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Os autores da cidade

 As cidades são sistemas vivos, capazes de aprender e se transformar, não apenas um aglomerado de pessoas aleatório e desconexo. Na vida das cidades, fatos e atos nunca são apenas o que parecem ser. A cidade tem um poder de contaminação para o bem ou para o mal. O medo, por exemplo, se alastra facilmente. Assim como as esperanças.

Quando cariocas deixavam o Rio, fugindo da violência, a cidade, dizia-se, era um caso perdido. Mas eis que o inesperado aconteceu: o espírito da cidade mudou. Atribui-se essa mudança a sua escolha como sede das Olimpíadas e de outros eventos para os quais estamos convidando gente do mundo inteiro. É bom não esquecer que os donos da casa somos nós.

 

Que ninguém subestime a importância das Unidades de Polícia Pacificadora nessa mudança. Em si elas cumprem os objetivos a que se propuseram: recuperar os territórios ocupados pelo crime organizado e devolvê-los aos moradores. A demanda de uma política de paz que se espalhe pela cidade cresce e se afirma. Há que torná-la irreversível. A tarefa, em si, já é imensa, mas grande também é a força do exemplo, a demonstração na prática de que uma estratégia consistente, aplicada com coragem e perseverança, se impõe como política de Estado. E tira da letargia uma população que antes se comprazia na litania do “não tem jeito”. No rosário de queixas – quase todas legítimas – a acusação de inércia, quando não de cumplicidade das autoridades.

Agora que o governo está agindo, cabe a pergunta: qual o papel da sociedade? Pois não há que esperar de uma ação policial que satisfaça a lista de necessidades que a desigualdade e o abandono acumularam ao longo de várias gerações.

A ação policial terá sido uma condição sine qua non para que outras energias da sociedade se ponham em movimento. Um exemplo: a indústria precisa de mão de obra e os jovens, de ensino profissionalizante e trabalho. Com a palavra, empresários e educadores.

Resta a ação dos moradores das favelas que, livres da coerção do tráfico e das milícias, têm a possibilidade de vertebrar seus bairros com iniciativas próprias. E deixar para trás os vícios de informalidade e dos “gatos”, resquícios de um tempo de ilegalidade generalizada, promiscuidade dos pequenos com os grandes delitos. Essa a parte que lhes cabe na integração da favela, como bairro, aos outros bairros.

Olhando para a cidade como um todo, é evidente que a violência do crime organizado, sendo o mais trágico problema urbano, não é o seu único desafio. A violência tem muitas faces, como o caos no transporte público e a agressividade do trânsito.

Há quem gaste três horas para chegar ao trabalho e outras tantas para voltar para casa. São horas não pagas, tempo de vida roubados aos que ganham menos. Na cidade entrevada, onde um mar de veículos se atravanca desordenadamente, o cotidiano dos cariocas está engarrafado em um trânsito infernal.

Se foi o aumento de renda que, ampliando a classe média, trouxe para as ruas um número maior de veículos – o que é uma boa notícia – espera-se uma notícia ainda melhor, a de que o governo chamará a si a mobilidade urbana, investindo em engenharia de trânsito com a mesma determinação de enfrentar obstáculos que colocou a segurança pública no topo das políticas bem-sucedidas. Confirmaria assim a demonstração de que problema sem solução é o que ainda não foi chamado de problema ou equacionado corretamente.

Os cariocas, por sua vez, seriam coerentes se só atravessassem a rua nas faixas de pedestre e não parassem carros em fila dupla. Se não bloqueassem os cruzamentos ou ultrapassassem pelo acostamento, dirigindo com o senso de responsabilidade que cobram de quem dirige a cidade. Se não andassem de bicicleta nas calçadas nem as transformassem em estacionamento.

Calçadas são um pequeno espaço da cidade que todos poderiam assumir como seu, cada prédio, cada rua, quarteirão ou bairro, restabelecendo nelas ordem e livre trânsito para os pedestres. Todos ganhariam, sobretudo idosos e deficientes físicos.

Engenharia de trânsito e políticas de transporte público são tarefas de governo. Comportamentos civilizados e conviviais dependem de cada um de nós. Pequenos gestos que, somados, sinalizam uma superação da cultura da brutalidade – elogio da esperteza e do oportunismo – e inauguram uma relação entre governo e sociedade.

O bom governo é uma via de mão dupla onde se encontram autoridades que assumem suas responsabilidades e cidadãos conscientes de que, em última análise, são eles os autores da cidade.

 

Artigo publicado no jornal O Globo em 30.05.2010

Ofensa aos cariocas

A pichação do Cristo é um atentado contra a cidade, um ato desprezível que só pode ser atribuído à profunda estupidez e ao mau caráter de quem o fez. No momento em que a cidade sofre pela ação da natureza, associada aos erros de uma sucessão de desgovernos, um ato humano voluntário que degrada o símbolo maior da cidade é indesculpável. As pessoas que fizeram isso estão na escala mais primitiva da cidadania. Como carioca, me sinto profundamente ofendida.

Perspectivas 2010: cariocas podem ter um meio ambiente melhor*

Há um mês, às vésperas da Conferência de Copenhague, a Prefeitura do Rio de Janeiro assumiu o compromisso de enfrentar, aqui, o impacto do aquecimento global. Foi a primeira cidade brasileira a passar recibo, concretamente, de um drama mundial que, diagnosticado há quatro décadas, ainda desafia a inteligência e o bom senso da comunidade internacional.

O programa Rio Sustentável se propõe a reduzir em 8% até 2012 as emissões de poluentes em relação aos patamares de 2005. Até a Olimpíada de 2016, serão 16% de redução, chegando a 20% em 2020. O Rio Como Vamos é co-signatário deste compromisso, encarregado de monitorar o cumprimento das metas estabelecidas. Essas metas incluem o fechamento do aterro sanitário de Gramacho, em Duque de Caxias, o incentivo ao uso de energia limpa e as mudanças no sistema viário que substituirá parte dos ônibus a diesel por veículos movidos a biocombustível.

São boas notícias, são políticas que fazem sentido, há muito reivindicadas pelos ambientalistas. Mas nenhum programa governamental – e essas metas são de responsabilidade do poder público – será suficiente se não houver um envolvimento decisivo da sociedade carioca. Nenhum governo resolverá os problemas da cidade sem a participação ativa da população. Isso vale para todas as áreas da administração pública mas, sobretudo, para o que concerne ao meio ambiente.

Tomemos um exemplo: o ar poluído, carregado de CO2, agrava as doenças respiratórias. O Sistema de Indicadores do RCV (Rio Como Vamos), baseado em dados do SUS, mostra que a incidência de internações de crianças com infecção respiratória aguda, nos hospitais do Rio, é impressionante.

Ora, todos ajudamos a poluir o ar. O motor de um carro desregulado contribui para isto. Regule o motor de seu carro. Plante uma árvore, elas ajudam a filtrar o ar que respiramos. Não jogue detritos nas ruas e, em casa, separe o lixo para reciclagem. São gestos simples, que estão ao alcance de todos, que melhoram, e muito, a qualidade de vida na cidade.

Copenhague foi uma decepção. O que só aumenta o sentido de urgência e a importância da participação de cada um. Não dá para esperar mais quatro décadas até que os governos se ponham de acordo. É preciso entender, de uma vez por todas, que nada mudará sem que cada um chame a si a responsabilidade pela mudança.

Esse é o verdadeiro rosto da política contemporânea. Uma política enraizada no cotidiano. Esse é o rosto do Rio Como Vamos, que aposta na construção de uma cultura cidadã, que não dependa apenas de ações governamentais – ainda que as exija e as monitore. Uma cultura capaz, ela mesma, de produzir resultados no dia a dia.

A população carioca já entendeu a importância de cobrar das autoridades um governo com metas. Pouco a pouco, a sociedade começa a se tornar atenta à necessidade de monitorar o seu cumprimento. Resta agora interiorizar a convicção que cada gesto nosso, no cotidiano, nunca é inofensivo, é para o bem ou para o mal da cidade. Contribui ou inviabiliza o cumprimento dessas metas. E sempre será um gesto político.

* Texto publicado na seção Sociedade Aberta, do Jornal do Brasil Online, em 02/01/2010

Cultura Cidadã

O Rio Como Vamos convidou Antanas Mockus a vir ao Rio, para um encontro com o prefeito Eduardo Paes, porque espera dele uma contribuição ao nosso esforço de construir aqui uma Cultura Cidadã. Essa Cultura se instala quando concordamos com algumas premissas da vida em comum em nossas cidades:

  • Cada gesto individual tem um resultado coletivo para o bem ou para o mal. A cidade pertence a todos e se a qualidade de vida melhora, melhora para todos. Ela não vai melhorar se isso não for uma disposição coletiva, que cada um leva à frente com gestos individuais. O lixo que você não joga no chão faz a cidade mais limpa para todos e para você mesmo.
  • Nenhum governo resolverá os problemas da cidade sem a participação da população, uma participação ativa e qualificada. O RCV procura, com suas pesquisas e monitoramento das políticas públicas, dar subsídios para essa participação, informando e mobilizando a população, de um lado para que reclame seus direitos, de outro para que assuma seus deveres. Cuidar da cidade é um dever que reforça o direito – cobrado junto às autoridades – a uma cidade bem cuidada, boa de se viver. Quem não joga lixo nas ruas tem o direito de exigir uma cidade limpa.
  • Uma Cultura Cidadã dá a cada um o direito de exigir dos governantes que assumam suas responsabilidades e prestem contas do que fazem com regularidade e transparência. E de si mesmo, e de quem está a seu lado, que respeite as leis e o interesse público. As autoridades têm, por sua vez, o direito e o dever de cobrar isso dos cidadãos. É um jogo permanente e democrático de mútua expectativa.

Mockus, quando prefeito de Bogotá, apoiou-se sobretudo em uma relação viva com a população, governou com e graças a ela. Fez o contrário do político que aceita e quer uma delegação total de poder. Teve imenso sucesso e transformou a cidade. Apostou na capacidade de escuta e interlocução de mão dupla. Abriu um processo educativo de amplo espectro. Trabalhoso, esse processo vale a pena porque cria raízes de uma sociedade realmente democrática e moderna.

No Rio, estamos pedindo a ele que divida conosco o como fazer isso, no dia a dia, muito concretamente, com ideias originais. Convidamos Antanas Mockus e o prefeito Eduardo Paes para uma sessão de trabalho em comum. É uma oportunidade de ouro de nos beneficiarmos de sua experiência e de traçarmos, juntos, algumas estratégias eficazes voltadas para os problemas mais agudos da cidade.

É também, assim esperamos, um ponto de partida. O resto é conosco.

Viva o Rio!!!

Tivemos uma vitória de que precisávamos. Vamos, agora, merecê-la. Daqui até 2016 temos o tempo e a oportunidade de fazer de nossa cidade uma cidade como ela deve ser: justa, segura, sustentável e, como sempre, cada vez mais bela.

O Rio Como Vamos vai trabalhar para isso e precisa do apoio de todos os cariocas. Acompanhando o nosso trabalho você vai acompanhar o cotidiano da cidade, como vamos nas várias áreas de governo. E como estamos nos preparando para as Olimpídadas, o que acidade e todos nós ganharemos com isso.

Parabéns a todos os cariocas. Hoje é um dia feliz, vamos festejar!!!

Governar por metas

O prefeito Eduardo Paes prometeu ao Rio Como Vamos mandar segunda-feira (dia 14/09) para a Câmara de Vereadores a emenda em que se obriga a apresentar, em 180 dias, um plano de metas. Nós havíamos proposto 90 dias. Ele achou insuficiente, apoiado, em sua experiência, na dificuldade de se estabelecer neste prazo metas tecnicamente confiáveis e realizáveis. Concordamos. O que importa é que vai se criando uma cultura de governar por metas, o que é bom, não somente porque há planejamento, mas porque facilita a transparência.

Estivemos com o prefeito e ele nos entregou o PPA (Plano Plurianual). Estamos esperando o prometido Plano Estratégico, que detalha os programas do governo. Vamos estuda-los à luz dos diagnósticos que já fizemos e continuamos fazendo. Tal ou tal programa é mesmo uma necessidade? E aquela outra necessidade, foi atendida?

Se há números, é bem mais fácil acompanhar e julgar se o seu dinheiro, o dinheiro dos seus impostos está sendo bem gasto. O prefeito diz que vai dobrar o número de creches, entre creches da prefeitura e conveniadas. A notícia é boa. Todas as mulheres sabem disso e esperam por esse serviço público, indispensável quando a sociedade carioca tem um mercado de trabalho fortemente investido por elas. Mas onde estarão essas creches? Lá onde se precisa mais? Ou não?

O trabalho do Rio Como Vamos é descobrir tudo isso e tornar essa informação clara, compreensível para todos. A sua missão, cidadão, é protestar se o seu interesse não estiver sendo atendido. Assim caminha uma democracia viva.

Fique de olho no nosso site, as informações sobre as diferentes áreas de políticas públicas, aquelas que fazem com que sua vida melhore ou piore, vão estar aqui.

Cidadania dá trabalho!

Os cariocas acreditam no poder encantatório das palavras. À força de pronunciá-las, é como se elas ganhassem vida e consistência. Cidadania é uma dessas palavras mágicas, incontornável em qualquer texto bem pensante sobre democracia, politicamente corretíssima. No entanto, a olho nu é perceptível quão anêmica é a nossa cidadania. E o melhor teste é entender a relação perversa entre a população e os governantes.

Nós e eles, é assim que nós, a população, nos referimos a eles, os governantes, uma relação de estranheza marcada, em geral, pela distância e pelo sentimento de desamparo. Eles fazem ou deixam de fazer e nós assistimos, compungidos ou indignados, mas quase sempre inertes. Esse desencontro é legitimado pela delegação de poderes que o voto outorga. Independentemente de quem governa, críticas são percebidas como instrumentos da oposição.

Aplaude-se ou critica-se um governo a priori, pela identidade que se tem ou não com ele. Esse primitivismo traduz-se na detestável expressão “não colocar azeitona na empada de fulano”,quando se recusa o aplauso merecido, o que é o contrário mesmo do espírito público que seria avaliar corretamente os governantes pelo seu desempenho. A muito poucos ocorre que cidadania é manter sob vigilância os governos, qualquer que seja a concordância ou discordância que se tenha com eles. É ser,de certa forma participe das políticas públicas, acompanhando seus rumos e ritmos, progressos e impasses.

Essa semana passei duas horas com o prefeito Eduardo Paes que,diga-se,com paciência e entusiasmo, expôs à equipe do Rio Como Vamos o Plano Plurianual (PPA) que mandou para a câmara de vereadores.Agora vamos nos debruçar sobre essa papelada,analisar as metas, conferir com os diagnósticos que já temos, verificar o quanto essas metas atendem às necessidades da cidade.E continuamos esperando pelo Plano Estratégico que vem por aí e completa os dados necessários ao monitoramento.Vai ser uma trabalheira mas monitorar políticas públicas dá mesmo muito trabalho.

Uma nova cultura política visa a qualidade de vida da população e, através de indicadores confiáveis, sabe se ela melhora ou piora. Desmente a demagogia, visão deformada e deformante que cria realidades fictícias e impede a construção de estratégias consistentes. Confronta políticos aos compromissos que assumem em campanha, mede o cumprimento das promessas fáceis que fazem, inaugura uma prática de acompanhamento e cobrança permanente de eficácia das políticas públicas.

Quem sabe como está sendo avaliada a escola em que estudam nossos filhos? Que espécie de educação estão recebendo?A violência aumentou ou diminuiu,aonde e porque? Há que aumentar o nível de informação da população sobre o andamento da saúde, dos transportes, da segurança, da moradia e de tantos outros aspectos constitutivos do seu cotidiano. O desafio é que qualquer pessoa possa se apropriar de dados confiáveis sobre qualidade de vida que a fortaleça para entrar em diálogo crítico com a administração pública. Dados,de difícil leitura e entendimento,mas que falam alto sobre a vida da população,estiveram quase sempre restritos ao uso de especialistas. Esse é um desafio conjunto para cientistas sociais ,a mídia e os comunicadores, a produção de uma informação honesta e clara, que forme e estimule uma opinião pública consciente de sua capacidade de pressão junto ao poder público.

Um território ,nossa cidade,nossos bairros.Um instrumento,o conhecimento de indicadores confiáveis,traduzidos e tornados inteligíveis para o conjunto da população.Uma cultura política, a cidadania como um agir permanente,um entendimento do que está em jogo e que afeta nossas vidas,a capacidade e decisão de interagir com a administração,cobrar resultados, opinar e fazer escolhas com conhecimento de causa.Assim se estimula a imaginação social sem a qual cidade alguma se alimenta.

Há quem diga que a política está morrendo,vitima dos desmandos de políticos desmoralizados.Inspira desprezo e desinteresse.Merecida agonia.Mas o que morre é a demagogia,.Enquanto ela se perde em seus próprios desmandos,aumenta na população a exigência de credibilidade,de eficiência,de resultados sensíveis em qualidade de vida.Não basta querer o bem da cidade,o que é por demais abstrato.Trata-se de querer o melhor,o cada vez melhor,o que pode ser medido ,a cada mês, a cada ano.E esse é um querer político.É isso que eu quero.Não é isso que você também quer?

Pandemônio

Tudo começou há anos atrás. Pássaros mortos encontrados nos jardins eram o sinal macabro de que o vírus da gripe aviária voava baixo. Passou, ninguém mais falou nisso como se alguém tivesse confundido um tsunami com poeira de maresia. No inconsciente coletivo entrou o sentimento de uma possível devastação mundial não por uma estrondosa bomba atômica mas por um ser minúsculo e invisível. A antipática palavra pandemia entrou no vocabulário corrente.

Agora corre mundo a gripe suína, felizmente menos letal mas, ainda assim, assustadora. Ninguém é capaz de avaliar com certeza a extensão do desastre que esse vírus espírito de porco é capaz de provocar. Ninguém o conhece direito e é da má natureza dos vírus a vocação de camaleão. São mutantes, fugindo de quem tenta conhecê-los e dominá-los.

Uma pandemia é um revelador. O que ela dá a ver é o desgoverno mundial, a precariedade dos recursos coletivos para fazer face a uma real ameaça. Por medo a maioria se cala, outros minimizam o perigo, uns poucos, melhor informados, com carradas de razão perdem o sono. A diretora da Organização Mundial de Saúde, com voz pausada e a impassibilidade dos orientais, para ser bem compreendida, afirmou que a pandemia é inevitável.

A globalização pode ser descrita de várias maneiras, mas uma delas é a frenética movimentação de pessoas em aviões gigantescos, transitando por aeroportos que se assemelham a cidades. Em pouco mais de um dia, qualquer um dá a volta ao mundo. E leva consigo seus talentos, seus traços físicos, sua cultura mas também seus males. Um espirro, por exemplo.

Os vírus não têm passaporte, não apitam no detector de metais, são temíveis e invisíveis terroristas. Inevitáveis imigrantes ilegais. Face a eles não há fronteiras, viajam tão incógnitos e livres quanto os capitais

Uma pandemia está aí. A gripe suína é o nosso presente. E agora?
Vivemos em um mundo global que mostra todo dia sua vulnerabilidade. Uma espécie de selva bruta, mesmo a curto prazo inviável.
É uma evidência que o mundo precisa de instituições globais com legitimidade de direito internacional e com capacidade operacional para responder a crise mundiais como as emergências sanitárias, o aquecimento global ou os destemperos da economia. Ou vive-se como em uma Terra Pátria ou em uma anarquia do tamanho do mundo. Ou no pânico e no corre-corre de um formigueiro pisado cada vez que uma tragédia acontece. A dimensão das tragédias está cada vez maior e mais extensa.

O sinal vermelho já tinha se acendido e ainda não tinha se apagado. A alucinante e selvagem circulação de capitais destruindo moedas e economias já tinha demonstrado o poder corrosivo da lei do mais forte. A recente crise financeira deixou nus todos os reis que pretendiam vestir lindas calças de veludo e, assim, desfilavam em seus castelos de areia ou, melhor imagem, castelos de cartas que desabaram uns após outros em uma sucessão de falências. Nada disso bastou para convencer a todos de que o mundo está girando desgovernado e que, de tempos em tempos, passamos perto do abismo.

A vida retoma seu curso e ficam pelo caminho as vítimas de economias arruinadas, transformadas em imigrantes ilegais, mundo afora se esgueirando pelas fronteiras, forçando a porta lá onde sentem cheiro de riqueza, assombrando a vida de quem dentro teme a invasão e defende seu território com unhas e dentes. Os vírus, ninguém consegue deter e, insidiosos e subversivos, não respeitam poder nem riqueza. Mas costumam maltratar especialmente os mais pobres.

Agora que uma pandemia se instalou que recursos tem o sistema de saúde de um país como o Brasil para fazer frente a ela? Nenhum país será poupado. A questão é quão duramente será atingido. E é cada um por si.

Nesse pandemônio quanto mais pobre o país, maior o desvalimento.
O vírus é uma metáfora trágica e de mau gosto. O que está em questão é o presente e o futuro de um mundo frágil e desequilibrado que se tornou uma ameaça para cada um de nós e para si mesmo. Diante dele que conselho nos dão? Lavar as mãos?

(Artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 02/08/2009)

Blog da Rosiska

O Rio foi um presente que eu ganhei da vida. Poderia ter nascido numa cidade horrorosa ou chatíssima e caí nesse berço de ouro. Paraíso e inferno.

O meu jeito de retribuir é dar um presente ao Rio. Não posso escolher entre segurança, saúde e educação porque a cidade precisa de tudo isso. Então, junto com um grupo de cariocas, demos ao Rio um trabalho de todo dia, o Rio Como Vamos.

Trata-se de um kit: com os nossos números, uma lente de aumento que torna nítidos os problemas da cidade e dos seus bairros. Para enfrentá-los, faz parte do kit um convite a participação. E vai junto uma boa dose de esperança.

Vamos juntar o nosso presente com o que a maioria escolheu, a segurança.

Como dar ao Rio a segurança que todos nós queremos? Quem vai nos dar isso senão nós mesmos? Como? Ficando de olho nas autoridades, nas metas que a Secretaria de Segurança anunciou. Ótimo, já temos metas que acenam com uma boa melhoria. Se não forem cumpridas, vamos cobrar.

Mas que tal conversar um pouco conosco mesmos?

São só bandidos ou maus policias que nos tiram a paz? Achamos que não.Somos violentos? Nunca? Com ninguém?

Você, que não é assassino, dirige em excesso de velocidade?

Não é assaltante mas nunca deu uma cerveja pro guarda?

Não é agressivo? Por palavras, por gestos? Sua casa é um lugar seguro para todos que moram lá?

Tomara que sim, mas se não for o caso que tal começarmos por aí. Em nós, em torno de nós, vamos nos dar segurança, vamos restabelecer a paz. É um presente que podemos nos dar uns aos outros e, juntos. todos darmos ao Rio.

Rosiska

PS: estou começando hoje esse blog. Apareça.