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Elogio da democracia

O regime de 64 não só foi corrupto como sequestrou, com terror instalado nas escolas, a formação de crianças e jovens.

Há meio século uma geração ganhou de presente de 20 anos uma ditadura que a marcaria pela vida inteira com a memória da prisão, da tortura e do exílio. Aos mortos, só agora uma comissão presta a homenagem póstuma da verdade.

O golpe de 64, a pretexto de combater a corrupção e a ameaça comunista que supostamente pairava sobre o país, acabou com a democracia. O regime que se instalou não só foi corrupto como sequestrou com o terror instalado nas escolas a formação de crianças e jovens. Tentou inutilmente calar os artistas.

Liberdade, “essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”, é como o ar, cujo valor só se percebe quando se é sufocado. Descobrimos o valor da democracia quando ela foi abolida. Os anos de chumbo produziram um clamor nacional pelo restabelecimento do regime democrático e já lá vão 30 anos das jornadas em verde e amarelo das Diretas Já. De lá para cá, três perseguidos pela ditadura chegaram à Presidência. A estabilização da moeda, as políticas de inclusão social e a irrestrita liberdade de opinião mudaram o país para melhor.

Mas a democracia exige uma reinvenção permanente. Neste momento inspira cuidados. As ameaças que pesam sobre nós são a generalização da corrupção e a banalização da violência, que têm uma raiz comum: o abismo entre o apodrecimento do sistema político e as expectativas cada vez maiores e mais definidas da sociedade.

A noção clássica de democracia pressupõe eleições, pluralidade de partidos, alternância no governo, equilíbrio entre poderes. Nada disso nos falta. O paradoxo é a coexistência de eleições majoritárias legítimas com um sistema político desmoralizado e uma sociedade dinâmica que faz ouvir sua voz.

O ideal da democracia representativa não se encarna nos desmandos de parlamentares, o que a coloca em risco, vítima não de ideias revolucionárias que envelheceram já no século passado, e sim de surtos de violência que, a múltiplos pretextos, se alastram. A esfera política, que mediava e representava os interesses conflitantes da população junto ao Estado, se desfez no ácido de seu próprio cinismo. O escárnio face à população desqualificou-a como interlocutora. Se não, como explicar a violência que frequentemente explode e incendeia uma rua qualquer do Brasil?

A banalização da violência eclode desvinculada dos grandes números que não acusam uma crise social aguda. Há baixo desemprego, indicadores de aumento de renda e de bem-estar material nas camadas mais pobres, redução constante, ainda que lenta, das desigualdades de todo tipo, sociais, raciais, de gênero, regionais. Há liberdade de imprensa e de opinião.

A crise social não está nos grandes números, está no sentimento das pessoas. A democracia que se quer não se esgota em eleições. Uma parte significativa da população defende valores — repudia a corrupção, que associa justamente a tudo o que lhe falta, quer ser respeitada e ter a liberdade de escolher sua vida e vivê-la em paz — e não encontra onde ancorar essas aspirações. Há um voto órfão que ninguém sabe, nas próximas eleições, para onde irá. Se for.

A fé cega e exclusiva na economia serve de antolhos à direita e à esquerda. O sobe e desce dos indicadores econômicos ignora que as sociedades têm uma dimensão moral, definem o que é justo ou injusto. Se assim não fosse, não se explicaria por que, há 50 anos, uma parte da juventude que vivia confortavelmente e tinha diante de si um futuro garantido, tenha arriscado a vida e o futuro no sonho de um país mais justo.

Esse artigo é dedicado às sucessivas gerações que lutaram contra a ditadura e aos jovens herdeiros dessa estirpe. Os que hoje não aceitam a corrupção e a desigualdade como uma peça do cenário nada esperam de partidos terminais e, rejeitando a violência destruidora, com imaginação criadora tecem a democracia com o fio espesso das microações que humanizam as pessoas, as cidades e o país.

A pluralidade está inscrita na democracia. Que as formas de exercê-la possam ser elas mesmas plurais ainda é pouco percebido. A democracia se faz com atores múltiplos que balizam seus passos pela ética, que vivem a liberdade e a defendem para todos, que exigem direitos que se traduzem em qualidade de vida. Esses, como células-tronco, têm o poder de reavivar tecidos mortos. O fundamento da democracia contemporânea não é o Estado, é o cidadão.

Uma democracia vivida no dia a dia é a melhor garantia de que nunca mais virá nos assombrar o pesadelo histórico que foi o golpe de 64.

O Globo, 29/03/2014.

Baile de máscaras

Que se abstenham os cientistas sociais que explicam, os caretas que julgam, os crentes que proíbem. Só os carnavalescos entendem o carnaval, ouvem seu silêncio estridente e conhecem as cinzas da quarta feira. É graça dada a eles a pele colorida dos arlequins que, vestida na infância, cola para sempre e resiste à banalidade dos dias. Os carnavalescos conhecem a divina liberdade de transformar-se no que bem lhes aprouver e desvendam o segredo das máscaras.

Crescemos neste país de loucos, passamos o ano chorando os tantos lutos e lutas que escurecem nossas vidas e, de repente, eis que se abre o pano, se acende uma cena luminosa, um demônio ancestral solto nas ruas. É carnaval.

Esse mundo de pernas pro ar diz muito sobre a vida. Sabe que ninguém é totalmente autêntico quando fala em primeira pessoa, mas quando escolhe uma máscara se revela. Sabe com Oscar Wilde que a escolha das máscaras é mais verdadeira do que as autobiografias. Com Fernando Pessoa que “cada um é muitos”. E com Chico que “seja você quem for, seja o que Deus quiser”. Vestir fantasias e máscaras é uma aventura mais arriscada do que qualquer second life virtual.

Os homens desde os velhos carnavais sempre gostaram de sair de mulher — “sair de” é expressão do carnavalês castiço — talvez porque vestir a pele e as formas das senhoras fosse uma transgressão absolvida pela impunidade desses quatro dias. Havia nas pernas cabeludas amassadas na meia arrastão e na boca pintada de batom muito mais desafio do que o exibicionismo de vir nu, sacudindo um corpo malhado no luxo dos carros alegóricos.

Hoje, no que o carnaval desnuda, são as mulheres que se fantasiam de mulheres. Uma, fantasiada dela mesma quando era jovem, outra, lipoaspirada, de quando era magra, uma terceira, que a natureza não favoreceu, passada a limpo, exibe a fantasia de mulher bonita. Costumam vestir, ou melhor, despir essa fantasia de Eva as esquálidas ou as rechonchudas, todas fantasiadas da Globeleza que sonham ser. Toda Eva malha na academia, toma tarja preta para baixar a ansiedade e janta uma folha de alface. É a máscara mais usada no carnaval do Rio.

Há uma insuspeita sabedoria no carnaval, que ninguém percebe em meio ao burburinho das escolas que desfilam hipermodernas, dos blocos resistentes que, pra consolo da lua, entoam as saudades de um amor que se acabou. Atenção, pois, às máscaras: no ano em que Dilma foi eleita sua máscara foi a mais vendida. No ano passado sofreu a concorrência de Joaquim Barbosa. Ao que dizem, este ano voltará a ser a mais procurada. Surgirão máscaras novas? O itinerário das máscaras contribui para entender em que passo está dançando o Brasil.

Na história milenar dessas caixas de ressonância com que o teatro grego ampliava a voz dos atores, que a Commedia dell’Arte incorporou como caricatura de cada um, que o nosso carnaval adotou para multiplicar as identidades individuais, as máscaras conheceram recentemente um triste capítulo que perverte seu sentido, invertendo-o. As máscaras do Anonymous, que há tempos vêm assombrando as ruas do mundo, dizem o contrário: não somos ninguém, somos legião, somos todos um só, o vingador.

A identidade individual, que o espírito das máscaras recria de maneira original na fantasia de cada um, aqui faz o caminho inverso: anula-se, dissolve-se em uma sombria identidade coletiva, um rosto único — e não existe máscara mais perigosa do que a que se quer única — que representaria todos unidos por um mesmo desejo de vingança. Um bloco de encapuzados desfila produzindo uma espécie de anticarnaval. Armados de paus e pedras, com o passo e gestos de primatas, são poucos e trazem uma mensagem de ódio que é o contrário mesmo da alegria.

No baile de máscaras que o Brasil sempre foi, convidou-se agora mais esse cordão do bota pra quebrar, dissonante e estrangeiro em uma cultura que até então não temia os mascarados porque os associava à alegria. Indomável alegria que os brasileiros nunca perderam apesar de todas as privações que corroem seu dia a dia e das injustiças infames com que convivem. E continuam a desfilar sua ainda irrealizada vocação para a felicidade no irreverente Cordão do Bola Preta, ou da Preta, em blocos populares que, Brasil afora, arrastam multidões. Bons carnavalescos preferem a alegria ao ódio.

Manda o código de honra dos bailes de máscaras que elas sejam retiradas à meia-noite. Passado o carnaval viveremos esse momento que, em todos os bailes, é o das surpresas. Quando todas as máscaras caírem, terá chegado a hora da verdade.

O Globo, 01/03/2014.

Não à violência, já

Diz um velho ditado que não se deve falar no diabo porque o diabo aparece. Discordo. O demônio da violência anda à solta nas avenidas reais e virtuais do país.

A violência policial que pretende reprimir a fúria de um tipo minoritário de manifestante é gasolina jogada na fogueira. O problema é grave demais para ser deixado ao duvidoso bom senso das autoridades de segurança. Existe uma opinião pública democrática que é majoritária e, por isso mesmo, tem que se fazer ouvir.

O que as manifestações de junho, que refluíram sob o peso da violência, defendiam era o interesse público. Diziam uma verdade incontestável: a política não serve ao bom governo, são os governos que servem à má politica como moeda de troca, promessa ou ameaça de concessão ou retirada de privilégios. Essa lógica diabólica rege todos os partidos. Transforma governos em caixa-forte, administrações em pasto de aliados, impede que se priorize o que é do interesse dos cidadãos.

Quando pacíficas, e assim deveriam ter continuado a ser, as manifestações são a expressão mais viva da democracia contemporânea, que nos desafia a decifrar seus códigos e a reinventá-la. “Decifra-me ou te devoro”, disseram as ruas em que a internet veio desaguar.

No sábado passado, em São Paulo, dois desastres ilustraram o imenso risco que a violência que assombra as manifestações faz pesar sobre a democracia. Uma menina escapou de morrer queimada em uma barreira de fogo que interrompia o tráfego como forma de protesto. Salta aos olhos que nenhum pretexto justifica incendiar, literalmente, as ruas.

A Polícia Militar, num ato que mistura covardia, boçalidade e incompetência, baleou e feriu gravemente um rapaz de 22 anos. Antes invadira um hotel em que manifestantes tinham se refugiado. São espetáculos de truculência que lembram os malfadados tempos da ditadura, inclusive na canhestra tentativa de justificar-se culpando a vítima.

O conflito cego entre pedras e balas só pode desandar numa espiral enlouquecida em que, a História nos mostra, ao fim e ao cabo triunfa o mais forte, o mais brutal, o mais implacável.

