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O silêncio do carnaval

Blocos saem às ruas ostentando alegria que não rima com sofrimento que a incerteza presente e futura está trazendo

Nesta época do ano costumo escrever sobre o carnaval, que é muito mais do que uma paixão que me vem do fundo da infância. É um patrimônio inestimável do povo brasileiro que atrai a nossos pífios aeroportos louros que querem ser mulatos, ricos que mitificam a pobreza, gente em busca de uma vida perdida em outra encarnação e que só reencarna nesse clima mágico em que tudo é permitido.

Quanto a nós, que crescemos neste país de loucos, passamos o ano chorando o luto por esperanças frustradas e, de repente, quando rompe fevereiro, mudamos de assunto. Um demônio ancestral, solto nas ruas, arrasta multidões, enfeita e enfeitiça a avenida.

É graça dada aos carnavalescos acreditar na fantasia, incorporar um personagem qualquer como uma dimensão real de sua vida. É graça dada a eles a pele colorida dos arlequins que, vestida na infância, cola na alma e resiste à banalidade dos dias, espargindo purpurina sobre nossas vidas.

Este ano, no entanto, há algo de diferente no ar. É carnaval, e os blocos saem às ruas ostentando uma alegria que não rima com o sofrimento que a incerteza presente e futura está trazendo aos brasileiros. Essa alegria é tingida de amargor. Talvez porque seja carnaval me vem à memória um verso de Menotti Del Picchia em seu poema “Máscaras” que, falando de pierrôs, colombinas e arlequins, define à perfeição o trágico da incerteza: “A incerteza que esvoaça desgraça muito mais do que a própria desgraça.”

Trata-se de um pierrô apaixonado em dúvida sobre o amor da volúvel colombina. Quer a verdade, por pior que seja, porque a incerteza guarda junto com o temor do desenlace um resto de esperança e o medo de que ela seja logo desmentida. Se as incertezas que pesam sobre nós são bem mais dramáticas, nem por isso o verso perde a pertinência. As certezas, por amargas que sejam, provocam um choque de realidade, reordenam prioridades, exigem providências, redefinem o que é de fato importante na vida de cada um. A incerteza é paralisante, engana e maltrata. Instalou-se em nossas vidas como uma hóspede inesperada que acorda conosco e que, ao que tudo indica, veio para ficar.

Os brasileiros vivem aflitos desde que uma enxurrada de lama e mentira varreu o país. Não sabemos a extensão do desastre que um mau governo possa ter causado à nação. Ficou a neblina. Cresce o medo do desemprego que já atinge nove milhões de pessoas. Aumenta o custo de vida que transborda de salários congelados. Vive-se agora sem saber se, sim ou não, haverá emprego e salário no fim do mês, e a aposentadoria contratada para o fim da vida. Quem trabalhou honestamente e nada tem a ver com os desmandos de quadrilhas várias vive essas ameaças com uma revolta surda.

A moeda pode se esfarelar? Quem sabe… A sangria que roubalheira e incompetência fizeram na economia e a subtração dos recursos que pagam escolas, universidades, saúde, saneamento e segurança já são, em si, desoladoras.

Movemo-nos em um cenário de ruínas. Os hospitais do Rio fecham no momento em que chega a epidemia de zika. Piora o fantasma da doença quando o socorro é improvável. A evidência de que o montante da rapina supera de muito o que foi gasto nas bolsas família acrescenta ao butim a esperança roubada dos eleitores. O descalabro é evidente, assim como o desgoverno.

E, no entanto, viver é preciso, e vivemos, numa estranha normalidade. Os ruídos do carnaval encobrem um silêncio assustador que não está sendo ouvido. Esse silêncio pode ser um grito surdo, pode conter um potencial explosivo. Talvez algum ouvido mais atento esteja ouvindo os barulhos do futuro. Quem sabe quem ou o que se esconde nesse poço de decepção e mágoa, nesse silencio?

Há quem explique a aparente inércia da sociedade pela ausência de lideranças. E se a ideia mesma de liderança, como encarnação das esperanças em um fulano qualquer, estiver agonizando, desmoralizada como os velhos condottieri?

O tempo passa e, enquanto nos desgovernam, há uma vida para viver, de vez em quando brincando carnaval, já que algum prazer é preciso. Mas o carnaval vai passar. O ano vai recomeçar. As previsões para a economia são as mais sombrias. Para a política, esse buraco negro, sequer há previsões. O que chamamos de crise é esse feixe de incertezas sobre o que vai acontecer no Brasil e na vida de cada um. Há uma só certeza: ou estas perguntas encontram resposta ou a crise, se tornará, ela mesma, incontrolável.

O carnaval é uma gigantesca máscara que encobre o rosto desta nação alegre, colorida de paetês verdes e amarelos. O rosto trágico do Brasil.

Louvando o que bem merece

O Brasil é muito maior do que a Praça dos Três Poderes, palco dos podres poderes e seus canastrões ridículos

Feliz Ano Novo. Escolhi desejar aos leitores Feliz Ano Novo na pessoa de um artista brasileiro, cujo pai era paulista, o avô pernambucano, o seu bisavô mineiro, seu tataravô baiano e seu mestre soberano, Antônio Brasileiro. Feliz Ano Novo, Chico Buarque de Holanda, porque, quando se fala de felicidade no Brasil, a palavra vem muitas vezes associada ao seu nome, à inigualável obra que você nos legou e que nos dá a certeza, como dizia meu amigo e mestre arlequinal Darcy Ribeiro, que havemos de amanhecer.

Quem duvidar vá ver o filme de Miguel Farias Jr. que conta a vida desse homem, a aventura que a Estação Primeira de Mangueira pôs em cena, anos atrás, no esplendor da Avenida, o “Chico das Artes, boêmio, poeta Buarque, um gênio”. Sairá do cinema com a alma leve de quem celebra um Ano Novo com a certeza de que o Brasil há de dar certo e que, de certa forma, já deu quando produziu poetas, cantores e compositores entre os melhores do mundo, as canções que o povo todo canta, que eu começo e você termina porque são parte da nossa memória e patrimônio intangível. Chico é uma página luminosa do álbum de família do Brasil.

