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O pecado da intolerância

Entre os defensores das liberdades e os pregadores do pecado omnipresente a relação não é de simetria e sim de desigualdade

A resposta raivosa da bancada evangélica no Congresso Nacional à Parada Gay é mais um capítulo da ofensiva fundamentalista que se abate sobre o nosso país.

Vivemos tempos difíceis. Como se já não bastassem os escândalos de corrupção e os desastres causados pela incompetência e o aparelhamento do Estado, multiplicam-se as tentativas de dar soluções simplistas e oportunistas a complexos problemas humanos.

Casamento gay, interrupção voluntária da gravidez, direito à morte com dignidade são situações existenciais em que o exercício da liberdade com responsabilidade deve primar sobre os interditos religiosos.

As sociedades abertas dão aos seus cidadãos o direito de tomar decisões sobre questões que afetam sua liberdade, identidade e destino. Foi assim que, para surpresa de muitos, a população da catoliquíssima Irlanda acaba de votar por larga maioria a favor do casamento gay. Foi também assim que os parlamentos das protestantíssimas Holanda e Suíça adotaram legislações que asseguram o direito à morte com dignidade. Anos atrás seria impensável imaginar que a maioria da população dos Estados Unidos, país profundamente religioso, aceitasse o casamento gay como acontece hoje.

Os costumes mudam e, com eles, as leis. O que era destino preestabelecido vira escolha. O que não impede que muitos, por convicção e graças à livre escolha, pautem suas vidas por princípios religiosos e outros por princípios laicos. A ética não é monopólio dos religiosos.

Ao contrário do que imaginam os preconceituosos defensores da conformação de todos a uma regra geral e inflexível, o exercício da liberdade em questões da esfera íntima não é intempestivo nem irresponsável. Implica valores, noções de certo e errado. É sempre uma decisão sofrida, lentamente amadurecida, que cada um toma plenamente consciente das consequências que terá que assumir. Esta elaboração, por penosa que seja, por cada um de seu código ético é o contrário mesmo da leviandade. São decisões quase sempre tomadas em consulta com as pessoas mais próximas, de nossa maior confiança, com quem tecemos os laços afetivos mais sólidos.

O eminente filósofo protestante Paul Ricoeur definiu como “círculos de confiança” estes contextos de deliberação íntima dos quais emerge uma “consciência individual ampliada”. Já não se age porque tem que ser assim mas porque, em diálogo com aqueles em quem confiamos ou que já passaram por situações similares, decide-se que assim seja.

Já vão longe os tempos em que uma verdade revelada ou o peso da tradição nos diziam como bem viver e morrer. A ética, nas sociedades abertas, não é uma herança nem uma imposição, é uma construção. É no indivíduo que se situa a decisão sobre os seus valores. Já que escolher valores e viver no seu compasso ainda é o que dá sentido às nossas vidas.

Os que defendem a manutenção das proibições argumentam que têm o direito de expressar sua opinião. O problema é que não se trata simplesmente de um entrechoque de opiniões. Os que reivindicam o exercício da liberdade não impõem suas opções a ninguém. Já os que advogam a manutenção das proibições criam todo tipo de obstáculos ao exercício da liberdade do outro. Expõem as mulheres que abortam na clandestinidade a riscos incomensuráveis à sua vida e sua saúde física e psíquica. Negam o direito dos doentes terminais em situação de intolerável sofrimento de morrer com dignidade. Negam aos gays o precioso direito ao amor e à família.

Entre os defensores das liberdades e os pregadores do pecado onipresente a relação não é de simetria e sim de profunda desigualdade. Proibindo e criminalizando comportamentos e valores que fogem do seu figurino estreito, o fundamentalismo impõe a todos a sua visão do certo e do errado. O fundamentalismo é a negação da liberdade e do exercício da responsabilidade.

O divisor de águas não é, portanto, entre quem tem fé e quem não tem. É entre intolerantes e libertários. É entre a imposição e a escolha, o único e o múltiplo, o fechamento e a abertura, o arco-íris da diversidade e o obscurantismo monocromo.

Entrincheirados no Congresso Nacional, que autoridade têm esses falsos moralistas para se arrogarem em árbitros do comportamento de todos os cidadãos?

Apesar de todos os percalços, a sociedade brasileira vem avançando rumo a mais liberdade e responsabilidade. Se o Congresso uma vez mais nos decepcionar, só colherá o aumento da já imensa rejeição que sofre por parte da opinião pública. Será condenado à irrelevância por mais um pecado: o pecado da intolerância.

O tempo dos selfies

País vive eterno presente, em que os fatos e as fotos se sucedem sem contexto e sem enredo. Tudo se esgota no escândalo do dia

O autorretrato foi para os mestres da pintura que viveram antes do advento da fotografia a maneira de revelar não só o mundo que viam e como o viam em cores e formas, mas o lugar íntimo de onde viam, a densidade de seu olhar. Obras-primas nasceram do pincel de um Rembrandt ou de um Van Gogh, que legaram ao futuro seus rostos em várias idades, impregnados de suas angústias.

O autorretrato foi sempre um momento maior na carreira de um artista. Buscavam a imortalidade na grande arte e a grande arte no autorretrato. Tinham a dimensão da História.

Hoje, o autorretrato é o exercício preferido de qualquer anônimo que estenda o braço com o celular na mão e lá vem mais um selfie. Um exercício lúdico e narcísico, cujo destino é ser deletado ou, com sorte, fazer um imprevisível caminho na Rede. Uma ou algumas caras, talvez caretas, sem contexto, sem profundidade, imagens deixadas ao efeito de luzes e sombras eventuais.

O selfie não quer fixar nada, senão uma informação fugaz sobre o momento vivido e compartilhá-la com o maior número de pessoas. Não sei se é um brinquedo inofensivo ou metáfora do tempo presente, em que a instantaneidade, a quantidade e o descompromisso com a qualidade são a regra.