A violência não pode se tornar a linguagem do protesto. Difícil imaginar que esse chamado à paz possa vir de lideranças políticas. Em temporada de caça aos votos, cada um se regozija quando o adversário enfrenta dificuldades. O drama das ruas, o rastro de destruição que deixa, é manipulado como arma eleitoral, o que dá a medida exata da miopia das supostas “lideranças”. Há quem torça pela aceleração desta engrenagem em todo o país, com a aproximação da Copa. São sonâmbulos dançando na beira do abismo.

A violência, de onde quer que venha, tem que parar agora, antes que aconteça o irreparável. Com a palavra, a sociedade. Deter a radicalização dos protestos e a truculência da repressão, quebrando o círculo vicioso do olho por olho, dente por dente, deve ser prioridade na agenda da opinião democrática. Condenando, em defesa da paz, os incendiários, que são minoria, chamando às falas os governadores que são, em última instância, os responsáveis pelos desmandos de suas polícias, cobrando da Justiça que quem quer que infrinja a lei — manifestante ou autoridade — seja responsabilizado e punido.

Há 30 anos, vestida de verde e amarelo, fui numa cadeira de rodas, com a perna quebrada e o coração inteiro, a uma inesquecível festa democrática, o Comício das Diretas Já. No palanque estavam artistas e políticos em quem acreditávamos, lideranças respeitadas que ocupariam o governo quando nos livrássemos dos restolhos da ditadura militar.

A democracia reconquistada, ainda que imperfeita, permitiu que as liberdades se ampliassem, a moeda se estabilizasse, a pobreza e a desigualdade diminuíssem. Teriam diminuído ainda mais não fosse a corrupção, essa lepra que corrói a credibilidade das instituições, expropriando a população do capital simbólico que é a confiança nas lideranças políticas. Confiança que estimulou toda uma geração a enfrentar os riscos da luta contra a ditadura.

Trinta anos depois, a população volta às ruas reais e virtuais, sem lideranças. Amadurecida, a opinião democrática entra em cena, fala com voz própria. O que grita, neste ano de eleição para Presidência da República, governos estaduais e parlamentos, é muito mais que a sua decepção. É a exigência de honestidade e qualidade no trato do interesse público. Atos, não palavras. Resultados, não promessas. Valores, não espertezas. Participação, não apatia, Construção, não destruição. E, sobretudo, não à violência, já.

O Globo, 01/02/2014.

Sob o signo da incerteza

Os rituais que marcam a passagem do Ano Novo vão na contramão do imediato, suspendendo, por uma noite, o frenético aqui e agora e estimulando desejos para “esse ano que vem”.

Quem deseja feliz Ano Novo reabilita o futuro e a esperança, contraria o eterno presente em que vive uma sociedade que aboliu a História, logo o passado, e o projeto, logo o futuro.

“Esse ano que vem” é a nossa fronteira onírica, o tapete que estendemos para nós mesmos na direção do amanhã. Nele cabe tudo que não foi, o amor não encontrado, o dinheiro não ganho, a obra adiada, o país tão sonhado e que não aconteceu.

As rosas brancas lançadas ao mar, que ao sabor da maré desaparecem ou voltam à areia, são desejos que vão ou não ser acolhidos por Iemanjá. Reabilitam o acaso e o imprevisível em um mundo que tudo controla e, para melhor controlar, tudo espiona. O sagrado em que se banha esta noite abre um parêntese cheio de mistério no mundo que se quer hiperprogramado, que anuncia o fim da privacidade, logo do indivíduo, preso e afogado em sua própria rede. Na noite de 31 de dezembro, quebra-se a onipotência com que a tecnologia programa os espíritos. Nessa noite o incontrolável é senhor.

Nosso tempo é feito de paradoxos: busca segurança e certezas que são desmentidas e nos confrontam com nossa vulnerabilidade. O algoritmo do Google traça com exatidão o perfil de cada um. As empresas a quem interessa saber quem são seus potenciais consumidores compram esse produto a peso de ouro.

O instrumento que serve ao controle serve também ao descontrole. Os segredos das grandes potências vêm sendo desvendados pelos hackers do Wikileaks que põem a nu a fragilidade de suas alianças.

Ao Estado americano interessa saber tudo sobre todos e cada um por supostas razões de segurança. Em ambos os casos o poder da computação é imenso. E, no entanto, todo o sistema de informações gerado pelas agências de espionagem não entrou na alma inquieta de um de seus espiões, um certo Snowden. A quintessência de um sistema de comando e controle foi vulnerável à ação de um jovem destemido de 29 anos que trabalhava na Agência Nacional de Segurança no Havaí. O estrago foi irremediável.

Edward Snowden concorreu com o Papa Francisco ao título de Pessoa do Ano da revista “Time”. Ganhou o Papa que, iluminado, com palavras de ternura, substituiu a condenação do pecado pela escuta e o acolhimento, abalando o rígido sistema de controle dos desejos mais íntimos que a Igreja exerce em troca da salvação das almas.

Os desígnios de uns poucos homens enguiçam máquinas poderosíssimas. De todos os sistemas complexos em que vivemos enredados, o mais complexo ainda é o ser humano com seus mistérios. Não sabemos o que reservamos ao ano que vem. Um gesto individual pode ter o impacto do bater de asas daquela borboleta que redireciona os ventos e desencadeia tempestades.

Há um embate surdo na cultura contemporânea entre o delírio do controle absoluto e a irrupção do imprevisível que explode em toda parte como um grito de desespero. Esse embate estará presente em 2014 no Brasil quando a bola rolar, as ruas falarem e as urnas se abrirem. A incerteza é o paradigma do nosso tempo.

No turbilhão de informações em tempo real quem reserva o tempo gratuito das lembranças para revisitar o ano que passou? Registrando freneticamente tudo que é vivido em trilhões de mensagens e fotos que substituem a memória, os fatos e gestos são logo esquecidos. Na areia de Copacabana os flashes dos celulares substituíram a brasa dos cigarros que antes se acendiam. Um réveillon — o mais belo do mundo — sem fotos on-line é como se não estivesse existindo.

Quem ainda convive consigo mesmo? Desmemoriados, temos nossas biografias registradas em gigantescos agregadores de dados que sabem sobre nós muito mais do que nós mesmos. Biografias autorizadas, já que fornecemos gratuitamente a Google e Facebook essas informações que valem mais do que o petróleo. Tucídides disse que o sucesso de uma tirania se mede pela felicidade dos escravos com a sua escravidão. Como é alegre a servidão às tecnologias virtuais!

Na tarde que precedeu o réveillon um imprevisível arco-íris abriu sua curva perfeita no céu e mergulhou no mar que quebrava no Forte de Copacabana, traçado quem sabe por Oscar Niemeyer que, saudoso, revisitava sua praia tão querida, o improvável encontro de um raio de sol com os pingos da chuva ficou ali como augúrio de que em 2014 surpresas iluminarão o cenário. Se forem encantadoras como o arco-íris, tanto melhor.

Feliz Ano Novo.


O Globo,  4/01/2014.

Agenda 2014

O ano que termina deixa como legado para 2014 uma agenda em fermentação nas cidades.

O humor do país mudou. No ritmo das incertezas da economia deslizamos da euforia à depressão. O otimismo com o futuro deu lugar ao desencanto. Essa ciclotimia não rima com a realidade em que os ganhos acumulados ao longo dos últimos vinte anos não se perderam, o que a melhoria constante dos indicadores sociais confirma.

Mas nem só de economia vivemos. Melhorias na renda e no consumo coexistem com efeitos colaterais imprevistos que, como um bumerangue, atingem o cotidiano, a exemplo da explosão do consumo de automóveis. Três milhões e quinhentos mil veículos saíram das fábricas e paralisam as cidades. Enxames de motociclistas, símbolos de prosperidade na população de baixa renda, passam ao largo das regras do transito e convivem diariamente com a morte.

As grandes metrópoles e seus impasses — transportes precários, imobilidade nos engarrafamentos de pesadelo, insegurança face à violência — tudo que envenena o cotidiano integra agora o rol das amarguras ao mesmo título que as sempiternas escolas que não ensinam e os hospitais superlotados. As grandes cidades, sistemas em colapso, são fábricas de estresse e frustração.

Os tempos mortos no trânsito aumentam a jornada de trabalho sem outra remuneração senão a raiva, congelando o tempo que resta à convivência com a família e amigos. A maioria dos brasileiros vive nessas metrópoles infelizes e ásperas, espetando-se em suas arestas, padecendo desse mal-estar urbano que se agrava. Essas metrópoles continuarão a gritar e são elas os maiores colégios eleitorais.

As intenções de votos nulos e brancos que as pesquisas começam a detectar, os cartazes de “fora todos”, dizem o desgosto da população com a corrupção, comprovado no apoio maciço, inclusive de eleitores do PT, à punição dos mensaleiros. Corrupção e justiça, crime e castigo entraram na agenda.

A sociedade brasileira — conceito cada vez menos operacional para explicar as complexidades de uma população de duzentos milhões, vivendo com alto grau de desigualdade e mobilidade social, em plena cibercultura — retribui à altura o desprezo que os políticos têm por ela. O que está em tela de juízo é a democracia que não sabemos mais como chamar, já que representativa há muito deixou de ser. Reinventá-la é preciso.

Em 2013 a internet se afirmou como arena concorrendo com jornais e televisões pela influência na opinião. Ninguém quer ser apenas espectador de programa eleitoral, não quer ser influenciado, quer influenciar. Cada um vê a si mesmo como mídia e se manifesta. Antigos bate-bocas de bar ganharam uma imprevisível audiência. No Facebook a juventude, com as armas da informação viral, vive seu movimento de libertação da palavra.

O sentido e amplitude desse fenômeno começam a ser percebidos por candidatos egressos da política dos aparelhos que, aflitos, apelam aos nerds como cabos eleitorais, na esperança de controlar a arena virtual como se fosse um curral eleitoral. A crescente e feroz agressividade nas redes sociais, facilitada pelo anonimato das múltiplas identidades, mostra que elas foram contaminadas pela radicalização que precede os anos eleitorais.

A radicalização é um vírus perigoso, o ódio é contagioso, se propaga e se retroalimenta. Neste ano veio às ruas como violência selvagem. A apropriação dos protestos de junho por grupos minoritários numa ainda não esclarecida combinação de personagens exige a definição clara da fronteira entre o que, numa democracia, é protesto legítimo e o que é violência ilegal.

Acirrou-se também o enfrentamento entre o conservadorismo que tenta impor normas a serem seguidas por todos e os defensores da liberdade de cada um construir sua própria vida. A sexualidade escapou da vida privada, fez-se debate publico que, assim como nos Estados Unidos, poderá ser determinante na escolha entre os candidatos.

Se a agenda que emergiu em 2013 — mal-estar urbano, repúdio à corrupção, defesa das liberdades — for levada em conta, as manifestações de junho terão realizado a proeza de aproximar a política da sociedade. Se cair no esquecimento, como se junho não tivesse sido senão um inexplicável sobressalto, a irrelevância do debate eleitoral selará o divórcio litigioso entre o mundo autista da política e a vida real da população.

Nem por isso a vida deixará de ser real com sua carga de tensões e frustrações. Uma não resposta não elimina o problema. Agrava. Bem-estar, liberdade e honestidade são claras aspirações dos brasileiros.

O Globo, 7/12/2013.

A guerra contra as mulheres

A história das mulheres é um longo percurso de lutas contra a humilhação e a brutalidade, escrevi há 30 anos. Não pensei que voltaria a escrever. Tudo parecia indicar que a sociedade brasileira saíra da Idade da Pedra com seus Brucutus arrastando as mulheres pelos cabelos e possuindo-as no melhor estilo animal.

Ilusão. A história das mulheres continua marcada pela humilhação e a brutalidade. É o que contam os dados do Fórum Nacional de Segurança Pública: 50 mil casos de estupro no Brasil no ano de 2012.

Este número aberrante não deveria cair no esquecimento como uma má notícia entre outras. Cinquenta mil americanos morreram na Guerra do Vietnam e isso mudou a América. Aqui 50 mil mulheres são violadas por ano e a sociedade assiste em silêncio.

Segundo a pesquisa, o número de casos vem aumentando. Os estupros de fato aumentaram ou o que aumentou foi sua notificação? Se assim for, é provável é que esses números sejam apenas a ponta do iceberg.

Um caso isolado de estupro é uma tragédia que o senso comum põe na conta de algum tarado que ninguém está livre de encontrar numa rua deserta. São psicopatas que agem por repetição à semelhança dos serial killers. Requintados torturadores, desprovidos de culpa ou remorso, são descobertos e presos. Quando saem, reincidem.

Cinquenta mil casos têm outro significado. A psicopatia não explica. Configura-se uma tara social, uma sociedade que convive com a violência sexual com uma naturalidade repugnante. São milhares de estupradores que, assim como os torturadores, transitam entre nós como gente comum. Estão nas ruas, nas festas, nos clubes, lá aonde todos vão, e passam despercebidos. Estão nas famílias e nas vizinhanças onde mais frequentemente agem — suprema covardia — aproveitando-se da proximidade insuspeita com a vítima.

Dissimulam seu alto potencial de crueldade no magma de desrespeito em que se misturam machismo, piadas grosseiras, gestos obscenos, aceitos como parte da cultura. A certeza da supremacia da força física, herdaram das cavernas. O desprezo pelas mulheres, aprendem facilmente em qualquer conversa de botequim. Ninguém nasce estuprador: torna-se.

O estupro é uma mutilação psíquica que a vítima carrega para sempre. Fecundação pelo ódio e contaminação pelo vírus do HIV são sequelas possíveis desse pesadelo. O medo ronda. Quantas mais estarão em risco? Pergunte-se a qualquer mulher se, uma vez na vida, se sentiu ameaçada pela violência sexual. Há uma guerra surda contra as mulheres. Quando as guerras de verdade se declaram, o estupro como arma se pratica às claras. Na Bósnia, a “limpeza étnica”, crime contra a humanidade, se fazia violando as mulheres.

Há décadas os movimentos de mulheres denunciam essa guerra surda. Estão aí as Delegacias da Mulher e a Lei Maria da Penha. O anacrônico Código Penal, que falava de crime contra os costumes, hoje capitula o estupro como crime hediondo. Aumentaram as penas e os agravantes. A Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres criou o número 180 para acolher as denúncias e promete espalhar Casas da Mulher em todos os estados.

Dir-se-ia, no entanto, que estupradores não temem a denúncia, a lei e a Justiça. Por que será? De onde lhes vem a sensação de que o que fazem não é crime e, se descobertos fossem, ficariam impunes?

A resposta está no sentimento de poder sobre o corpo das mulheres que nossa sociedade destila como um veneno. É esse caldo de cultura, em que a violência sexual de tão banal fica invisível, que estimula e protege os agressores, realimentando a máquina de fazer monstros. Some-se a isso uma espécie de pacto de silêncio que, salvo quando os dados gritam como agora, impede que se reconheça a gravidade do problema que, na sua negação da dignidade humana, é comparável à prática da tortura.

Os governos descuidam do indispensável amparo às vítimas. Ora, se não há reparação possível, deve haver acolhimento e socorro. Em todo o país os serviços de saúde pública capazes de oferecer a possibilidade de um aborto previsto em lei são ridiculamente insuficientes para atender às consequências desse massacre.

A mesma energia com que a sociedade brasileira condena a tortura é necessária para debelar a epidemia de crueldade. Três mudanças de comportamento se impõem, imediatas: o fim da tolerância com o desrespeito às mulheres, em casa e nas ruas; a inclusão para valer da prevenção e repressão da violência sexual na agenda da segurança pública; e a expansão dos serviços de amparo às vítimas. É o mínimo que o Brasil deve às mulheres.

O Globo,  09/11/2013.

O Papa e Woody Allen

Na obscuridade da noite voa um fantasma e abre as asas sobre a humanidade. Todos o conhecem. Mas o fantasma se esfuma com a aurora para renascer à noite nos corações. Quem é o fantasma que nasce à noite e morre ao amanhecer?

O sombrio enigma, proposto pela princesa Turandot na ópera de Puccini, servia para afastar pretendentes, já que ela repudiava a ideia do casamento. Um príncipe desconhecido acertou: “O fantasma é a esperança.”

Com esse diálogo, citado de memória, o Papa Francisco na entrevista concedida à revista dos jesuítas “Civiltà Cattolica” explicou que não gosta da palavra otimismo, prefere esperança que, para ele, não é um fantasma e não morre a cada dia.

A entrevista do Papa é um alento para quem vive o tempo presente e, à força de esbarrar em crueldades, impunidades e injustiças, corre o risco da desistência.

Suas palavras corajosas de acolhimento e compreensão, sem julgamento e condenação, dirigidas às mulheres e aos homossexuais merecidamente repercutiram mundo a fora. Falou-se menos da sua contundente denúncia da economia mundial que, segundo ele, nos está levando a uma tragédia. “Vivemos as consequências de uma decisão mundial, de um sistema econômico que tem no centro um ídolo que se chama dinheiro. A idolatria do dinheiro está roubando nossa dignidade.”

Foi preciso a estatura de um líder espiritual para reabrir uma questão em que está em jogo a civilização e que vinha sendo escamoteada, se apagava no esquecimento, exceto para quem ainda dorme em barracas, faz a fila da sopa ou procura inutilmente um emprego.

Não pensei que um dia encontraria afinidades entre Woody Allen e o Papa Francisco. Descubro que, se não partilham os mesmos gostos, certamente partilham um mesmo desgosto.

Seu último filme, “Blue Jasmine”, é uma fábula moderna, que mistura o caso Madoff com personagens inspirados em “Um bonde chamado desejo”, de Tennessee Williams. Um pouco de Blanche em Jasmine, tinturas de Kowalski no namorado da irmã de Jasmine, para melhor contar a escroquerie que tomou conta da América e roubou a dignidade dos que trabalham, espalhando tragédia.

Na cena final, Jasmine, milionária nova-iorquina que inventara a si mesma cobrindo-se de grifes, cúmplice do marido vigarista, vigarista ela mesma, agora arruinada, despossuída de tudo, incapaz de viver a vida real, senta-se em um banco de praça, desfigurada, falando sozinha de seus tempos de fortuna, metáfora da loucura e da perdição em que mergulhou o capitalismo financeiro onde a ganância fez-se a regra e o dinheiro é Deus.

Woody Allen descreve esse mundo com os recursos da caricatura no que ela tem de mais poderosa, o encontro da descrição com a crítica em um mesmo traço. A crise financeira de 2008 que se arrasta até hoje inspirou-lhe um filme amargo. O andar de baixo e o de cima da sociedade americana só se encontram nos terremotos, quando o andar cima — Wall Street, Nova York — desaba sobre o andar de baixo, os outsiders da Costa Oeste. Cinco anos depois, ainda há milhões soterrados pelo desemprego.

Enquanto sem escrúpulos espiona o mundo à cata de terroristas, o presidente americano dá guarida, em seu próprio gabinete, a responsáveis diretos por um atentado devastador à economia mundial que, em ricochete, põe em risco a Europa, fortalecendo a xenofobia e a extrema-direita. E parecia que tudo ficava por isso mesmo.

Mas eis que o Papa falou, denunciando a “globalização da indiferença”. O Papa que em sua primeira viagem aportou na ilha de Lampedusa em cujas águas, há anos, naufragam os barcos e as esperanças de imigrantes africanos que, como agora, vêm morrer na praia. Que ameaça fechar o sulfuroso Banco do Vaticano e escolhe a Basílica de Assis, berço da Igreja dos Pobres, para reafirmar sua fé nos gestos do dia a dia das pessoas honestas e solidárias e no tempo escultor de grandes mudanças.

Não se subestime o poder de um Papa em sua crítica às taras da economia mundial. Outro Papa pôs a nu o apodrecimento do regime comunista e lá se foi o muro de Berlim. Entra em cena um ator inesperado cuja audiência vai muito além dos católicos e, fato inaugural, se dirige às pessoas mais do que aos Estados.

No nosso triste país das condenações embargadas, das candidaturas proibidas, da política desgastada, sua fala se traduz em uma interrogação: será a esperança, aqui, o fantasma que morre sempre ao amanhecer ou ainda encontrará encarnação no dia a dia das pessoas honestas e solidárias?

E sugere um novo enigma: no mundo de hoje, o que é, onde está, para que serve o poder?

O Globo, 12/10/13.

Os idos de setembro

A possibilidade de que o Supremo Tribunal Federal venha a aceitar a reabertura do processo do mensalão traumatiza o país. Essa decisão desmoralizaria o Tribunal aos olhos da população que nele investiu suas esperanças de regeneração da Justiça. De todas as frustrações que nos têm sido impostas, essa seria a mais grave, porque nos roubaria o bem insubstituível que é a esperança. A condenação por esse crime de lesa-sociedade seria definitiva, não aceitaria embargos infringentes. A pena seria a execração da opinião pública ferida pelo desalento, que é o mais triste e perigoso dos sentimentos. O Tribunal enviaria à sociedade uma mensagem facilmente decodificável: a lei não é igual para todos. Pergunte-se a qualquer anônimo condenado por formação de quadrilha. Plantaria uma semente venenosa: uma sociedade que perde o respeito pela Justiça se desintegra na anomia.

Caso ocorra essa decisão viria na contramão de um tempo em que a palavra cidadania, enxovalhada no palanque de qualquer demagogo, começa a recuperar seus títulos de nobreza. É a cidadania que está questionando as instituições quando elas atentam contra si mesmas.

No dia 7 de setembro sobrou lugar nas arquibancadas e no asfalto. Temida pelas autoridades como penetra e estraga festa, a multidão não veio. O movimento de junho teria acabado tão subitamente como começou? Ora, em três meses o gigantesco descontentamento da população não poderia ter sido e não foi aplacado. Fermenta. A internet não serve apenas para convocar manifestações de rua, ela é a rua onde, a cada minuto, pessoas se manifestam. A indignação persiste e trabalha. O silêncio das ruas deveria meter medo.

Quem quer se misturar com um brutamontes mascarado que arranca postes e, de quebra, ser sufocado com gás lacrimogêneo? Numa comédia de erros, uma gente violenta, supostamente preocupada com o mau uso do dinheiro público, se dedica a destruir o patrimônio do Estado, legando à coletividade uma conta salgada. Afastam as pessoas das ruas e só não destroem o movimento porque não é nas ruas que ele se dá. Porque não existe o “Movimento”. É a sociedade brasileira inconformada que está, há muito tempo, em movimento.

Margaret Thatcher, que usava os antolhos do Mercado Todo Poderoso, disse que não existe essa coisa chamada sociedade. Ela existe e é muito mais do que os segmentos que se intitulam organizados e, em filigrana, criam uma hierarquia em relação ao “resto”, a maioria nada silenciosa que não foi mobilizada por ninguém, se automobiliza segundo seus momentos e interesses.

Volátil, essa sociedade em que cada um sabe o que quer é infensa à cooptação por partidos ou à manipulação pelo engenho de marqueteiros. Boçais mascarados não a representam. Diversa e contraditória foi ela que veio à rua. Essa sociedade inconformada quer bem viver, quer liberdade e justiça.

Quem teme uma crise institucional não se dá conta de que ela já está em curso. O que se chama crise é uma situação em que o continente não contém mais o conteúdo. Quanto mais uma instituição representativa como o Congresso cai no ridículo — corrupto, atrasado, homofóbico — mais a sociedade dela se distancia. Quanto mais pífios são os serviços públicos, menor é a tolerância da população com o governo.

Os brasileiros já têm parâmetros de comparação entre a vida que levam e a que poderiam levar. Com razão atribuem à corrupção a distância entre o real e o possível. Não de maneira genérica como um crime contra um Estado, abstrato e desencarnado, mas como um crime contra cada um.

O nexo de causalidade entre corrupção e degradação da vida cotidiana implantou-se na consciência popular. Fiat lux! Impostos — e os nossos são escorchantes — são um contrato de prestação de serviços, que já foram pagos e não estão sendo prestados, configurando um estelionato de Estado.

Não se fazem mais carneiros como antigamente. A tolerância bateu em zero.

O espantalho da crise institucional assusta, mas não cura a descrença nas instituições. Imaginar — e experimentar — uma nova engenharia institucional é o maior desafio político do Brasil de hoje. Um Congresso que abriga um deputado presidiário deveria estar cercado por grades, não se regenera a si mesmo.

As propostas de refundação, como foi a Lei da Ficha Limpa, vieram de fora do sistema político. Assim será com essa nova dinâmica que brotará da energia da sociedade, exprimindo os valores que ela não aceita negociar. A sociedade brasileira descrente das instituições no ano que vem votará. Os idos de setembro não terminaram.


O Globo, 14/07/2013.

Bom senso e compaixão

O tráfico de drogas, essa próspera e diabólica multinacional, se alicerça em uma premissa simples: conquistar consumidores tornando as pessoas dependentes, destruindo-as, reduzindo a zero seu poder de decisão e transformando-as em clientes cativos de um mercado ilegal.

Quem tem em casa um dependente de drogas conhece o calvário em que mergulham a vítima e a família devastada. Daí o medo e o silêncio das famílias e o horror da sociedade. Só que o medo nunca foi bom conselheiro. Inspira as reações mais disparatadas e ineficazes, ainda que humanamente compreensíveis. Na ausência de debate, o silencio congela as soluções.

Um homem chamado José Júnior, sem medo, fez aposta inversa à do tráfico: é possível reconstruir uma pessoa, mesmo um ex-traficante, dar-lhe uma segunda oportunidade, oferecendo-lhe um sentido para a vida. Não há maior desafio à lógica implacável do tráfico. Não por acaso a sede do AfroReggae, no Complexo do Alemão, foi metralhada, e todos que estimam seu fundador temem pela sua segurança. O maior mérito de José Júnior terá sido demonstrar que a luta contra o tráfico vai muito além da óbvia ação policial.

Em boa hora nasceu e está crescendo na sociedade um movimento espontâneo em defesa da vida de José Júnior e da política de pacificação que vem se mostrando preciosa para a o Rio, libertando os territórios ocupados. Para que as UPPs continuem sendo portadoras de esperança é essencial que a polícia esclareça o que aconteceu com Amarildo Dias de Souza, prestando contas à sua família e a nós todos. Desaparecimentos e mortes obscuras nos remetem aos tempos de pesadelo que precederam a pacificação.

Na infame prisão feminina do Carandiru, em São Paulo, Drauzio Varela também aposta na possibilidade de reconstrução de vidas destroçadas. Diz que não há, no mundo, cadeia sem drogas. Ora, se as drogas penetram nas celas trancadas, pergunta-se: como é possível a ilusão de erradicá-las em sociedades abertas? Essa Ilusão tem ceifado a vida de milhares de jovens, ao longo de décadas, na guerra inútil contra as drogas.

Na Colômbia, país que mais sofreu com o narcotráfico, o presidente Juan Manoel Santos perdeu essa ilusão. Sentiu — e a expressão é dele — que pedalava uma bicicleta que não saía do lugar. Colocou na pauta da Cúpula das Américas um debate sobre a política de drogas que levou à conclusão que muda tudo: o dependente não é um criminoso a ser perseguido, é um paciente a ser tratado. O relatório encomendado pelos chefes de Estado à OEA foi ainda mais longe, evocando a legalização da produção, venda e uso controlado da maconha, droga cujos efeitos seriam menos nocivos do que os do álcool e do tabaco.

Ecoando o relatório, o presidente José Mujica, do Uruguai, na semana passada, apoiou a aprovação pela Câmara dos Deputados da “lei de regulação responsável” da maconha, que, saindo da ilegalidade, passa a estar sujeita às restrições e regulações que o Estado e a própria sociedade impõem.

Mujica deu prova de bom senso. O extraordinário recuo do consumo de tabaco no mundo todo só foi possível porque o tabaco, não sendo proibido, podia ser regulado: taxação por impostos altíssimos, proibição de fumar em lugares públicos, interdição de publicidade, obrigação de estampar no produto o mal que ele faz. Um maço de cigarros que já foi para os fumantes a antecipação de um prazer virou um objeto macabro. Foi-se o glamour do cigarro. Escolas aderiram à prevenção e não foram poucas as crianças que puxaram a orelha dos pais fumantes.

Uma política de drogas inteligente combateria o consumo via um esforço concentrado de informação e dissuasão, já que, enquanto houver demanda, haverá oferta, e ampararia os que já pisaram na armadilha, acolhendo-os e tratando-os, revertendo o processo que os transforma em dejetos humanos.

É o que faz a Suíça, que investe na prevenção, oferece tratamentos de substituição, incluindo o polêmico fornecimento controlado de drogas aos dependentes, e reserva uma repressão severíssima para o crime organizado. É assim que corta o elo de dependência entre as vítimas e os traficantes.

Ruth Dreifuss, ex-ministra da Saúde, que concebeu essa política, mais tarde a primeira mulher a presidir a Suíça, dá uma lição de compaixão ao lembrar que “os drogados são nossos próprios filhos, pessoas que amamos, que estão sofrendo, ameaçados pela doença, pela desintegração social, pela morte”.

Prevenção é responsabilidade de todos, dependência é um problema de saúde pública, tráfico é um caso de polícia. De uma polícia competente e honesta.

O Globo,  17/08/2013.

O novo atrapalha a teoria

No quebra-quebra da última quarta-feira no Leblon e em Ipanema, arruaceiros infiltrados em uma manifestação pacífica conseguiram envenená-la. Eram poucos, o estrago foi imenso. Os manifestantes são agora acusados por autoridades de serem manipulados, o que esvazia sua autenticidade e desvia o conteúdo das demandas da rua para a querela personalista. Como se as ruas nada fossem senão marionetes coadjuvantes da tragicomédia partidária. Essa acusação injusta desfigura um movimento cuja causa é nobre.

Os jovens têm o desafio e a responsabilidade de, sem ambiguidades, demarcar-se dos vândalos preservando a lição de democracia que vêm dando ao país. Violência não rima com liberdade.

É difícil entender o novo. O novo atrapalha a teoria.

Quem foi jovem em 68, com saudades de si mesmo, busca similitudes entre os manifestantes de hoje e aqueles de quase meio século atrás. Em vão. Não se é jovem duas vezes, a escultura do tempo é impiedosa. Os jovens de hoje nada têm a ver com aqueles, só a indignação.

Na efervescência em que vive o país, com partidos políticos e sindicatos agonizantes tentando um ultrapassado protagonismo, são os jovens, esses desconhecidos, que esboçam o futuro. Enquanto os partidos se aferram à tomada do poder, eles tomam a palavra e dão exemplo de exercício democrático em que o poder se distribui em múltiplas instâncias de participação.

Quem veio às ruas nesse último mês nasceu depois da queda do muro de Berlim e fez-se adulto quando aluíram as torres gêmeas. Não se define como esquerda ou direita. Não atende a convocatórias de fulano ou beltrano. São cidadãos da nação Facebook, um estado virtual sem fronteiras.

A rede é a grande revolução social que viram nascer e crescer, proeza tecnológica de que são contemporâneos onde se geram os valores de que estão imbuídos: partilha, liberdade de expressão e gratuidade. Diferentes no conteúdo, as manifestações, mundo afora, são similares na forma de organização e expressão porque emergem da cibercultura que é a cultura global contemporânea.

Pós-ideológicos, nossos jovens concentram suas exigências na liberdade, no bem viver e na condenação da corrupção. A liberdade herdada da luta de outras gerações, um patrimônio cujo valor mal avaliam; quando ameaçada, defendem.

Acusados de individualistas, vivem do compartilhamento da informação e, à sua maneira, têm uma vida em comum, posta a nu e acessível a todos, fazendo da transparência uma regra que querem válida em todos os espaços. Daí a ojeriza às zonas de sombra, à trapaça, que consideram a regra do jogo partidário.

Criados na liberdade de expressão absoluta, tocando às vezes as raias da irresponsabilidade, a irreverência juvenil encontrou na rede seu instrumento ideal, que lhes garante não só o direito de se exprimir, mas sobretudo o de ser ouvido, quiçá por milhões de interlocutores.

A gratuidade que experimentam no consumo dos bens culturais disponíveis na rede — ou o que percebem como tal, apesar de essa gratuidade ter valido ao criador do Facebook uma das maiores fortunas do mundo — se traduz na demanda radical de um mundo sem dono.

Na contramão do “tudo tem seu preço”, a juventude “face” tudo disponibiliza, o que é seu e o que é dos outros, tem uma espantosa intimidade com a ideia de que tudo lhe pertence e de graça. O que exacerba sua indignação quando privada daquilo pelo que paga, ou pagam seus pais sob a forma de impostos.

São contra escolas sucateadas, a doença da saúde pública, a infelicidade feliciana e o transporte que não chega a lugar nenhum. Sua meta-demanda é o fim da corrupção. Não merecem a pecha de apolíticos. A rede não os faz individualistas, e sim autônomos e conectados. Capta e traz à tona, na palavra de cada um, tendências de opinião, cria solidariedades que se inscrevem nos seus cartazes.

Sua mobilização instantânea e geométrica provocou um curto-circuito no enferrujado motor das máquinas partidárias que entraram em pane e em pane continuam. Envelheceram no diálogo de surdos com essa população, esmagadoramente jovem, que de repente entrou em cena.

Considere-se um progresso, um retrocesso ou um progresso que contém riscos, nada muda o fato que as redes existem, são um ator político relevante, o Ágora da Pólis do século XXI.

Não há que pôr a culpa nos jovens. Cabe às autoridades identificar quem pratica atos criminosos, dizer à população quem são, impedir sua ação. Confundir os manifestantes com os baderneiros é dar ganho de causa a esses criminosos que tentam, na multidão, se confundir com eles.

O Globo, 20/07/2013