O que é preciso não esquecer porque esse é o nosso maior capital, o que ninguém pode roubar ou calar. A ditadura militar tentou e não conseguiu. O trio de pitboys que o interpelou de maneira agressiva e desrespeitosa na saída de um restaurante no Leblon atualiza essa tentativa frustrada. Não mereceriam, na sua insignificância, uma única frase deste texto não fossem eles a encarnação odiosa do que não quero mais ver no Ano Novo.

Desejo a todos — e trabalhemos para isso — que o ódio não abra suas asas mórbidas sobre nós. Que recuperemos a capacidade de aceitar as diferenças que marcam nossa cultura. Que da democracia se guarde o essencial, o dever de ter opinião e o direito de externá-la livremente. E a obrigação de respeitarmo-nos uns aos outros por mais que essas opiniões divirjam. Agressões e insultos são sintomas de intolerância, de apodrecimento político, da emergência de um espirito fascistoide.

Contra esse espírito malsão o país tem anticorpos. O Brasil é muito maior do que a Praça dos Três Poderes, palco dos podres poderes e seus canastrões ridículos, do que os bandos de pequenos fanáticos que, de um lado ou de outro, pouco importa sob que bandeira, tentam se impor pela violência. Não, a política comporta adversários, mas não pode ter o poder de nos tornar inimigos. Brasília encobre com as modernas linhas dos palácios o que há de mais esclerosado no país.

Um mistério brasileiro é a coexistência de políticos execráveis com artistas excepcionais. Quem tem algo a propor sobre um futuro que nos possa re-unir? O país está pedindo uma nova aquarela do Brasil que abra a cortina do futuro, passando em revista tudo de que possamos nos orgulhar, o que temos vontade de cantar e defender. “Louvando o que bem merece, deixando o ruim de lado”.

É preciso repetir como um mantra que o Brasil não é essa política desavergonhada. Espero que possamos, no meio do turbilhão que estamos atravessando, guardar a lucidez sobre os nossos fundamentos culturais, bens mais valiosos do que o PIB.

A sociedade de mercado atribui um preço a todas as coisas e torna invisível o que não anuncia seu preço. O Brasil mestiço que, ainda marcado pelas sequelas da escravidão, com todas as suas abissais injustiças, tenta corrigir-se e não perde o orgulho de sua diversidade foi a nossa admirável escola de tolerância à diferença. Mestiço não só na pele, também nas origens, nos sobrenomes, nas culturas que atravessaram os mares para aqui se tornarem brasileiros. Quando mundo afora as fronteiras se fecham ao estrangeiro, o melhor do Brasil pede a palavra e conta a história de uma brava gente que aprendeu a acolher, transformar quem era o outro no mesmo, um brasileiro.

Esse brasileiro que se reconhece nas canções de Chico Buarque, na voz de Maria Bethânia — e a fonte a cantar, chuá chuá, e a água a correr, chué chué — na alegria de viver, nos carnavais, nas multidões de todas as raças, todos de branco, fazendo à Rainha do Mar o primeiro pedido do Ano Novo, enquanto lágrimas de ouro caem nas ondas. No barroco de Bia Lessa, no olhar de Sebastião Salgado, na nossa loucura posta em cena na Avenida pela loucura beleza do Joãozinho Beija Flor. O Brasil que celebra com carinho e respeito os cem anos da ilustre Cleonice Berardinelli.

É esse o país que nos irmana. Que todos os deuses do Brasil, neste ano, iluminem sua brava gente e nos livrem da peste da intolerância.

Reconstrução

Uma quadrilha que ocupou o Estado está sendo desbaratada, e esse fato, em si mesmo, já é um recomeço

Um amigo me diz que o país está acabando. Respondo que não, está recomeçando. Não vou morar em Portugal, como ameaçam fazer tantos desiludidos. Vou ficar no Brasil e espero ver o soerguimento deste país.

O pior já passou, o tempo da impostura, dos falsos heróis, quando o senador petista Delcídio Amaral, que já está preso, presidia a CPI do Mensalão. Quando o deputado petista André Vargas, que já cumpre pena de prisão por roubo, cerrava o punho “revolucionário”, afrontando o ministro Joaquim Barbosa, expropriando, em flagrante desrespeito à memória do país, o gesto de resistência dos que lutaram contra a ditadura.

Uma quadrilha que ocupou o Estado está sendo desbaratada, e esse fato, em si mesmo, já é um recomeço. Os tempos duros que estamos vivendo, com a economia destruída, a Petrobras à beira do abismo, as empresas corroídas pela promiscuidade corrupta com o governo, o desemprego e a violência crescendo nas cidades, são o preço que pagamos por ter, uma maioria de brasileiros, acreditado durante anos que o Partido dos Trabalhadores, nascido de nobres ideais, não poderia abrigar uma quadrilha. Caiu a máscara, já não é possível negar essa evidência. O partido que defendia os interesses dos trabalhadores acabou por objetivamente voltar-se contra eles, destruindo a economia e fazendo milhões de desempregados, como resultado da corrupção em que mergulhou e da gestão irresponsável da política econômica. O PT deixa uma legião de órfãos entre pessoas decentes que confiaram nele e foram ludibriadas.

Não podemos continuar sentindo como se a lama que se espalhou pelo país nos corresse nas veias. Para se reconstruir como nação, o Brasil precisa fazer o inventário de seus ativos que sobreviveram à debacle econômica e moral, voltar a acreditar em si mesmo, em sua sociedade, acreditar em suas instituições. Esses ativos existem e são valiosos.