Vivemos um tempo sem memória, que tudo registra para logo tudo esquecer. Um eterno presente que capta a instantaneidade do fato e se alimenta da velocidade da informação. Sem passado, que não se cristaliza, diluído em uma renovação permanente de notícias, nem futuro que, sem tempo para amadurecer, é uma ausência.O momento seguinte não tem tempo nem razão para amadurecer.

Marc Zuckerberg, perguntado sobre o objetivo do Facebook, respondeu: “Conectar-se”. Para quê? “Para conectar-se”.

O cotidiano vivido cada vez por mais pessoas e por mais tempo entre as telas do celular e do computador vai moldando uma percepção do mundo que é tão alheia ao mundo pré-virtual quanto um autorretrato de artista a um selfie. O snapchat, que envia uma foto que dura segundos e se auto deleta, é a última flor dessa língua cada vez menos compreensível para a geração do portarretrato.

A intensa vida virtual atualiza palavras como presencial, um adjetivo que hoje qualifica a natureza excepcional de um encontro entre gente de carne e osso. Manifestações de rua são presenciais. As outras são simplesmente o dia a dia de quem vive no mundo virtual, onde a opinião é produto do dilúvio de informações, muitas de origem aleatória ou autoria incerta. A quantidade dessas informações, em que a qualidade não é um critério, quando mal digerida é tóxica. Essa é a face oculta de uma admirável democratização do direito de expressão.

Para o bem ou para o mal, a sociedade está mudando mais pela tecnologia do que pela política, desfigurada em partidos carcomidos pela corrupção. Transformados em ajuntamentos de interesses pessoais, sem valores, sem compromisso com o interesse público e sem visão de futuro, recolhem a aversão como sentimento comum à população. A política desliza, então, para outras formas de expressão e, entre elas, está certamente o fervilhar de debates na comunicação virtual, com os prós e contras desse mundo e de sua incorpórea população.

O Brasil vive um momento de selfies. Um eterno presente em que os fatos e as fotos se sucedem sem contexto e sem enredo. Tudo se esgota no escândalo do dia, no toma lá dá cá, nos implantes de cabelo, na roubalheira da véspera, na amante do doleiro cantarolando Roberto Carlos na CPI, no ex-presidente que se expõe malhando, suando e dizendo banalidades sobre vida saudável.

Autoridades viram piadas corrosivas na rede, onde a derrisão é a regra. O falso revolucionário que antes cerrava o punho, hoje atravessa a tela com os pulsos algemados. Amanhã é o CEO engravatado da grande empresa que explica, com ar compenetrado, como dar propina. Delata-se. Deleta-se.

O Brasil entrou na era do desnudamento. Nas redes, tudo se sabe, se compartilha, se comenta. Pouco se interpreta. Menos ainda se entende. E amanhecemos em um presente sem futuro.

A cultura virtual está se tornando a Cultura. Há uma armadilha, que precisa ser desarmada, em sua relação com o tempo. Ela impõe uma vida acelerada que não pensa o amanhã.

Falar em dimensão histórica soará estranho a ouvidos jovens. Este texto é longo para quem se exprime em twitter e WhatsApp. Mas é preciso que eles saiam do eterno presente, conheçam o passado e assumam o compromisso com o futuro. Façam projetos ditados por valores. O país precisa deles para superar a esclerose. O futuro será o que eles fizerem.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

rosiska.darcy@uol.com.br

A implacável lógica da mentira

Maioria dos que contestam o PT não é ‘direitista’. São brasileiros que querem que instituições funcionem, em particular a Justiça

 

A mentira tem uma lógica implacável. Só é possível mantê-la graças a mais mentiras. Essas mentiras a mais vão exigir, para que não sejam descobertas, uma cadeia de novas mentiras. A mentira é um poço sem fundo. Com o tempo, ela invade tudo e passa a alimentar-se a si mesma.

Para o mentiroso, o hábito da mentira acaba por transformá-la na sua verdade. Ele se sente injustiçado quando o acusam de mentir. O impostor que se apresenta como herói sofre quando lhe dizem que ele não é senão um impostor.

Foi essa logica diabólica que enredou o Partido dos Trabalhadores desde que suas lideranças começaram a mentir.

Seus militantes negam as acusações de corrupção sabendo que elas são verdadeiras. Confrontados a provas irrefutáveis, alegam estar a serviço de uma causa nobre — são os únicos que estão verdadeiramente do lado dos pobres — o que, na linha dos fins que justificam os meios, os absolveria. Argumento tragicômico. A causa dos pobres é a primeira vítima dos desvios de dinheiro público.

Protegem-se das críticas repetindo a arenga da “esquerda” contra a “direita”. E a “direita” amalgamaria todos que não compram a versão dos heróis ofendidos.

Que esquerda é essa que o PT estaria encarnando? O que o partido fundado por grandes brasileiros, como Mario Pedrosa e Paulo Freire, fez de si mesmo, seu colapso ético que desrespeitou um passado honroso e o comprometeu com uma corrupção sistêmica, não lhe autoriza a invocar o monopólio da preocupação com os mais pobres e do projeto de assegurar a todos os meios de sua dignidade.

Somos muitos no Brasil os herdeiros de um princípio de solidariedade e de igualdade, que um dia definiu a esquerda. Somos muitos, ancorados em uma consciência democrática, a honrar essa herança sem renunciar à inegociável liberdade.

À esquerda de quem estão os tesoureiros presidiários? O dossiê judiciário que se acumula contra seus dirigentes coloca o partido não à esquerda, porem à margem. Na marginalidade.

Que direita é essa com que nos assombram? A estratégia petista para manter seu poder tem sido promover a radicalização ideológica. Ameaçando as ruas com supostos exércitos do MST, pela provocação acordam fantasmas adormecidos, dando-lhes um protagonismo que já não têm. Esses fantasmas de uma volta ao passado servem então de espantalho e fica mais fácil dizer “quem não está conosco está com eles”. O amálgama desqualifica, por contágio, todos que se opõem aos seus desígnios.

A esmagadora maioria dos que hoje contestam o PT não é “direitista”. São brasileiros que querem que as instituições funcionem bem, em particular a Justiça. São pessoas que ganham a vida com o seu trabalho e a quem, por isso mesmo, a corrupção repugna. Que se preocupam, sim, com políticas que combatem a pobreza e pedem serviços públicos decentes que seus impostos pagam, bem sabendo que a corrupção é o buraco negro que suga os recursos do país.

Não se referem a doutrinas, nem à esquerda nem à direita, referem-se à vida real, querem um governo competente, querem liberdade de expressão para formar livremente sua opinião, querem respeito.

Cansaram da coleção de bonés contraditórios do ex-presidente Lula, da metamorfose ambulante, da farsa dos punhos fechados desses “prisioneiros políticos” de si mesmos, de seu próprio governo. Cansaram das promessas de campanha viradas pelo avesso, dos atos esquizofrênicos em defesa da Petrobras convocados pelos que quase a destruíram. Cansaram da mentira.

Os que se comportaram como donos do Estado quiseram também arvorar-se em donos da sociedade, tentando encapsulá-la nas fronteiras estreitas de movimentos sociais e organizações populares hoje a seu serviço mais do que da expressão autônoma de direitos e identidades. Inútil; a sociedade em sua diversidade é muito mais complexa e insubmissa do que organizações que se tornaram paragovernamentais.

A população brasileira não está dividida pela oposição esquerda e direita. Na nossa democracia cabem todos os atores políticos que se exprimam no marco da legalidade constitucional. O que não cabe mais é a corrupção se intitulando política. E, pior, mais cinicamente, revolucionária. O que não cabe mais é a impostura.

O dicionário “Aurélio” oferece várias definições da impostura, todas em torno da mentira, do embuste, da falsa superioridade. A última a define como o “farrapo que se prende ao anzol para engodar os peixes”. Engodar é seduzir com falsas promessas. O ex-presidente Lula está programando uma viagem pelo Brasil para falar às “bases”. E se os peixes não vierem?

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

rosiska.darcy@uol.com.br

A liberdade comanda

‘Babilônia’ tira tarja preta de um tipo de relação humana entre muitas outras possíveis. Gays estão em todos os estratos

Foi no Teatro Jovem, uma sala minúscula no canto da Praia de Botafogo, que vi Nathalia Timberg pela primeira vez. Nathalia foi a Antígona dos meus 20 anos. Lembro-me dela, jovem e bela, as mãos espalmadas para o alto, dizendo algo como “com as minhas unhas quebradas e as mãos sujas de terra, eu sou rainha e você, Creonte, o rei, é um escravo que só pode me condenar à morte”.

A jovem princesa tebana, selvagem filha de Édipo, desafiava o poder, era a imagem mesma da rebeldia. Quando escrevi meu primeiro livro sobre a rebelião das mulheres, pensei em dedicá-lo a Nathalia que, sem saber, com seu talento de intérprete, plantara em mim essa imagem da ousadia e da coragem.

Fernanda Montenegro foi a Simone de Beauvoir da minha idade madura. Noites seguidas assisti à peça “Viver sem tempos mortos”, a história de Simone na voz de Fernanda. Terminada a encenação, eu fazia um comentário sobre a autora e abria-se um debate com a plateia. Durante meses ouvi Fernanda repetir com a mágica que têm as entonações precisas dessa formidável atriz: “A liberdade comanda, ela não obedece”. A cada vez eu concordava com ela.

Nathalia e Fernanda são mulheres luminosas, trajetórias impecáveis de talento, dignidade e honestidade. Elas são o melhor do Brasil, patrimônio da nossa arte, ainda mais preciosas e exemplares neste momento em que a política chafurda o país na mentira e na intolerância. Hoje, aos 85 anos, elas estão em cena na novela “Babilônia” vivendo duas idosas que mantêm uma relação amorosa estável há mais de 40 anos.

Os personagens de Estela e Teresa estão provocando a ira de pastores de fancaria e outros moralistas de todo gênero, que esbravejam em nome da defesa da moral e da família. Houve notas de protesto contra o erotismo das senhoras. O tom nas redes sociais deslizou para a brutalidade vulgar. Nem a pessoa das atrizes foi poupada.

O que chocou tanto essas pessoas? Ignoram, vivendo no Brasil e não no Estado Islâmico, no ano de 2015, que os direitos de casais homossexuais são reconhecidos pela lei brasileira, assim como na grande maioria dos países civilizados?

São numerosos e, vivendo abertamente suas vidas amorosas e familiares, vão saindo progressivamente de um lugar de negação e vergonha, de não eu, em que a hipocrisia da maioria os colocava, para afirmar um outro eu. Denunciam assim, a intolerância à alteridade, que nos leva a ver o nada no que não nos reflete e descreve o diferente como ausente.

Pessoas que eram definidas de maneira negativa e patológica — e, humilhadas, se autodefiniam assim — passaram a se afirmar, a encarnar um código próprio, expondo e legitimando uma possibilidade existencial outra. Iluminaram as zonas de sombra e proibição onde, desde sempre, se escondia o lado “inconfessável” da sociedade.

O que se vê, agora, não é nada extraordinário, é a mesma realidade de carinho, apoio mútuo e também desavenças, encontros e desencontros em que todos os casais se reconhecem. É essa banalidade dos personagens de Estela e Teresa que desmonta os interditos e maldições que pesam sobre os casais do mesmo sexo.

A dramaturgia de “Babilônia” tira a tarja preta de um tipo de relação humana entre muitas outras possíveis. Os gays estão em todos os estratos sociais, etnias e religiões. Por que ainda assustam e despertam tanta agressividade? Fica claro que a patologia não está neles nem em suas vidas. Está em quem derrama o veneno do ódio sobre o amor alheio. O Papa declarou: “Quem sou eu para julgar?”

Além do preconceito contra homossexuais, nos ataques às personagens Estela e Teresa se manifesta outro preconceito, contra a sexualidade dos idosos sobre a qual ainda pesa um silencio constrangido ou a acusação de despudor.

Mais que a decadência das formas é o olhar dos outros, condenatório, que proíbe aos corpos envelhecidos, sujeitos à impiedosa escultura do tempo, o alumbramento diante da vida. Felizmente, o ardor resiste, já que é feito de matéria não perecível. Quem não se reconhece nas fotos, se reconhece nas emoções que persistem e que são vividas na alegria. Queiram ou não, os que digerem mal a liberdade.

Quem já foi Antígona, quem já foi Simone de Beauvoir, na certa não teme representar nenhum papel. Não são as novelas que mudam a sociedade, é a sociedade que já mudou que dá veracidade às novelas.

A sociedade brasileira muda para melhor quando, em todos os planos, quer a verdade. De nada adianta políticos canastrões, campeões da hipocrisia, desarquivarem projetos de lei anacrônicos. A liberdade comanda, ela não obedece.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

 

A águia redentora

Cariocas devem agradecer à Portela esse momento que entra para a história da cidade como uma das mais belas evocações do Rio

O que melhor atesta a grandeza de uma pessoa? O senso comum acredita que seja a capacidade de enfrentar a adversidade. A coragem é sempre valorizada. Outra hipótese menos explorada seria que a grandeza se mostra na capacidade de viver a alegria. A alegria é suspeita de leviandade. Pode ser que essas duas versões às vezes se confundam e essa hipótese explicaria o destino da cidade em que, por sorte, nasci.

Amanhã o Rio completa 450 anos. Nessa já longa vida vem testemunhando uma história em que se misturam a dor e a alegria. Não é preciso na véspera do aniversário fazer o inventário das misérias que todos conhecemos. Nenhuma delas é aqui esquecida ou minimizada. “E, no entanto, é preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar e alegrar a cidade”. Impossível festejar o aniversário do Rio sem Vinicius. E vamos concordar com ele que “é melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe”.

Hoje, louvando o que bem merece, é a admirável capacidade do povo carioca de ser alegre que invade o texto.

As multidões que no carnaval tomam as ruas, vindas de todo canto, e se constituem em blocos onde milhões de pessoas se divertem de graça, incansáveis, durante uma semana, são a prova dessa alegria, em que há também “um bocado de tristeza”. E de uma energia que ninguém sabe de onde vem e que os dissabores não conseguem sufocar. Em tempos de fundamentalismos delirantes, os blocos são um discurso vivo contra todos os fundamentalismos, são eles que, pela irreverência, anunciam os pecados da cidade e afirmam, pelo simples fato de existirem, sua maior virtude, a tolerância.

O carnaval é uma festa virtuosa ao contrário do que dizem os que acreditam deter o monopólio da virtude. Se o carnaval causa problemas, e causa muitos, de barulho, mobilidade, limpeza, segurança, todas as soluções logísticas são urgentes e bem-vindas, exceto estancar essa alegria das ruas que veio para ficar.

Este ano, do fundo da Sapucaí surgiu uma águia branca, redentora, um Cristo alado pousado no asfalto, que atravessou a avenida fundindo no simbolismo o carnaval e o próprio Rio. Águia com vocação de pomba da paz, abrindo e fechando as asas em movimento protetor. Águia branca redentora, livrai-nos da ganância que prostitui o carnaval.

Abria caminho para ela um tapete de velas que, na cabeça das baianas, comemoravam o aniversário da cidade. Cada carioca deve agradecer à Portela esse momento de graça que entra para a história da cidade como uma das mais belas evocações do Rio produzidas pela arte popular, emblema do carnaval dos 450 anos.

Do que nos redime esse Cristo alado, surrealista, inspirado em Magritte? Do vício de só olhar para nossos defeitos e carências. Sofremos dos infernos de cada dia que afligem as grandes metrópoles, da falta d’água ao trânsito impossível, sem falar no mais sinistro, a violência. De mediocridade, não. De falta de criatividade, não sofremos.

Não se menospreze a alegria dos cariocas como um mito ou uma inútil peça de folclore. É um traço cultural, que melhor se mostra no carnaval, mas está presente o ano inteiro, recurso de sobrevivência precioso na luta contra um cotidiano áspero. Não fosse assim não teriam as escolas de samba nascido nos bairros mais pobres da Zona Norte nem os grandes blocos congregado os que precisam da rua, que é de todos, para brincar.

Qualidade de vida é um conceito difícil de definir e medir. Espalhadas pelo mundo há cidades afluentes onde tudo funciona bem, que levam sempre os primeiros lugares na escala de melhor qualidade de vida. Nem sempre são cidades alegres. A alegria essa palavra que, como a liberdade, o sonho humano alimenta, que também ninguém define e não há quem não entenda (perdoe-me a memória de Cecilia Meirelles pela paródia de pé quebrado), não entra em consideração nessas escolhas.

Não só alegre, o Rio é uma cidade inteligente. Inventa, não copia. Recebe todos, brasileiros ou não, para fazê-los seus. Inimitável, é ela a mãe nossa de cada dia. Rebelde, vive os paroxismos dos inconformados, diaba solta nas suas próprias ruas, nas vielas, testemunha e herdeira de descaminhos, erros e desgovernos. E se pergunta, desolada, por que não foi mais feliz.

Compõe então suas melhores canções, que exprimem a vocação de poesia que, para além do bem e do mal, emerge do espelho. Do espelho do mar. O mar que insiste em chamá-la de linda, em amá-la dia e noite, como se fosse perfeita. O mar que a consola, embala, perdoa. O mar que é como todos nós, seus filhos devotos e amantes incondicionais.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

rosiska.darcy@uol.com.br

Lata d’água na cabeça

NÃO NOS SUBESTIMEM, APRENDEMOS DEPRESSA O QUE É CRISE HÍDRICA E VOLUME MORTO: FALTA D’ÁGUA PARA MILHÕES DE BRASILEIROS

Sessenta anos atrás, no carnaval do Rio, o povo cantava a falta d’água. Lá ia Maria que, “lata d’água na cabeça, sobe o morro e não se cansa, pela mão leva a criança”, Maria que lutava pelo pão de cada dia e sonhava com a vida do asfalto que acaba onde o morro principia. Hoje, às voltas com a mesma lata d’água, não sei se ela sonha com a vida do asfalto já que, mais de meio século depois, no asfalto também falta água. Sensação de tempo circular, de eterno retorno. Pura sensação. Tudo mudou.

O carnaval chegando, à boca do povo voltam os versos carnavalescos que, na década de 50, contavam o que era o Rio de Janeiro, “cidade que me seduz, de dia falta água, de noite falta luz”. A marchinha mereceu, na época, tradução para o inglês da grande poetisa Elizabeth Bishop, moradora do Rio que estabeleceu com a cidade ambígua relação de amor e ódio, estarrecida com a alegria — ou a leviandade — com que os cariocas cantavam seus males.

Os cariocas mudaram. Mudou o humor. Cenhos franzidos, desgosto, olhares para o céu à cata de nuvens, ninguém está achando graça nesse inferno. Calor sufocante e uma irritação profunda e generalizada ensombrecem os tempos pré-carnavalescos. E abrem alas para quem quer engrossar e pôr na rua o bloco dos descontentes.

Nesse mais de meio século, o Brasil mudou muito e para melhor, a água encanada chegou a tantos lares que é mais difícil hoje aceitar quando a torneira seca. A população já não transforma em sambas seu desgosto. Quer saber o que está acontecendo e os riscos que corre. O ilusionismo das palavras não vivifica a terra crestada no fundo das represas.

Os governantes devem ao país uma informação cristalina sobre o que está se passando e um detalhamento das ações de resposta à crise que não deixem a sensação de que, de novo, há algo escondido. O problema é técnico, de difícil entendimento? Não nos subestimem, aprendemos depressa o que é crise hídrica e volume morto: falta d’água para milhões de brasileiros, para a indústria e agricultura. E a proximidade do fundo do poço.

A política de ocultação que precedeu as eleições, impedindo as medidas preventivas necessárias, erro gravíssimo imputável a gregos e troianos, deu no que deu: agravamento do problema e desgaste da credibilidade de todos. Sem credibilidade, vai ser difícil pedir ajuda à população para diminuir o consumo, dividir com ela as responsabilidades no enfrentamento da crise. Sem a certeza de que os governos estão dizendo, enfim, a verdade, não haverá mobilização nacional. E é certo que ela será incontornável.

O ministro de Minas e Energia apelou para Deus que, segundo ele, é brasileiro. Por pouco não cantou “Alá-lá-ô, ô ô ô, mande água pra ioiô, mande água pra iaiá”. Ora, Alá, meu bom Alá, anda às voltas com os horrores e barbáries que se cometem em seu nome e o Deus que nos protege não é só brasileiro. Seu ministro mandachuva, São Pedro, manda chuva também para outros lugares. Brasileiros mesmo, somos nós, e a conversa é conosco.

A crise, real e imediata, tem a virtude de ensinar a milhões de pessoas a responsabilidade pelo seu próprio futuro e a consciência de que viver melhor ou pior é, em boa medida, o resultado de nossas próprias escolhas. As crises são educativas e uma oportunidade para mudança de comportamentos.

Começando pelo comportamento de quem nos governa. É imperativo o entendimento entre a presidente da República e os governadores dos estados atingidos, acima das querelas partidárias. Em tempos de politicalha minúscula e picuinhas, de irresponsabilidade máxima, seria um alívio a união nacional em torno do interesse público, esse que é sempre a última das preocupações da classe política. Melhor seria se, reconhecendo os imensos erros cometidos — mentiras eleitorais, falta de planejamento, incompetência na gestão e atraso tecnológico — fossem os governantes capazes de unir forças para corrigi-los.

Resta o imponderável, a chuva. As florestas amputadas estão cobrando seu preço. A natureza tem história, uma história humana da natureza, e ela sempre acaba por mostrar quem tem a última palavra. No Sul Maravilha brotam angústias nordestinas. O sertão vai virar mar e o mar virar sertão? E se chover pouco ou nada no fim do período de chuvas?

Não adianta mais cantar, como nos carnavais de outrora, “Tomara que chova três dias sem parar”. O cerne da questão é que não estamos, como poderia parecer, voltando ao passado. Estamos chegando ao futuro. Apertem os cintos para aterrissar na real. Água será um bem cada vez mais raro no mundo.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

rosiska.darcy@uol.com.br

O amanhã do Rio

Quando o Rio começar a sair literalmente do buraco das obras de renovação em que está mergulhado, dias melhores virão

Feliz Ano Novo, leitores. Afinal, vivemos nesta cidade que vai fazer 450 anos, que nos oferece na passagem do ano uma chuva de ouro e onde o pôr do sol é aplaudido de pé por uma multidão maravilhada. A cada ano cai também uma chuva torrencial, assassina e, em pleno alumbramento no Arpoador, alguém pode ser apanhado em um arrastão de meninos assaltantes. Tudo isso, a chuva de ouro e a chuva assassina acontecem aqui. O pôr do sol no Dois Irmãos e os meninos selvagens. Luminosa, terna, corpo quente, essa cidade é a senhora dos sentidos. Violenta, é também a senhora da dor. Decidi nestes primeiros dias do ano acreditar na felicidade carioca que “é como a gota de orvalho numa pétala de flor”.

Há 50 anos o Rio comemorava seu quarto centenário. Na plateia lotada do Teatro Municipal, homens de smoking e mulheres de vestido longo assistiam ao “Martírio de São Sebastião”, de D’Annunzio e Debussy. Geneviève Page, uma linda atriz francesa, vestindo apenas uma malha sobre o corpo nu, encarnava nosso santo padroeiro.

Suspensos à sua voz encantatória, esperávamos o momento culminante em que o santo é flechado, senão quando entra pelas janelas abertas de um teatro então sem ventilação o canto alegre do Bola Preta, vizinho ruidoso do Municipal. “Quem não chora, não mama” entoava o cordão que, à sua maneira, comemorava o quarto centenário da Mui Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Gargalhadas na plateia. Assim é o Rio que eu nunca esqueci, o Rio que nos pertence a todos, diferentes e desiguais, absurdo e sedutor patrimônio dos cariocas, uma cidade rebelde e inconformada que nos momentos de desespero compõe suas melhores canções.

O ano que começa será festivo. Quatrocentos e cinquenta anos é data que se comemora como convém à índole desta cidade cosmopolita que, a cada réveillon, reúne no seu mais belo salão de festas — suas areias, seu mar — milhões de brasileiros e turistas para saudar o Novo Ano. Plural, abre-se ao mundo e às línguas que não fala, mas improvisa, acolhe a diversidade das crenças e ritos.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, criou uma rede global de cidades selecionadas para ser laboratório de estilos de vida sustentáveis. Lá está o Rio entre as escolhidas. Uma aposta inteligente em quem já deu provas sucessivas de energia criativa. Quando o Rio começar a sair literalmente do buraco das obras de renovação em que está mergulhado, quando os tapumes caírem, dias melhores virão.

O Rio é uma cidade que tem amanhã, o que é preciso lembrar quando bater o desespero no trânsito ou uma tragédia a mais abalar a confiança no futuro. Não é um acaso que seja aqui que um Museu do Amanhã avança sobre o mar, confundindo e desmentindo quem associa museu à guarda do passado. Neste caso, trata-se da guarda do futuro, o que é concepção originalíssima que coloca o Rio na ponta da reflexão sobre o mundo em que vamos viver. O curador do museu, o físico Luiz Alberto Oliveira, um dos melhores cérebros do país, explica que, se o amanhã guarda muitos futuros possíveis, para o bem ou para o mal seremos as escolhas que fizermos frente a esses possíveis. Já sabemos que vamos na direção de mudanças climáticas extremas que pedem reflexão sobre a matriz energética. De alteração da biodiversidade que ameaça com a extinção de espécies. De vidas mais longas que estão mudando os critérios do que é envelhecer.

Cidades estressadas e criativas serão mais integradas e enfrentarão os problemas do consumo e da desigualdade. A multiplicação de tecnologias vai impactar cada vez mais a medicina, a comunicação, a educação e a agricultura. Desponta a iminente possibilidade de vida artificial com seus riscos e desafios éticos.

O museu é uma promessa educativa, que propiciará o aprendizado da escolha refletida e informada e a consciência de que o amanhã já está em nós, hoje.

Na passagem de um ano vem à tona o desejo de descobrir o que o destino esconde para o ano que entra. Ora, o destino não está escrito em lugar nenhum, ele se escreve na medida em que se cumpre, foi o que me ensinou o Prêmio Nobel de Biologia Jacques Monod. É o resultado próximo ou longínquo de nossas escolhas, da ação humana.

As cidades — e o Rio é assim — são uma miríade de escolhas de vida, de formas de convivência que vão pouco a pouco desenhando um tecido urbano, um território e uma cultura. Assim também são os amanhãs que escolhemos todo dia e que desenham nossas vidas.

Desejo aos cariocas, nesse aniversário, que com 450 anos tomem juízo e façam sempre melhores e refletidas escolhas.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

rosiska.darcy@uol.com.br

Mudam-se os tempos

As mulheres são bem-vindas ao trabalho com a condição que não queiram os mesmos salários que os homens

A tsunami de lama que invadiu o país fez com que passasse despercebido o registro de uma revolução subterrânea resultante da soma de milhões de decisões individuais que está mexendo nas estruturas básicas da sociedade brasileira.

A pesquisa Saúde Brasil do Ministério da Saúde constatou que as mulheres estão tendo menos filhos e mais tarde. Apesar de o país nunca ter tratado com seriedade o planejamento familiar, inventaram seus próprios caminhos para fazer o que queriam, não esperaram pelo Estado. Quem quer desenvolver uma vocação, construir uma carreira ou simplesmente amadurecer antes de assumir a responsabilidade por outra vida vem exercendo essa liberdade de escolha que há 30 anos seria impensável ou condenada como uma aberração.

No entanto, nessa liberdade coloque-se um bemol: ela se exerce, muitas vezes, num quadro de coerção material. Não há surpresa em que as mulheres decidam assim quando o quadro institucional que acolhe os mais frágeis — e são as mulheres que se ocupam de crianças e idosos — é precário, a exemplo das creches, e inexistente, quando se trata do apoio aos que envelhecem. Quando 38% das famílias são chefiadas por mulheres e, em tantas outras, elas contribuem decisivamente para melhorar o padrão de vida familiar. Uma frase obsoleta desapareceu das conversas masculinas: “Tenho mulher e filhos para sustentar.” O homem provedor saiu do ar.

A maternidade tardia e a escolha de ter menos filhos são respostas que as mulheres estão dando a uma sociedade que se permitiu incluí-las no mercado de trabalho sem que nenhuma política coerente pensasse a acolhida, na sua ausência, dos que delas sempre dependeram. Para os governos, a maioria das empresas e até mesmo as famílias, a vida privada não existe como questão de interesse público. Se a vida privada é ocultada como problema, descartada em seu valor social, tudo isso é herança da invisibilidade das mulheres.

Midas ao contrário, tudo que elas tocam vira nada. Essa zona de sombra que o feminino habita é tão antiga quanto o Gênesis ou teria sido risível o mito do nascimento de Eva de uma costela de Adão, invertendo a realidade da gestação humana em que os homens nascem das mulheres. Se foi possível anular essa evidência, bem mais fácil é ocultar a vida familiar, a energia física e psíquica, o tempo que ela demanda.

E, no entanto, transformar o minúsculo animal que é um bebê recém-nascido em ser humano é um ato civilizatório por excelência, ainda que não tenha merecido até recentemente nas historias da civilização uma única linha. Note-se que os historiadores, como todos os seres humanos, foram iniciados à sua própria humanidade e à humanidade de seus semelhantes por uma mulher. A sociedade que põe um preço em todas as coisas torna invisível o que não anuncia seu preço.

A esquizofrenia vigente no mundo do trabalho resume-se assim: as mulheres são bem-vindas com a condição que não queiram os mesmos salários que os homens, de preferência não engravidem e que façam como eles, cujos problemas familiares são delegados às suas esposas e companheiras. Como são elas mesmas as esposas e companheiras, o que se lhes pede é a quadratura do círculo.

Sair desse impasse que desqualifica as mulheres requer audácia. Empresas pioneiras começam a experimentar a reengenharia do tempo de homens e mulheres, reservando para ambos o direito à vida privada, não como um favor, mas como um direito e um valor. Rara é a empresa que não anuncia a sustentabilidade como valor, palavra mágica que conota uma responsabilidade social quase nunca praticada. Já que assumem compromisso com a sustentabilidade terão que reconhecer que o ventre materno é o primeiro meio ambiente que os humanos conhecem e que a poluição da vida familiar pelo estresse atenta contra as vidas sustentáveis.

Mudam-se os tempos, as vontades… e o tempo. As mudanças demográficas exigem novas relações de trabalho e relançam o debate sobre o bem-estar e a responsabilidade moral. A longevidade que aumenta na população brasileira acrescenta mais um desafio à tarefa cotidiana de proteger as crianças. Trata-se agora de assistir também aos que envelhecem. Crianças e idosos não são descartáveis. Uma progressiva perda de espessura humana nas relações familiares está reduzindo todos à mera condição de mão de obra.

O poeta Manoel de Barros deixou uma fortuna de sabedoria no seu “O livro das ingnorãças”. Garimpo nele um diamante que vem a propósito: “Não sei mais calcular a cor das horas. As coisas me ampliaram para menos.”

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

rosiska.darcy@uol.com.br

 

Em pé de guerra

Saído não se sabe de que baú de velharias apareceu em uma manifestação na Avenida Paulista um cartaz falando em golpe militar

A violência virtual que devastou as relações entre as pessoas durante a campanha eleitoral acendeu um sinal vermelho. O legado é de perplexidade. Novas aflições somaram-se ao inventário de questões sobre a democracia contemporânea: a internet está ampliando a democracia? Ou revelando suas zonas de sombra? Ou as duas coisas?

Essa violência não teve origem na internet. Vem de longe, são os resquícios de uma atitude sectária em que o adversário é inimigo. Há tempos sobe a temperatura dos pertencimentos tribais. Um jogo de futebol pode oferecer, em carne e osso, o mesmo espetáculo de boçalidade contagiosa. Uma torcida organizada é uma tribo em pé de guerra. Partidos políticos também podem ser.

Como é da natureza da internet ser um potente amplificador, o ódio que caiu na rede fez-se epidêmico. Nos choques de opinião a própria opinião se perdeu. Sobraram cacos de insultos, lixo de calúnias, destroços de um estilo black bloc virtual. Quem queria discutir ideias foi se dispersando e saindo de cena como os manifestantes das ruas.

Se a internet, o que é verdade, é um rebatimento do mundo real, se os ódios e as crueldades que veicula são trazidos por quem a utiliza, esse rebatimento se dá como se estivéssemos no começo dos tempos, antes que séculos de civilização construíssem regras que domesticaram a fera que nasce conosco. Espelho de circo, deformante, o que a mais moderna tecnologia está espelhando somos nós, sim, mas na idade da pedra.

A violência digital alimenta-se da cumplicidade entre a identidade impalpável e a impunidade. A população do mundo virtual, porque incorpórea, pode ser ou não ser, ser muitos, quantas múltiplas vidas adote, ser alguém que não se é. A apropriação e a multiplicação das identidades propiciam a eclosão de delírios. Permitem não ser responsável pelo que se diz. Na vida real agredir alguém exige suportar o sofrimento e a reação do outro. No ciberespaço tudo é indolor e sem riscos. Vigora o direito ao crime sem autor.

Mesmo se o Brasil já produziu um aplaudido marco regulatório da internet, que consumiu cinco anos de debates, consultas e audiências públicas, a capacidade de fazer cumprir essa lei ainda é reduzida. O que é crime na vida real também é crime na internet. A realidade das punições é outra história. As rotas de fuga são inéditas, os esconderijos também. O mundo virtual ainda é um mundo desgovernado, sem superego e sem tabu.

Chegamos a essa terra de ninguém como se fora um continente encantado onde a possibilidade de informação e de expressão seria sem limites e sem dono. Logo os monstros ocultos no anonimato foram saindo das sombras e dele fizeram uma casa mal assombrada.

Apareceram os que assaltam contas bancárias, os que roubam reputações, os pedófilos e os terroristas. E as empresas que, violando nossa intimidade com um olhar orwelliano, surrupiam nossos dados e nos revendem no mercado de qualquer coisa.

Apareceram agora os donos da verdade, os profetas da intolerância que, qualquer que seja sua cor política, são, por definição, autoritários. O site do PT traz um exemplo lapidar desse pensamento autoritário. Convoca a “militância às armas” para combater com argumentos “a ignorância” de quem discorda de seu credo. Como se fôssemos 51 milhões de ignorantes a serem convertidos pela “militância” que, pelo visto, nada tem a aprender e se prepara para uma cruzada. A retórica guerreira não arrefeceu. Quando virá o auto da fé?

Se a democracia, por um lado, se consolidou — quem temia o desinteresse foi surpreendido pela participação — por outro lado a banalização da violência interpessoal e da intolerância política que se retroalimentam e que a internet espelhou está se alastrando. Não desaparecerá por si mesma. A rede que se propunha aproximar as pessoas, ao contrário afastou-as.

O vírus da violência, ora mais, ora menos agressivo, está circulando na sociedade. E a imunidade baixou muito nessas eleições. Saído não se sabe de que baú de velharias apareceu em uma manifestação na Avenida Paulista um cartaz falando em golpe militar, palavras malditas que há quarenta anos não ouvíamos.

A oposição, pela voz de Aécio Neves, repeliu qualquer proximidade com esses fantasmas de um passado trágico, traçando um cordão sanitário que de pronto esteriliza qualquer contágio.

O ódio e a violência são corrosivos. A democracia contemporânea se fortalece e se afirma no trabalho que a sociedade faz sobre si mesma, defendendo a liberdade e combatendo em todos os espaços, reais ou virtuais, seus espasmos de selvageria.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

Cara a cara

PT se quis exemplar e jogou na roleta da corrupção seu capital ético, do qual nada sobrou. Vive dos dividendos de suas políticas sociais

 

Foi cara a cara, longe do país das maravilhas com que o PT bombardeou o Brasil na propaganda eleitoral, que Aécio Neves enfrentou Dilma Rousseff. É possível que esses poucos minutos do último debate na Globo tenham mudado a história do Brasil. A inesperada votação de Aécio não é alheia à maneira como ele quebrou o gesso dos marqueteiros e, descontraído, desestabilizou Dilma, que sobraçava um calhamaço de colas e procurava respostas nos manuais de João Santana.

Foi também no cara a cara que Luciana Genro pôde explicar a Levy Fidelix que a homofobia deveria ser crime pois, se já fosse, ele sairia dali algemado. O contraste entre a intensidade do debate e a propaganda pré-fabricada mostrou o quanto, sendo enganosa, ela distorce a democracia. Moral da história, quanto menos marqueteiro mais verdade, quanto mais verdade mais democracia. O debate cara a cara decidirá a eleição.

Marina não estará lá. Apesar de derrotada, é uma presença incontornável. Se não conseguiu, literalmente do dia para a noite, improvisar uma candidatura à Presidência, se teve que gastar seus parcos minutos na televisão apenas para se defender de ataques, nem por isso deixou de ter plantado suas sementes. Dilma não contará com o seu apoio. Está colhendo os frutos do veneno que sua campanha destilou.

Se Marina apoiar Aécio, levará consigo um pacote de compromissos que, metabolizados, trarão frescor e audácia à sua plataforma, a exemplo da escola de tempo integral e da diversificação das fontes energéticas. O voto de 22 milhões de brasileiros já inscreveu o ideário da sustentabilidade na agenda do país.

Aécio e Dilma estão, agora, cara a cara. A candidata do PT não poderá continuar a se referir a vagos malfeitos quando questionada sobre crimes como o assalto à Petrobras. Os depoimentos de Paulo Roberto Costa e do doleiro Youssef puxam o fio de uma meada que enreda e vai estrangular o projeto do PT de se eternizar no poder. A corrupção desvelou a face perversa de um partido que, infiltrado no Estado até a medula, confundiu-se com ele e instaurou a comunhão de bens. A candidatura petista continuará a ser assombrada pelo que sussurram os delatores, diretores de empresas e doleiros, nos gabinetes do Ministério Público.

Um partido que se quis exemplar jogou na roleta da corrupção seu capital ético, do qual nada sobrou. Vive dos dividendos de suas políticas sociais de transferência de renda, um capital político investido, muito justamente, nos mais pobres, que ainda são tantos e precisam do governo para progredir.

Há um contraste no país entre os polos mais avançados e escolarizados e aqueles mais dependentes de políticas assistenciais. Esses, concentrados nas regiões Norte e Nordeste, ou espalhados pelo país em bolsões de pobreza, graças às políticas que lhes trouxeram alento, deram um respeitável lastro de votos a Dilma. Os outros, com maior autonomia, exigem mais serviços e de melhor qualidade. São os 60% que votaram pela mudança. O mapa eleitoral conta a história desses Brasis diversos que, ambos, movem-se, felizmente, numa trajetória constante de melhoria que vem de duas décadas e que só tende a se acelerar.

É cara a cara que o PT deverá ouvir que mente quando só fala dos seus sucessos, não aceita críticas e desqualifica os adversários. A mentira está inscrita no autoritarismo dos que falam em nome do povo, arvoram-se em seus defensores enquanto se autoabsolvem de crimes comuns como o desvio de dinheiro público. A mentira foi, desde que o PT assumiu o poder, um instrumento de governo.

O PT mente quando quer controlar a mídia porque a teme — e a teme porque ela diz que ele mente — mas diz que o faz porque ela é “parcial” ou “vendida”. Parcial é o jornalista que discorda do seu modo de governar ou investiga suas transações.

Quer controlar a sociedade, porque a teme — e a teme porque ela aprendeu, por si mesma, a cobrar direitos — mas diz que quer “incentivá-la” a participar em conselhos que seu governo nomearia. Sabe o que é bom para a sociedade e quem deve representá-la. Não admite que a sociedade é múltipla, dinâmica e, exatamente porque mais informada, rebelde aos controles e censuras. Já é participativa, não precisa de “incentivos”, como mostraram as manifestações de rua e como mostra, nas esquinas virtuais, o efervescente interesse pelas eleições.

Escolher entre Dilma e Aécio não é uma escolha entre pessoas. É uma escolha da sociedade em que queremos viver. Ao autoritarismo retrógrado do PT, prefiro os desafios e o ar fresco de uma sociedade aberta.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora