorada em escolhas existenciais. Seu espaço e tempo são aqui e agora. A experiência vivida é o seu horizonte.

Ouvir os jovens rejuvenesce: recusa radical da corrupção e da impunidade, exigência de serviços públicos eficientes, uma nova esfera pública onde tudo se sabe, tudo é debate, a juventude demonstrando nas redes sociais uma insuspeita capacidade de argumentação e uma expectativa de justiça que corrija as desigualdades.

Não estão incluídos entre os que rejuvenescem a democracia os jovens violentos que vivem no passado e citam Bakunin. Esses situam-se entre o ridículo e o patético.

Melhorar a qualidade da política e da democracia era o objetivo anunciado de Eduardo Campos que, muito jovem, entrou no PSB. Caberia a pergunta: o jovem descrente da politica por que não entra em um partido para tentar mudá-la? Porque partidos esclerosados não são as estruturas que melhor acolhem sua maneira de agir por uma causa. Movem-se em agrupamentos virtuais ou de corpo presente com um fim determinado, flexíveis e ágeis como são seus relacionamentos nas redes.

A morte de Eduardo torna imprevisível o resultado da eleição. Espera-se que Marina o substitua como candidata. Os jovens, nas redes sociais, já começaram sua campanha. Menos votos nulos e brancos? Quaisquer que sejam os caminhos que tomem, os votos que deem ou que neguem, há que insistir: não desistam do Brasil.

 

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

Pena de nós, não precisava

Brasileiros reagiram à eliminação da nossa equipe com maturidade que não esperávamos de nós mesmos

No sétimo dia de um luto discreto, cai o pano da Copa, abre-se o das eleições de outubro. O legado imaterial da bela festa que vivemos é ter posto em evidência que a sociedade brasileira mudou muito e para melhor, o que, não sendo um fenômeno claramente perceptível no dia a dia, já esboça o futuro do país.

Foi, sim, uma prova de fogo. Os brasileiros reagiram à eliminação da nossa equipe com maturidade que não esperávamos de nós mesmos, habituados que estamos a nos menosprezar. Onde choramos, qualquer um chorava. Dar a volta por cima que demos, no melhor estilo do mestre Vanzolini, quero ver quem dava. Equivocaram-se os que esperavam uma reação histérica frente à derrota, quebra-quebras e ranger de dentes. Em vez disso, houve lucidez face às nossas deficiências, aplausos, em campo, para o adversário que nos devastava e justificado orgulho de tudo mais que, na Copa, foi grande sucesso.

Houve tristeza; depressão, não. Nas esquinas virtuais, o debate sobre as causas do fracasso esquentou. A vitalidade das redes, que a sociedade brasileira vem usando a fundo, mostrou uma opinião pública que discute e argumenta, o que é bom para a democracia. Acrescente-se a explosão de humor cáustico que desdramatizou o que se esperava fosse um velório. Pena de nós, não precisava…

Os aplausos vão para o povo brasileiro — saravá, saudoso Ubaldo — que, em todos os níveis, tem muito mais competências do que admitem os que alimentam a baixa estima e os catastrofismos. O cartão vermelho vai para o padrão Fifa de corrupção. Entre as poucas prisões, a mais notória foi a de um seu parceiro privilegiado que, como um camelô fugindo do rapa, escapou pela porta dos empregados do Copacabana Palace quando a Polícia Federal sentiu cheiro de enxofre no negócio milionário da venda de ingressos. Cartão vermelho também para o superfaturamento dos estádios e para o desabamento de um viaduto mal construído que feriu e matou, crimes que terão que ser apurados.

A sociedade brasileira surpreende. Já tinha surpreendido com as manifestações pacíficas de junho do ano passado ao colocar claramente suas reivindicações e ao se retirar das ruas, dando prova de bom senso, para não confundir-se com um punhado de mascarados saídos não se sabe de onde nem mandados por quem.

Os candidatos à Presidência da República vão se defrontar com essa sociedade que mal suspeitam. Melhor do que imaginam, ela sabe o que quer e o que está em jogo. Se suspeitassem não venderiam a alma em alianças tragicômicas em troca de um minuto a mais na televisão. Faço uma aposta ousada que vai contra o senso comum: marqueteiros não terão sucesso junto a uma população descrente das balelas que lhe contam nesse tempo de televisão tão cobiçado. Essa venda de almas e votos, ao contrário, tira votos pela indignação que a geleia geral provoca.

Há, no eleitorado, uma forte exigência de verdade que ainda não encontrou eco. Daí o voto órfão. Na última pesquisa Datafolha, somados os votos brancos, nulos e indecisos, um em cada quatro brasileiros não escolhe ninguém. É possível que essa mistura de desilusão e perplexidade venha a decidir o resultado das eleições.

A aposta na propaganda para conquistar esses votos pode sair pela culatra. Como assistir, no horário eleitoral, a bravatas que a vida real em tempo real desmente? Como não se irritar com essa espécie de making ofque vem a público, onde se discute as estratégias de convencimento que serão adotadas em campanhas milionárias?

Esta seria a campanha das campanhas se desta vez, no jogo eleitoral, a mágica ilusionista do marketing perdesse para a vida real, para a lucidez da população sobre o que precisa para bem viver.