Uma Justiça que funciona e pune lideranças do mundo político e empresarial é um ativo excepcional de que poucos países podem se orgulhar. Um tentacular sistema de corrupção que o PT, desde a era Lula, instalou como método de governo está sendo desmontado e deslegitimado pela Operação Lava-Jato. O Supremo Tribunal Federal tem confirmado, pela sequência de decisões contrárias às manobras de obstrução da Justiça, o respeito e a confiabilidade que já conquistara no julgamento do mensalão. O STF representa uma segurança contra o arbítrio do poder e do dinheiro.

Temos uma imprensa livre, competente e investigativa, que sempre se insurgiu contra as tentativas de implantação de um “controle social da mídia”, nefasto desígnio de calar os jornalistas. A sociedade brasileira sabe muito bem se informar, debate exaustivamente as notícias que recebe e ainda as põe à prova de outras versões que as redes sociais, com a autonomia e diversidade que lhes são próprias, produzem e difundem.

O Brasil tem uma população honesta, esmagadoramente majoritária, que ganha o seu sustento com trabalho e busca um bem merecido horizonte de melhoria de vida. É ela que aponta a corrupção como o maior problema do país, antes da saúde, da educação e da violência, como revela a pesquisa Datafolha. Acerta em cheio, porque é a corrupção que rouba os recursos da saúde e da educação e que alimenta a violência.

Temos uma opinião pública alerta, que está cobrando o fim do escândalo que é um Eduardo Cunha estertorando na presidência da Câmara de Deputados. Que se mobilizou exigindo que o Senado autorizasse a prisão do líder do governo na Casa. Sem a corrente de opinião que se formou nas redes sociais e interpelou o Senado, talvez os senadores não tivessem, quanto mais não seja por autoproteção, ousado autorizar a prisão de um colega, quiçá de um cúmplice. A vitalidade da opinião pública não está deixando o Congresso fazer o que bem entende. A posição da sociedade será decisiva nos desdobramentos do pedido de impeachment da presidente Dilma.

No momento dramático que estamos atravessando, o mais determinante ativo do Brasil, presente em todas as pesquisas de opinião, é imaterial, é a vontade de virar essa página da nossa história. É a indignação, a revolta, um querer coletivo, que cresce a cada dia e que não vai parar. Nesse querer coletivo vai amadurecer e dele emergir uma nova geração de lideranças, cujo denominador comum é a consciência aguda do drama social brasileiro, o amor à liberdade e o respeito inegociável à democracia. Esse é o perfil dos que, apoiando-se em nossos ativos, empreenderão, na política e na sociedade, a reconstrução do país.

O ódio contra as mulheres

Pôr fim à violência sexual é um compromisso que todos aqueles que abominam as sociedades autoritárias devem assumir

Não conheço uma única mulher que não tenha, ao longo da vida, em algum momento temido um estupro. Não quero, uma vez mais, nesta mesma página, protestar contra a violência sexual. Já não basta. É preciso saber de onde vem tanto ódio contra as mulheres e estancá-lo. Esse ódio gritante que na sociedade brasileira está escondido em factoides perversos, como o projeto de lei 5069.

Essa lei covarde pretende dificultar a assistência que os serviços públicos de saúde devem prestar a mulheres vítimas de estupro. Entre outras humilhações, dificulta o acesso à pílula do dia seguinte, que tem livrado muitas vítimas do pesadelo de se descobrir grávida de um estuprador. Desde 1940, a gravidez resultante de estupro é razão de aborto legal. Ninguém, em sã consciência, pode esperar que uma mulher carregue pelo resto da vida a sequela de um crime hediondo. Só um ódio patológico admite acrescentar à tragédia do estupro a dor de uma gravidez que gera um feto, não um filho. A hipótese sádica de que ela seja a isso obrigada já foi afastada há mais de 70 anos.

O presidente da Câmara dos Deputados se aproveita do pandemônio em que ele mesmo transformou a Casa para tentar voltar atrás em direitos conquistados por várias gerações de mulheres. Tudo isso diante do imperdoável, do inexplicável silêncio do plenário.

De onde vem essa perseguição sistemática, o assédio nas ruas, a violência nos becos, nos trens e, pasmem, sobretudo dentro das casas? Por que esse massacre? No Rio de Janeiro, no ano passado, foram mais de 1.400 mulheres estupradas. O silêncio e a inércia das autoridades são um insulto.

Como pode persistir tão impunemente uma prática criminosa que ameaça metade da população? Isso, sim, deveria preocupar os legisladores. Deveria interrogar a consciência moral do país.

Não, não é sempre um psicopata quem viola ou mata mulheres. Bons chefes de família já foram descobertos na prática sórdida do estupro. Já aconteceu que assassinos de mulheres antes do crime fossem considerados cidadãos respeitáveis. Não são doentes, inimputáveis, são criminosos. Têm em comum negar às mulheres sua humanidade. A violência sexual é o mais grave e brutal atentado à dignidade das mulheres. Uma forma de assassinato que deixa viva um zumbi que vai parar na delegacia como se fora, ela, a criminosa.

Uma coisa, não mais que uma coisa sem vontade, sem opinião e sem direitos, uma coisa desprezível, é o que pensa de uma mulher o homem que a violenta ou mata. Na raiz da violência contra as mulheres está um sentimento ancestral de poder sobre seus corpos e almas que persiste no século XXI como um eterno retorno à Idade da Pedra.

É esse poder que tem que ser posto em questão. Ele se apoia ainda hoje numa cumplicidade de sociedade secreta entre homens que continuam a tratar a violência sexual como matéria para piadas que suscitam gargalhadas marotas. Ou que cria argumentos especiosos em que a vitima é sempre a culpada.

Quando este poder é contestado, quando é atravessado pelo NÃO que o desejo e a dignidade feminina exprimem, confrontado à insubmissão de que a mulher se torna capaz, a fúria se desencadeia, como se algo muito profundo e arraigado estivesse sendo ameaçado.

A existência autônoma da mulher, a autoria do seu desejo, é vivida como uma inadmissível transgressão. Quando a coisa deixa de ser coisa, ganha vida e assume a sua liberdade, vem a punição. Esta punição pode ser o estupro como pode ser um tiro.

Como é possível que uma lei tão retrógrada, tão abertamente ofensiva às mulheres, tão na contramão das liberdades que vêm sendo conquistadas pelos brasileiros, inconstitucional e injusta, tenha passado em brancas nuvens na Comissão de Constituição e Justiça sem que, no plenário do Congresso, se ouvissem manifestações de repúdio? Onde estavam os deputados comprometidos com os direitos humanos? Por que se calaram? Por que se omitiram? Que saiam do silencio e impeçam a aprovação dessa lei que ofende as mulheres e não interessa senão aos desígnios obscuros de seu autor. É o mínimo que deles se espera. Devem isto a si mesmos, às mulheres e a seus eleitores.

Pôr um fim à violência sexual é um compromisso que todos aqueles que abominam as sociedades autoritárias, homens e mulheres, devem assumir. Impedir que esta lei seja aprovada faz parte desse compromisso. Cada um encontrará a maneira de manifestar seu repúdio, falando, escrevendo, protestando nas ruas e nas redes sociais. Não é admissível a indiferença. Este é um desafio moral similar ao da recusa absoluta da tortura.

Na contramão da liberdade

O Estatuto da Família é aberrante e contraria a Constituição e decisões do STF. Não tem qualquer futuro no campo jurídico

O Congresso Nacional não se cansa de trazer consternação aos brasileiros. Como se não bastasse a brutal perda de credibilidade que vem sofrendo por conta de delitos contra o patrimônio público atribuídos aos seus membros mais graduados, como se não bastasse o grotesco espetáculo de cambalacho em que se transformou a pretensa reforma ministerial e que fez a população enrubescer de vergonha e humilhação, ainda se permite, aproveitando a incerteza em que o país está mergulhado, dar guarida a uma onda obscurantista cuja última façanha veio da lavra de um obscuro deputado evangélico. Este se arrogou a prerrogativa, com mais um punhado de deputados, de definir o que é a família brasileira.

Famílias, sabemos todos, são realidades tão complexas e multifacetadas quanto é complexo o mundo dos afetos, ganham formas diversas segundo as circunstâncias e momentos de uma história de vida. Ora, para os senhores deputados, é tudo muito simples: um homem, uma mulher, um casamento e os filhos desse matrimônio.

O presidente da Câmara apressou-se em fazer avançar a votação dessa aberração a que se deu o nome pomposo de Estatuto da Família, aprovado, a toque de caixa, por uma comissão especial do Congresso. O Estatuto da Família é aberrante, sim, contraria a Constituição e decisões do Supremo Tribunal Federal. Não tem qualquer futuro no campo jurídico, mas deve ser levado a sério como sintoma de uma investida insidiosa e perigosa do que há de mais atrasado na sociedade brasileira. Como tal, é alarmante e não deve passar despercebido. Traz de volta o cacoete autoritário de, em obediência a preceitos religiosos, querer invadir e controlar a intimidade e a liberdade dos indivíduos.

Impor um padrão único de família não é uma questão de opinião. O deputado que não reconhece as famílias homoafetivas como tal quer privar quem as vive dos direitos que teriam face ao ordenamento jurídico, e que a Justiça, em boa hora, já garantiu. Quem escolhe esse tipo de família não está privando ninguém de nada. Quem a exclui do campo dos direitos está, sim, negando a liberdade do outro, submetendo os direitos universais assegurados pelo Estado democrático à condenação do que alguns consideram um pecado.

É o autoritarismo fundamentalista que impede de reconhecer que as famílias não são mais e nunca mais serão como eram até meados do século passado. Hoje, na esfera afetiva, quem comanda é a liberdade de cada um.

Sempre que igrejas ou o Estado decidem se imiscuir na intimidade e na liberdade dos indivíduos para regulá-la, logo descobrem que a pretensão é temerária porque inócua. É ilusório acreditar que políticos retrógrados possam moldar a sociedade a golpes de canetadas. A sociedade seguirá soberana, moldando-se a si mesma. O que já deveriam ter aprendido quando a união civil homoafetiva entrou no campo dos direitos assegurados por uma sociedade democrática como uma evidência.

Temos vivido nos últimos anos, no Brasil, no reino da mentira e do faz de conta. Heróis que se revelaram bandidos, homens probos que se revelaram ladrões, empresas poderosas que desabam roídas pelo cupim da corrupção. Um país supostamente rico e próspero, que acorda pobre e endividado, o colapso escondido em contabilidades fajutas. Essa convivência com a mentira só tem nos trazido desesperança e medo do futuro. A aposta da onda obscurantista é acenar com o passado supostamente seguro quando o futuro está embaçado, é imprevisível e, por isso mesmo, ameaçador. Mas estão subestimando a sociedade brasileira.

Enquanto políticos profissionais se alimentam e tentam nos alimentar com mentiras, impõem uma politica carcomida, uma sociedade dinâmica, em sintonia com o mundo contemporâneo continua a produzir-se a si mesma e abre caminho às liberdades pelo seu simples viver, afirmando a sua verdade.

O mais surpreendente fenômeno brasileiro é essa ruptura entre o mundo político que apodrece e uma sociedade viva que floresce.

Vai ser cada vez mais difícil o diálogo entre essa sociedade que quer a liberdade de escolha em todos os atos fundamentais da vida privada, a maternidade escolhida, o amor e a sexualidade também, o direito de viver e morrer com dignidade e os mentirosos que acenam com um Brasil que não existe.

O Brasil não é feito só de corrupção e atraso. É feito por gente que se reinventa a cada dia, afirmando a sua liberdade e lutando pela sua felicidade. Vivendo o presente com coragem vão construindo o futuro. Os outros agonizam, resistem a morrer mas seu prazo de validade está se esgotando.

Senhor Deus dos desgraçados

O que estará em questão na Europa é a vitalidade das duas forças que sustentam o Ocidente: o Cristianismo e os direitos humanos

A trágica semana em que o corpo de um menino sírio, como um dejeto, veio dar à praia na Turquia, em que multidões atravessaram a pé a Hungria, fugindo da guerra, e foram resgatados nos carros de austríacos e recebidos em Munique pelos alemães com água, comida, flores e abraços, essa semana em que o Êxodo recriou-se em chão europeu entrará para a história do continente como um momento maior de reafirmação dos valores da civilização ocidental.

O que estará em questão doravante é a vitalidade das duas grandes forças morais que sustentam o Ocidente, uma, religiosa, o Cristianismo, outra laica, os direitos humanos nascidos da Revolução Francesa.

Não foi um acaso se o Papa que se atribuiu o nome de Francisco, na viagem inaugural de seu Pontificado, desembarcou na Ilha de Lampedusa, no extremo sul da Itália, o porto seguro tão almejado por milhares de emigrantes vindos da África. Percebera o imenso questionamento ético que a tragédia da imigração coloca ao mundo cristão. É o mundo cristão, cujas virtudes são a fé, a esperança e a caridade, que vai recusar pão, chão e um teto aos que já não têm pátria e deixá-los morrer de sede ou afogados em mar escuro?

Francisco entendera que chegara a hora da verdade, que as levas de miseráveis negros vinham morrer nas praias brancas e que esse estado de coisas, por mais complexo e desafiador que fosse — e quão complexo todos sabemos que é — não permitia mais a indiferença como escapatória, nem os muros, arames farpados e policiais truculentos como solução. Fosse o Papa brasileiro, teria bradado como Castro Alves, no “Navio Negreiro”, “Senhor Deus dos desgraçados, dizei-me vós, senhor Deus, se é loucura ou se é verdade tanto horror perante os céus”.

Enquanto o primeiro-ministro da Hungria atiçava sua polícia contra a multidão de refugiados sírios, fugitivos não da miséria e sim da guerra e da escravidão, confinando-os em campos de concentração, invocando a defesa da civilização cristã que estaria, segundo ele, sendo invadida por muçulmanos, o Papa Francisco, na missa de domingo, exortou todas as paroquias e mosteiros da Europa a que acolhessem uma família de refugiados e anunciou que começaria pela sua, abrindo as fronteiras do Vaticano. Quem fala pelo mundo cristão é ele, o único líder global de que dispomos hoje, não um político obscuro e facistóide que não enxerga um palmo além das suas fronteiras.

Francisco demonstra entender que quem está naufragando é a cristandade e, por palavras e obras, se empenha em salvá-la, trazendo seus fundamentos para a vida real. Ele sabe que a civilização não sairia incólume da rejeição aos refugiados. Sabe o quanto custou à Igreja Católica o silêncio cúmplice do Vaticano frente ao extermínio dos judeus pelo nazismo.

Angela Merkel conhece bem os muros que separam os seres humanos. Ela vem da Alemanha do Leste, viveu a cicatriz que por tantos anos desfigurou a nação alemã.

Abriu a fronteira aos refugiados sírios que nada tinham a seu favor, além de coragem e determinação, nenhum direito senão o direito de asilo, inspirado nos direitos humanos, essa joia que a humanidade lapidou e que nos arrancou da condição animal quando passamos a chamar de crueldade a destruição do mais fraco que a seleção natural acata. Quando sentimos compaixão diante do sofrimento do outro, mesmo longínquo ou estrangeiro, e isso nos move e comove.

Merkel afirmou o fato moral que obriga à solidariedade. Conhece bem o peso dos crimes hediondos que a Alemanha cometeu no passado e tratou de não repeti-los. Disse ao seu povo, “a partir de hoje a Alemanha é um outro país”. E é. Uma pesquisa de opinião registrou que 96% dos alemães, muitos dentre eles filhos de fugitivos de outros exílios impostos pela Segunda Guerra Mundial, aprovam a acolhida aos refugiados.

Os alemães não ignoram as dificuldades práticas que essa acolhida representa. A beleza do gesto de solidariedade está em primeiro afirmar a necessidade do socorro e, então, por todos os meios buscar as soluções para prestá-lo. É essa a tradição humanista.

A Europa, fulcro da civilização ocidental, hoje sofre ataques terroristas em seu próprio território. Nenhum deles é mais perigoso do que a autodestruição de seus fundamentos morais, a negação de seus mitos fundadores. “Somos uma Europa de valores”, disse Merkel. É imprescindível que outros países sigam seu exemplo.

É certo que a Europa mudará com a chegada de milhões de refugiado, mas é mais certo ainda que a civilização ocidental que merece ser preservada é essa, a de Angela e Francisco.

A nudez crua da verdade

A sociedade brasileira sairá mais sólida desse purgatório em que desconstrói os seus mitos e enfrenta o cara a cara consigo mesma

Desalento e desesperança estão no ar. Ambos são tóxicos e maus conselheiros. Conduzem à paralisia ou ao cinismo do salve-se quem puder.

Sem minimizar o peso que a corrupção da política e os desastres da economia têm no cotidiano de cada um é bom lembrar que por maiores que sejam os desgostos que provocam o Brasil não se esgota na Praça do Três Poderes. A vida é feita de luzes e sombras e se só enxergarmos as sombras estaremos pecando por omissão. Há uma leitura possível dos fatos que é produtora de sentido e renovadora de esperança.

Saint Exupéry conhecia o poder constituinte da esperança. “Quem quiser construir um barco, não comece por juntar as madeiras, cortar as tábuas e distribuir o trabalho, e sim por despertar nos homens o desejo do mar aberto e infinito”.

É esse desejo de um novo horizonte, a dimensão da esperança, que já não conseguimos experimentar. Colados à temporalidade vertiginosa da notícia, a vista vai ficando míope. Sabemos tudo e imediatamente sobre a cotação das bolsas e os escândalos do dia. Telas divididas em quatro informam sobre quatro continentes, mil amigos na internet filmam o que acontece em cada esquina. A enxurrada de informações transborda da capacidade de processamento e nos deixa órfãos de sentido.

Essa subversão contínua do imediato por outro imediato, essa aceleração patológica não dá chance ao pensamento de amadurecer. Vão ficando à margem questões essenciais. Em que tipo de sociedade queremos viver? É possível escapar à violência de todos contra todos? Que novos atores estão influindo no destino do país? Questões que pedem maturação quando os velhos arcabouços ideológicos estão caindo de podres.

O cenário político é degradante, com dois ex-presidentes da República e os presidentes da Câmara e do Senado sob investigação da Justiça. Em compensação temos um Poder Judiciário que funciona. A coragem de juízes e procuradores que conduzem a operação Lava-Jato redime o país das bandalheiras que a operação vai revelando. O país que eles desvelaram não teria existido se o Judiciário tivesse sempre atuado como está atuando agora. Daqui para frente será bem mais difícil debochar da lei e transformar o Congresso em esconderijo.

Os brasileiros em sua esmagadora maioria ganham suas vidas com trabalho honesto e mal visualizam as cifras delirantes envolvidas na roubalheira de que ouvem falar. A indignação dessa população cresce a cada dia, alheia às querelas intramuros de partidos decadentes. É dela e, sobretudo, da juventude, que não se reconhece no Brasil que estertora, corrupto e carcomido, que virá a invenção de contextos originais de participação e a renovação de lideranças para governar o pais.

A execração pública de políticos que sempre foram de moralidade duvidosa, até aqui blindados em suas imunidades, o desmascaramento dos falsos heróis populares que, enfim, começa a romper a blindagem até mesmo dos que se julgavam invulneráveis, é uma purga necessária. Razão de otimismo.

Se dos porões do obscurantismo ressurgem atitudes e ideias que imaginávamos superadas e que se traduzem em tentativas de, via Congresso Nacional, balizar a sociedade brasileira com dogmas religiosos, esse açodamento tem a natureza aterrorizada de um exorcismo. O pavor de ver triunfar a ética libertária na maneira de viver e fazer escolhas morais.

Esse reacionarismo — e aqui essa palavra tão ultrapassada se justifica — é o reconhecimento por falsos moralistas de que a sociedade mudou. Improvisam-se, então, às pressas, projetos de lei estapafúrdios para tentar deter o curso do mundo contemporâneo. O destino desses projetos de lei que, na contramão da experiência vivida pela maioria da população, visam a cortejar o eleitorado mais conservador é virar letra morta. Mais uma razão de otimismo.

Se tanta violência eclode entre nós, sobretudo na internet onde as facadas virtuais são impunes, é porque este continente selvagem tem muito do mundo inconsciente. Sem lei, sem tabu, sem superego, o comportamento dessa população incorpórea assusta. Não somos as doces criaturas que pensávamos ser. A evidência de nossa violência envergonha e está sendo reconhecida e condenada. Instrumentos de vigilância e de regulação já tentam civilizar o continente selvagem.

A sociedade brasileira sairá mais sólida desse purgatório em que desconstrói os seus mitos e enfrenta o cara a cara consigo mesma.

Não há razão para desalento. O Brasil está vivendo um dos momentos mais fascinantes de sua história. O fim da impostura, a hora da nudez crua da verdade.

O pecado da intolerância

Entre os defensores das liberdades e os pregadores do pecado omnipresente a relação não é de simetria e sim de desigualdade

A resposta raivosa da bancada evangélica no Congresso Nacional à Parada Gay é mais um capítulo da ofensiva fundamentalista que se abate sobre o nosso país.

Vivemos tempos difíceis. Como se já não bastassem os escândalos de corrupção e os desastres causados pela incompetência e o aparelhamento do Estado, multiplicam-se as tentativas de dar soluções simplistas e oportunistas a complexos problemas humanos.

Casamento gay, interrupção voluntária da gravidez, direito à morte com dignidade são situações existenciais em que o exercício da liberdade com responsabilidade deve primar sobre os interditos religiosos.

As sociedades abertas dão aos seus cidadãos o direito de tomar decisões sobre questões que afetam sua liberdade, identidade e destino. Foi assim que, para surpresa de muitos, a população da catoliquíssima Irlanda acaba de votar por larga maioria a favor do casamento gay. Foi também assim que os parlamentos das protestantíssimas Holanda e Suíça adotaram legislações que asseguram o direito à morte com dignidade. Anos atrás seria impensável imaginar que a maioria da população dos Estados Unidos, país profundamente religioso, aceitasse o casamento gay como acontece hoje.

Os costumes mudam e, com eles, as leis. O que era destino preestabelecido vira escolha. O que não impede que muitos, por convicção e graças à livre escolha, pautem suas vidas por princípios religiosos e outros por princípios laicos. A ética não é monopólio dos religiosos.

Ao contrário do que imaginam os preconceituosos defensores da conformação de todos a uma regra geral e inflexível, o exercício da liberdade em questões da esfera íntima não é intempestivo nem irresponsável. Implica valores, noções de certo e errado. É sempre uma decisão sofrida, lentamente amadurecida, que cada um toma plenamente consciente das consequências que terá que assumir. Esta elaboração, por penosa que seja, por cada um de seu código ético é o contrário mesmo da leviandade. São decisões quase sempre tomadas em consulta com as pessoas mais próximas, de nossa maior confiança, com quem tecemos os laços afetivos mais sólidos.

O eminente filósofo protestante Paul Ricoeur definiu como “círculos de confiança” estes contextos de deliberação íntima dos quais emerge uma “consciência individual ampliada”. Já não se age porque tem que ser assim mas porque, em diálogo com aqueles em quem confiamos ou que já passaram por situações similares, decide-se que assim seja.

Já vão longe os tempos em que uma verdade revelada ou o peso da tradição nos diziam como bem viver e morrer. A ética, nas sociedades abertas, não é uma herança nem uma imposição, é uma construção. É no indivíduo que se situa a decisão sobre os seus valores. Já que escolher valores e viver no seu compasso ainda é o que dá sentido às nossas vidas.

Os que defendem a manutenção das proibições argumentam que têm o direito de expressar sua opinião. O problema é que não se trata simplesmente de um entrechoque de opiniões. Os que reivindicam o exercício da liberdade não impõem suas opções a ninguém. Já os que advogam a manutenção das proibições criam todo tipo de obstáculos ao exercício da liberdade do outro. Expõem as mulheres que abortam na clandestinidade a riscos incomensuráveis à sua vida e sua saúde física e psíquica. Negam o direito dos doentes terminais em situação de intolerável sofrimento de morrer com dignidade. Negam aos gays o precioso direito ao amor e à família.

Entre os defensores das liberdades e os pregadores do pecado onipresente a relação não é de simetria e sim de profunda desigualdade. Proibindo e criminalizando comportamentos e valores que fogem do seu figurino estreito, o fundamentalismo impõe a todos a sua visão do certo e do errado. O fundamentalismo é a negação da liberdade e do exercício da responsabilidade.

O divisor de águas não é, portanto, entre quem tem fé e quem não tem. É entre intolerantes e libertários. É entre a imposição e a escolha, o único e o múltiplo, o fechamento e a abertura, o arco-íris da diversidade e o obscurantismo monocromo.

Entrincheirados no Congresso Nacional, que autoridade têm esses falsos moralistas para se arrogarem em árbitros do comportamento de todos os cidadãos?

Apesar de todos os percalços, a sociedade brasileira vem avançando rumo a mais liberdade e responsabilidade. Se o Congresso uma vez mais nos decepcionar, só colherá o aumento da já imensa rejeição que sofre por parte da opinião pública. Será condenado à irrelevância por mais um pecado: o pecado da intolerância.

O tempo dos selfies

País vive eterno presente, em que os fatos e as fotos se sucedem sem contexto e sem enredo. Tudo se esgota no escândalo do dia

O autorretrato foi para os mestres da pintura que viveram antes do advento da fotografia a maneira de revelar não só o mundo que viam e como o viam em cores e formas, mas o lugar íntimo de onde viam, a densidade de seu olhar. Obras-primas nasceram do pincel de um Rembrandt ou de um Van Gogh, que legaram ao futuro seus rostos em várias idades, impregnados de suas angústias.

O autorretrato foi sempre um momento maior na carreira de um artista. Buscavam a imortalidade na grande arte e a grande arte no autorretrato. Tinham a dimensão da História.

Hoje, o autorretrato é o exercício preferido de qualquer anônimo que estenda o braço com o celular na mão e lá vem mais um selfie. Um exercício lúdico e narcísico, cujo destino é ser deletado ou, com sorte, fazer um imprevisível caminho na Rede. Uma ou algumas caras, talvez caretas, sem contexto, sem profundidade, imagens deixadas ao efeito de luzes e sombras eventuais.

O selfie não quer fixar nada, senão uma informação fugaz sobre o momento vivido e compartilhá-la com o maior número de pessoas. Não sei se é um brinquedo inofensivo ou metáfora do tempo presente, em que a instantaneidade, a quantidade e o descompromisso com a qualidade são a regra.

Vivemos um tempo sem memória, que tudo registra para logo tudo esquecer. Um eterno presente que capta a instantaneidade do fato e se alimenta da velocidade da informação. Sem passado, que não se cristaliza, diluído em uma renovação permanente de notícias, nem futuro que, sem tempo para amadurecer, é uma ausência.O momento seguinte não tem tempo nem razão para amadurecer.

Marc Zuckerberg, perguntado sobre o objetivo do Facebook, respondeu: “Conectar-se”. Para quê? “Para conectar-se”.

O cotidiano vivido cada vez por mais pessoas e por mais tempo entre as telas do celular e do computador vai moldando uma percepção do mundo que é tão alheia ao mundo pré-virtual quanto um autorretrato de artista a um selfie. O snapchat, que envia uma foto que dura segundos e se auto deleta, é a última flor dessa língua cada vez menos compreensível para a geração do portarretrato.

A intensa vida virtual atualiza palavras como presencial, um adjetivo que hoje qualifica a natureza excepcional de um encontro entre gente de carne e osso. Manifestações de rua são presenciais. As outras são simplesmente o dia a dia de quem vive no mundo virtual, onde a opinião é produto do dilúvio de informações, muitas de origem aleatória ou autoria incerta. A quantidade dessas informações, em que a qualidade não é um critério, quando mal digerida é tóxica. Essa é a face oculta de uma admirável democratização do direito de expressão.

Para o bem ou para o mal, a sociedade está mudando mais pela tecnologia do que pela política, desfigurada em partidos carcomidos pela corrupção. Transformados em ajuntamentos de interesses pessoais, sem valores, sem compromisso com o interesse público e sem visão de futuro, recolhem a aversão como sentimento comum à população. A política desliza, então, para outras formas de expressão e, entre elas, está certamente o fervilhar de debates na comunicação virtual, com os prós e contras desse mundo e de sua incorpórea população.

O Brasil vive um momento de selfies. Um eterno presente em que os fatos e as fotos se sucedem sem contexto e sem enredo. Tudo se esgota no escândalo do dia, no toma lá dá cá, nos implantes de cabelo, na roubalheira da véspera, na amante do doleiro cantarolando Roberto Carlos na CPI, no ex-presidente que se expõe malhando, suando e dizendo banalidades sobre vida saudável.

Autoridades viram piadas corrosivas na rede, onde a derrisão é a regra. O falso revolucionário que antes cerrava o punho, hoje atravessa a tela com os pulsos algemados. Amanhã é o CEO engravatado da grande empresa que explica, com ar compenetrado, como dar propina. Delata-se. Deleta-se.

O Brasil entrou na era do desnudamento. Nas redes, tudo se sabe, se compartilha, se comenta. Pouco se interpreta. Menos ainda se entende. E amanhecemos em um presente sem futuro.

A cultura virtual está se tornando a Cultura. Há uma armadilha, que precisa ser desarmada, em sua relação com o tempo. Ela impõe uma vida acelerada que não pensa o amanhã.

Falar em dimensão histórica soará estranho a ouvidos jovens. Este texto é longo para quem se exprime em twitter e WhatsApp. Mas é preciso que eles saiam do eterno presente, conheçam o passado e assumam o compromisso com o futuro. Façam projetos ditados por valores. O país precisa deles para superar a esclerose. O futuro será o que eles fizerem.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

rosiska.darcy@uol.com.br

A implacável lógica da mentira

Maioria dos que contestam o PT não é ‘direitista’. São brasileiros que querem que instituições funcionem, em particular a Justiça

 

A mentira tem uma lógica implacável. Só é possível mantê-la graças a mais mentiras. Essas mentiras a mais vão exigir, para que não sejam descobertas, uma cadeia de novas mentiras. A mentira é um poço sem fundo. Com o tempo, ela invade tudo e passa a alimentar-se a si mesma.

Para o mentiroso, o hábito da mentira acaba por transformá-la na sua verdade. Ele se sente injustiçado quando o acusam de mentir. O impostor que se apresenta como herói sofre quando lhe dizem que ele não é senão um impostor.

Foi essa logica diabólica que enredou o Partido dos Trabalhadores desde que suas lideranças começaram a mentir.

Seus militantes negam as acusações de corrupção sabendo que elas são verdadeiras. Confrontados a provas irrefutáveis, alegam estar a serviço de uma causa nobre — são os únicos que estão verdadeiramente do lado dos pobres — o que, na linha dos fins que justificam os meios, os absolveria. Argumento tragicômico. A causa dos pobres é a primeira vítima dos desvios de dinheiro público.

Protegem-se das críticas repetindo a arenga da “esquerda” contra a “direita”. E a “direita” amalgamaria todos que não compram a versão dos heróis ofendidos.

Que esquerda é essa que o PT estaria encarnando? O que o partido fundado por grandes brasileiros, como Mario Pedrosa e Paulo Freire, fez de si mesmo, seu colapso ético que desrespeitou um passado honroso e o comprometeu com uma corrupção sistêmica, não lhe autoriza a invocar o monopólio da preocupação com os mais pobres e do projeto de assegurar a todos os meios de sua dignidade.

Somos muitos no Brasil os herdeiros de um princípio de solidariedade e de igualdade, que um dia definiu a esquerda. Somos muitos, ancorados em uma consciência democrática, a honrar essa herança sem renunciar à inegociável liberdade.

À esquerda de quem estão os tesoureiros presidiários? O dossiê judiciário que se acumula contra seus dirigentes coloca o partido não à esquerda, porem à margem. Na marginalidade.

Que direita é essa com que nos assombram? A estratégia petista para manter seu poder tem sido promover a radicalização ideológica. Ameaçando as ruas com supostos exércitos do MST, pela provocação acordam fantasmas adormecidos, dando-lhes um protagonismo que já não têm. Esses fantasmas de uma volta ao passado servem então de espantalho e fica mais fácil dizer “quem não está conosco está com eles”. O amálgama desqualifica, por contágio, todos que se opõem aos seus desígnios.

A esmagadora maioria dos que hoje contestam o PT não é “direitista”. São brasileiros que querem que as instituições funcionem bem, em particular a Justiça. São pessoas que ganham a vida com o seu trabalho e a quem, por isso mesmo, a corrupção repugna. Que se preocupam, sim, com políticas que combatem a pobreza e pedem serviços públicos decentes que seus impostos pagam, bem sabendo que a corrupção é o buraco negro que suga os recursos do país.

Não se referem a doutrinas, nem à esquerda nem à direita, referem-se à vida real, querem um governo competente, querem liberdade de expressão para formar livremente sua opinião, querem respeito.

Cansaram da coleção de bonés contraditórios do ex-presidente Lula, da metamorfose ambulante, da farsa dos punhos fechados desses “prisioneiros políticos” de si mesmos, de seu próprio governo. Cansaram das promessas de campanha viradas pelo avesso, dos atos esquizofrênicos em defesa da Petrobras convocados pelos que quase a destruíram. Cansaram da mentira.

Os que se comportaram como donos do Estado quiseram também arvorar-se em donos da sociedade, tentando encapsulá-la nas fronteiras estreitas de movimentos sociais e organizações populares hoje a seu serviço mais do que da expressão autônoma de direitos e identidades. Inútil; a sociedade em sua diversidade é muito mais complexa e insubmissa do que organizações que se tornaram paragovernamentais.

A população brasileira não está dividida pela oposição esquerda e direita. Na nossa democracia cabem todos os atores políticos que se exprimam no marco da legalidade constitucional. O que não cabe mais é a corrupção se intitulando política. E, pior, mais cinicamente, revolucionária. O que não cabe mais é a impostura.

O dicionário “Aurélio” oferece várias definições da impostura, todas em torno da mentira, do embuste, da falsa superioridade. A última a define como o “farrapo que se prende ao anzol para engodar os peixes”. Engodar é seduzir com falsas promessas. O ex-presidente Lula está programando uma viagem pelo Brasil para falar às “bases”. E se os peixes não vierem?

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

rosiska.darcy@uol.com.br