O eleitorado deixou de ser massa informe. Quanto mais se individualiza, mais se torna imprevisível, ganha em diversidade e complexidade. As malhas da “ciência” marqueteira terão problemas para pescar esse eleitorado nuançado, que vive às voltas com os infindáveis problemas de um cotidiano áspero e há muito perdeu a paciência com promessas. O teste do candidato será a credibilidade que se perde ou se ganha em não mais que um minuto no cara a cara com o eleitor. O voto que hoje é órfão e em outubro será decisivo só encontrará abrigo na sinceridade.

Derradeiro legado da Copa: aprendemos, com o descalabro de Felipão, a desconfiar das lideranças iluminadas e a confiar nas equipes bem treinadas e competentes, onde não há herói nem condottiere, apenas cada um fazendo bem o que tem que fazer na posição em que joga no time. Não é isso o bom governo?

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

rosiska.darcy@uol.com.br

Festa

Uma explicação simples para a proliferação nas favelas e nos subúrbios de campinhos de terra batida: o futebol, no Brasil, é esse fenômeno que leva à gloria e à fortuna um menino pobre, quase sempre negro ou mulato, o que já o situa em um país que aboliu a escravidão mas não a sua herança.

Pelé ou Neymar, esse menino serve de espelho às esperanças de um povo inteiro a quem o futebol oferece uma oportunidade — rara, quase única — de se sentir o melhor do mundo. A centralidade do futebol na vida dos brasileiros é razão de sobra para vivermos este mês em estado de euforia como se na Copa do Mundo estivesse em jogo a nossa identidade.

E, também, para detestarmos o que a Fifa produziu como espetáculo de abertura, um pastiche cafona da cultura brasileira, atestando abissal ignorância ou menosprezo por parte de quem o contratou. Um insulto ao país dos espetáculos grandiosos que põem em cena, a cada mês de fevereiro, milhares de figurantes em coreografias e cenários de tirar o fôlego, outro legítimo orgulho nacional. O Brasil está devendo ao mundo e a si mesmo uma apresentação autoral de quem somos. Um alerta e um desafio para a cerimônia de abertura das Olimpíadas de 2016.

A Copa do Mundo revela ambiguidades de nosso tempo. Um bilhão e meio de pessoas assistem às mesmas imagens confirmando o avanço da globalização. Mas o conteúdo das imagens a que todos assistem afirma os pertencimentos nacionais, expressos com símbolos ancestrais, bandeiras, emblemas, hinos entoados com lágrimas nos olhos. O nosso é cantado a capela pelos jogadores e uma multidão em verde e amarelo desafiando o regulamento da Fifa, entidade sem pertencimento que salpica no espetáculo, em poucas notas mal tocadas, o que para cada povo é a evocação emocionada de sua história. No mundo de hoje comunicação e mobilidade se fazem em escala global mas os sentimentos continuam tingidos pelas cores da infância.

O respeito às regras, saber ganhar e saber perder, são conquistas de um pacto civilizatório cuja validade se testa a cada jogo. A violência em campo que, aos habitués dos estádios parece normal, aos olhos de uma leiga torcedora de Copa do Mundo é aflitiva. Em equilíbrio instável, as equipes oscilam entre o compromisso com o fair-play e os tambores da guerra refletindo a banalidade com que, mundo afora, se convive com a brutalidade.

O futebol é useiro e vezeiro em contrariar cenários previsíveis. O acaso pode ser um desmancha prazer. A multidão que se identifica com os craques e que conta com eles para realizar o gesto de grandeza que em vidas sem aventura nunca acontece, essa massa habitada pela nostalgia da glória deifica os jogadores e esquece — e por isso não perdoa — que deuses às vezes tropeçam nos próprios pés, na angústia e no medo.

É essa irrupção do acaso que faz do futebol mais do que um esporte, um jogo, cuja emoção nasce de sua indisfarçada semelhança com a própria vida, onde sucesso ou fracasso depende tanto do imponderável. Não falo de destino porque a palavra tem a nobreza das tragédias gregas, do que estava escrito e fatalmente se cumprirá. O acaso é banal, é próximo do absurdo. É, como poderia não ter sido. Se o acaso é infeliz chamamos de fatalidade. Feliz, de sorte. O acaso decide um jogo. Nem sempre a vida é justa, é o que o futebol ensina.

A melhor técnica, o treino mais cuidadoso, está sujeito aos deslizes humanos. Quando toca o apito, entra em campo, com as seleções, a possibilidade de um pênalti que só existiu aos olhos do juiz, de uma expulsão que desarruma todo o time ou, reverso da medalha, de um prodigioso voo de pássaro de um atacante holandês.

Seremos campeões? Não sabemos. Tomara. O melhor do futebol é a alegria de torcer. Essa Copa do Mundo vem sendo uma festa vivida nos estádios, nas ruas e em cada casa onde se reúnem os amigos para misturar ansiedades. A cada gol da seleção há um grito que vem das entranhas da cidade. A cidade grita. Nunca tinha ouvido o Rio gritar de alegria. Um bairro ou outro, talvez, em decisões de campeonato. Nunca a cidade inteira, um país inteiro. Em tempos de justificado desencanto e legítimo mau humor, precisamos muito dessa alegria que se estende noite adentro nas celebrações e na confraternização das torcidas.

Passada a Copa, na retomada do cotidiano, é provável que encontremos intactos, o desencanto e o mau humor, já que não há, à vista, sinais de mudança no que os causou. Uma razão a mais para valorizar esse tempo de alegria na vida de uma população que, no jogo da vida, sofre tantas faltas.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora