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Cara a cara

PT se quis exemplar e jogou na roleta da corrupção seu capital ético, do qual nada sobrou. Vive dos dividendos de suas políticas sociais

 

Foi cara a cara, longe do país das maravilhas com que o PT bombardeou o Brasil na propaganda eleitoral, que Aécio Neves enfrentou Dilma Rousseff. É possível que esses poucos minutos do último debate na Globo tenham mudado a história do Brasil. A inesperada votação de Aécio não é alheia à maneira como ele quebrou o gesso dos marqueteiros e, descontraído, desestabilizou Dilma, que sobraçava um calhamaço de colas e procurava respostas nos manuais de João Santana.

Foi também no cara a cara que Luciana Genro pôde explicar a Levy Fidelix que a homofobia deveria ser crime pois, se já fosse, ele sairia dali algemado. O contraste entre a intensidade do debate e a propaganda pré-fabricada mostrou o quanto, sendo enganosa, ela distorce a democracia. Moral da história, quanto menos marqueteiro mais verdade, quanto mais verdade mais democracia. O debate cara a cara decidirá a eleição.

Marina não estará lá. Apesar de derrotada, é uma presença incontornável. Se não conseguiu, literalmente do dia para a noite, improvisar uma candidatura à Presidência, se teve que gastar seus parcos minutos na televisão apenas para se defender de ataques, nem por isso deixou de ter plantado suas sementes. Dilma não contará com o seu apoio. Está colhendo os frutos do veneno que sua campanha destilou.

Se Marina apoiar Aécio, levará consigo um pacote de compromissos que, metabolizados, trarão frescor e audácia à sua plataforma, a exemplo da escola de tempo integral e da diversificação das fontes energéticas. O voto de 22 milhões de brasileiros já inscreveu o ideário da sustentabilidade na agenda do país.

Aécio e Dilma estão, agora, cara a cara. A candidata do PT não poderá continuar a se referir a vagos malfeitos quando questionada sobre crimes como o assalto à Petrobras. Os depoimentos de Paulo Roberto Costa e do doleiro Youssef puxam o fio de uma meada que enreda e vai estrangular o projeto do PT de se eternizar no poder. A corrupção desvelou a face perversa de um partido que, infiltrado no Estado até a medula, confundiu-se com ele e instaurou a comunhão de bens. A candidatura petista continuará a ser assombrada pelo que sussurram os delatores, diretores de empresas e doleiros, nos gabinetes do Ministério Público.

Um partido que se quis exemplar jogou na roleta da corrupção seu capital ético, do qual nada sobrou. Vive dos dividendos de suas políticas sociais de transferência de renda, um capital político investido, muito justamente, nos mais pobres, que ainda são tantos e precisam do governo para progredir.

Há um contraste no país entre os polos mais avançados e escolarizados e aqueles mais dependentes de políticas assistenciais. Esses, concentrados nas regiões Norte e Nordeste, ou espalhados pelo país em bolsões de pobreza, graças às políticas que lhes trouxeram alento, deram um respeitável lastro de votos a Dilma. Os outros, com maior autonomia, exigem mais serviços e de melhor qualidade. São os 60% que votaram pela mudança. O mapa eleitoral conta a história desses Brasis diversos que, ambos, movem-se, felizmente, numa trajetória constante de melhoria que vem de duas décadas e que só tende a se acelerar.

É cara a cara que o PT deverá ouvir que mente quando só fala dos seus sucessos, não aceita críticas e desqualifica os adversários. A mentira está inscrita no autoritarismo dos que falam em nome do povo, arvoram-se em seus defensores enquanto se autoabsolvem de crimes comuns como o desvio de dinheiro público. A mentira foi, desde que o PT assumiu o poder, um instrumento de governo.

O PT mente quando quer controlar a mídia porque a teme — e a teme porque ela diz que ele mente — mas diz que o faz porque ela é “parcial” ou “vendida”. Parcial é o jornalista que discorda do seu modo de governar ou investiga suas transações.

Quer controlar a sociedade, porque a teme — e a teme porque ela aprendeu, por si mesma, a cobrar direitos — mas diz que quer “incentivá-la” a participar em conselhos que seu governo nomearia. Sabe o que é bom para a sociedade e quem deve representá-la. Não admite que a sociedade é múltipla, dinâmica e, exatamente porque mais informada, rebelde aos controles e censuras. Já é participativa, não precisa de “incentivos”, como mostraram as manifestações de rua e como mostra, nas esquinas virtuais, o efervescente interesse pelas eleições.

Escolher entre Dilma e Aécio não é uma escolha entre pessoas. É uma escolha da sociedade em que queremos viver. Ao autoritarismo retrógrado do PT, prefiro os desafios e o ar fresco de uma sociedade aberta.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

 

Questões morais

Em visita a um templo evangélico, Aécio Neves, depois de fervorosas orações, declarou que era “contra o aborto e contra as drogas”. Como se alguém, afora os que lucram com o aborto ilegal ou os traficantes, fosse a favor do aborto ou das drogas. Temos consumido anos de argumentação em debates a respeito da descriminalização da interrupção da gravidez indesejada ou do fracasso da guerra às drogas.

Trata-se de problemas de saúde pública e de dramas humanos pungentes. Declarações simplistas, talhadas para o auditório, não diminuem o número de abortos nem abrem caminho para políticas mais humanas e eficientes de combate às drogas.

O tema da homofobia também saiu do armário nessas eleições. A homofobia é manifestação de violência corriqueira que, quando não mata ou fere, envenena com humilhação a vida dos gays. É odiosa e criminosa, assim como o racismo.

O projeto de criminalização da homofobia está travado no Senado há oito anos. Quem for presidir o país vai poder ignorar os milhões de manifestantes que desfilam nas grandes e médias cidades em paradas do orgulho gay? Uma parcela da população não aceita mais que eles sejam assassinados e ofendidos. Não se trata de uma questão menor.

Margaret Thatcher não acreditava que existisse essa coisa chamada sociedade. Esquecia que Gandhi, fragílimo e desarmado, expulsou os ingleses da Índia apoiado nessa coisa que ela achava que não existia. Gandhi dizia que “uma árvore que cai, faz muito barulho, uma floresta que germina não se escuta”. Frase oportuna para pensar o Brasil.

Só ouvíamos o barulho espetacular da queda em desgraça dos velhos partidos políticos enquanto uma nova sociedade germinava. Esse barulho de árvores mortas que tombam torna inaudível a germinação silenciosa de uma liberdade de pensamento que foi penetrando na sociedade, aquela que supostamente não existe, mas viceja em sua imensa diversidade e luta pelas causas que lhe são caras.

Germinou uma democracia do cotidiano, vivida em profundidade por cada um, onde o que comanda é a liberdade de escolha, o direito de decidir sobre a sua própria vida. Os gays sabem que o amor é um pássaro louco que ninguém sabe onde pousará. As mulheres aprenderam nos embates duríssimos da vida real que seus corpos lhes pertencem. Agem e defendem-se em consequência.

As opiniões sobre questões morais se formam, cada vez mais, em círculos de confiança, exprimindo uma subjetividade trabalhada e sofrida, insubmissa às palavras de ordem de partidos ou dogmas religiosos.

Esse exercício de liberdade em que a sociedade se autotransforma extravasa da lógica partidária que tudo submete à luta pelo poder a qualquer preço ou das igrejas que submetem a espessura da vida real ao fogo dos infernos. É nos fios cruzados dos círculos de confiança, da capilaridade das redes sociais e da mídia onipresente que circulam argumentos e deliberações.

As meias palavras não aproveitarão aos candidatos. As liberdades morais entraram na agenda política e são incontornáveis. Talvez se esteja subestimando a sociedade, julgando-a mais conservadora do que ela de fato é. E não se tenha percebido que a expectativa do eleitor, essa sim esmagadoramente majoritária, é a credibilidade do candidato. Que cada um esteja realmente por trás do que diz. Honestidade também é uma questão moral.

O Brasil é um Estado laico, garantia sólida contra o fundamentalismo religioso. Maior garantia ainda é a capacidade do cidadão de formar sua opinião e assumir a autoria de sua vida. Nisso reside uma nova postura que não se aplica apenas aos costumes, mas também às escolhas políticas.

Foi essa nova postura que Marina Silva, na sabatina do GLOBO, destacou: “O mundo está mudando, existe um novo sujeito político que quer papel de autor.” Filha da floresta, talvez tenha ouvido essa germinação, o que explicaria a esperança que suscita.

A questão moral que deveria ocupar o proscênio nessa eleição, porque há anos revolta a sociedade, não é o comportamento privado, dos gays, das mulheres, dos que usam drogas. É a deslavada corrupção que se instalou no Brasil como instrumento de governo. Essa sim, obscena e imoral, porque predadora do dinheiro público, tem que ser criminalizada nos atos e não apenas em declarações de princípio.

É esse mundo sombrio que o debate sobre moral deve iluminar. Possam os gays amar em paz. Socorram-se, nas melhores condições, as mulheres em desespero. Que sejam acolhidos os que se perderam nas drogas. Guarde-se a prisão para os verdadeiros bandidos.

 

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

Não desistam do Brasil

Quando um acidente fatal acontece instala-se um sentimento de absurdo. Aconteceu como poderia não ter acontecido. E, entre essas duas possibilidades, seja para uma família ou para um país, cava-se um abismo. A vida que poderia ter sido e a que, doravante, será. E, contra todas as expectativas, um aprendizado: o acaso tem sempre a ultima palavra.

A desgraça que se abateu sobre Renata Campos e seus cinco filhos é difícil de aceitar. O Brasil perde com a morte de Eduardo um dos raros homens públicos que despertavam entusiasmo em tempos em que políticos têm merecido da população indiferença, quando não asco. Sua última entrevista ao “Jornal Nacional” na véspera da tragédia mostrou, sob duro questionamento, alguém capaz de olhar nos olhos de seus eleitores. “Não vamos desistir do Brasil” foi sua última mensagem, que calou fundo mesmo em almas gastas pelos dissabores.

Eduardo teria sido eleito? Como teria governado? Silêncio. O que não quer dizer que a esperança que tinha e que despertava morra com ele. Renata, uma mulher forte, há de saber, com o poeta Drummond, que “as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”. Os filhos de Eduardo vão crescer — o mais velho, João, já se manifestou nas redes pró-candidatura de Marina Silva com um límpido argumento: não teria sentido apoiar Dilma, que era sua adversária, em detrimento de Marina, que seria sua vice. O que se lhes pode desejar é que não percam o gosto da política que trazem no sangue e o olhar atento sobre as injustiças.

Eduardo Campos foi um ar fresco na atmosfera viciada dos partidos. Sua morte soma a perplexidade de seus eleitores ao já agudo desencanto que fere os jovens — é neles que penso — de quem precisamos tanto, já que são os autores do futuro. A credibilidade junto à juventude é um bom sinal.

O país tem uma dívida de gratidão com quem lutou contra a ditadura e trouxe o Brasil de volta à democracia, mas é preciso reconhecer que o ciclo que começou com o golpe de 64 está terminando. Cai o pano sobre seus atores. Partidos nascidos deste ciclo se afrontam nas urnas enquanto passa ao largo uma juventude para quem suas propostas estão esgotadas e que dá as costas a um quadro institucional falido.

Trinta anos atrás milhões de brasileiros foram às ruas exigindo eleições diretas. Hoje, às vésperas de uma eleição democrática, a juventude promete votos brancos e nulos. Sequer se inscreve para votar. A recusa da juventude tem raízes profundas e é uma história em curso.

PSDB e PT completaram a transição da ditadura para a democracia — obra do povo brasileiro — consolidando as liberdades públicas, estabilizando a moeda e combatendo a pobreza. A sociedade metabolizou essas conquistas. O que antes era percebido como favor do Estado, hoje é afirmado como direito. Os jovens acusam quem governa e quem legisla de estelionato contra a população. Vivem o Estado como sucata e a eleição como pantomima.

Na recusa visceral aos políticos e à politica partidária há uma mensagem a ser decifrada. Essa juventude não diz, como diziam seus pais, que “um outro mundo é possível”. Acredita que “outra vida é possível”. Vivencia a política no cotidiano, ancorada em escolhas existenciais. Seu espaço e tempo são aqui e agora. A experiência vivida é o seu horizonte.

Ouvir os jovens rejuvenesce: recusa radical da corrupção e da impunidade, exigência de serviços públicos eficientes, uma nova esfera pública onde tudo se sabe, tudo é debate, a juventude demonstrando nas redes sociais uma insuspeita capacidade de argumentação e uma expectativa de justiça que corrija as desigualdades.

Não estão incluídos entre os que rejuvenescem a democracia os jovens violentos que vivem no passado e citam Bakunin. Esses situam-se entre o ridículo e o patético.

Melhorar a qualidade da política e da democracia era o objetivo anunciado de Eduardo Campos que, muito jovem, entrou no PSB. Caberia a pergunta: o jovem descrente da politica por que não entra em um partido para tentar mudá-la? Porque partidos esclerosados não são as estruturas que melhor acolhem sua maneira de agir por uma causa. Movem-se em agrupamentos virtuais ou de corpo presente com um fim determinado, flexíveis e ágeis como são seus relacionamentos nas redes.

A morte de Eduardo torna imprevisível o resultado da eleição. Espera-se que Marina o substitua como candidata. Os jovens, nas redes sociais, já começaram sua campanha. Menos votos nulos e brancos? Quaisquer que sejam os caminhos que tomem, os votos que deem ou que neguem, há que insistir: não desistam do Brasil.

 

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

Pena de nós, não precisava

Brasileiros reagiram à eliminação da nossa equipe com maturidade que não esperávamos de nós mesmos

No sétimo dia de um luto discreto, cai o pano da Copa, abre-se o das eleições de outubro. O legado imaterial da bela festa que vivemos é ter posto em evidência que a sociedade brasileira mudou muito e para melhor, o que, não sendo um fenômeno claramente perceptível no dia a dia, já esboça o futuro do país.

Foi, sim, uma prova de fogo. Os brasileiros reagiram à eliminação da nossa equipe com maturidade que não esperávamos de nós mesmos, habituados que estamos a nos menosprezar. Onde choramos, qualquer um chorava. Dar a volta por cima que demos, no melhor estilo do mestre Vanzolini, quero ver quem dava. Equivocaram-se os que esperavam uma reação histérica frente à derrota, quebra-quebras e ranger de dentes. Em vez disso, houve lucidez face às nossas deficiências, aplausos, em campo, para o adversário que nos devastava e justificado orgulho de tudo mais que, na Copa, foi grande sucesso.

Houve tristeza; depressão, não. Nas esquinas virtuais, o debate sobre as causas do fracasso esquentou. A vitalidade das redes, que a sociedade brasileira vem usando a fundo, mostrou uma opinião pública que discute e argumenta, o que é bom para a democracia. Acrescente-se a explosão de humor cáustico que desdramatizou o que se esperava fosse um velório. Pena de nós, não precisava…

Os aplausos vão para o povo brasileiro — saravá, saudoso Ubaldo — que, em todos os níveis, tem muito mais competências do que admitem os que alimentam a baixa estima e os catastrofismos. O cartão vermelho vai para o padrão Fifa de corrupção. Entre as poucas prisões, a mais notória foi a de um seu parceiro privilegiado que, como um camelô fugindo do rapa, escapou pela porta dos empregados do Copacabana Palace quando a Polícia Federal sentiu cheiro de enxofre no negócio milionário da venda de ingressos. Cartão vermelho também para o superfaturamento dos estádios e para o desabamento de um viaduto mal construído que feriu e matou, crimes que terão que ser apurados.

A sociedade brasileira surpreende. Já tinha surpreendido com as manifestações pacíficas de junho do ano passado ao colocar claramente suas reivindicações e ao se retirar das ruas, dando prova de bom senso, para não confundir-se com um punhado de mascarados saídos não se sabe de onde nem mandados por quem.

Os candidatos à Presidência da República vão se defrontar com essa sociedade que mal suspeitam. Melhor do que imaginam, ela sabe o que quer e o que está em jogo. Se suspeitassem não venderiam a alma em alianças tragicômicas em troca de um minuto a mais na televisão. Faço uma aposta ousada que vai contra o senso comum: marqueteiros não terão sucesso junto a uma população descrente das balelas que lhe contam nesse tempo de televisão tão cobiçado. Essa venda de almas e votos, ao contrário, tira votos pela indignação que a geleia geral provoca.

Há, no eleitorado, uma forte exigência de verdade que ainda não encontrou eco. Daí o voto órfão. Na última pesquisa Datafolha, somados os votos brancos, nulos e indecisos, um em cada quatro brasileiros não escolhe ninguém. É possível que essa mistura de desilusão e perplexidade venha a decidir o resultado das eleições.

A aposta na propaganda para conquistar esses votos pode sair pela culatra. Como assistir, no horário eleitoral, a bravatas que a vida real em tempo real desmente? Como não se irritar com essa espécie de making ofque vem a público, onde se discute as estratégias de convencimento que serão adotadas em campanhas milionárias?

Esta seria a campanha das campanhas se desta vez, no jogo eleitoral, a mágica ilusionista do marketing perdesse para a vida real, para a lucidez da população sobre o que precisa para bem viver.

O eleitorado deixou de ser massa informe. Quanto mais se individualiza, mais se torna imprevisível, ganha em diversidade e complexidade. As malhas da “ciência” marqueteira terão problemas para pescar esse eleitorado nuançado, que vive às voltas com os infindáveis problemas de um cotidiano áspero e há muito perdeu a paciência com promessas. O teste do candidato será a credibilidade que se perde ou se ganha em não mais que um minuto no cara a cara com o eleitor. O voto que hoje é órfão e em outubro será decisivo só encontrará abrigo na sinceridade.

Derradeiro legado da Copa: aprendemos, com o descalabro de Felipão, a desconfiar das lideranças iluminadas e a confiar nas equipes bem treinadas e competentes, onde não há herói nem condottiere, apenas cada um fazendo bem o que tem que fazer na posição em que joga no time. Não é isso o bom governo?

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

rosiska.darcy@uol.com.br

Festa

Uma explicação simples para a proliferação nas favelas e nos subúrbios de campinhos de terra batida: o futebol, no Brasil, é esse fenômeno que leva à gloria e à fortuna um menino pobre, quase sempre negro ou mulato, o que já o situa em um país que aboliu a escravidão mas não a sua herança.

Pelé ou Neymar, esse menino serve de espelho às esperanças de um povo inteiro a quem o futebol oferece uma oportunidade — rara, quase única — de se sentir o melhor do mundo. A centralidade do futebol na vida dos brasileiros é razão de sobra para vivermos este mês em estado de euforia como se na Copa do Mundo estivesse em jogo a nossa identidade.

E, também, para detestarmos o que a Fifa produziu como espetáculo de abertura, um pastiche cafona da cultura brasileira, atestando abissal ignorância ou menosprezo por parte de quem o contratou. Um insulto ao país dos espetáculos grandiosos que põem em cena, a cada mês de fevereiro, milhares de figurantes em coreografias e cenários de tirar o fôlego, outro legítimo orgulho nacional. O Brasil está devendo ao mundo e a si mesmo uma apresentação autoral de quem somos. Um alerta e um desafio para a cerimônia de abertura das Olimpíadas de 2016.

A Copa do Mundo revela ambiguidades de nosso tempo. Um bilhão e meio de pessoas assistem às mesmas imagens confirmando o avanço da globalização. Mas o conteúdo das imagens a que todos assistem afirma os pertencimentos nacionais, expressos com símbolos ancestrais, bandeiras, emblemas, hinos entoados com lágrimas nos olhos. O nosso é cantado a capela pelos jogadores e uma multidão em verde e amarelo desafiando o regulamento da Fifa, entidade sem pertencimento que salpica no espetáculo, em poucas notas mal tocadas, o que para cada povo é a evocação emocionada de sua história. No mundo de hoje comunicação e mobilidade se fazem em escala global mas os sentimentos continuam tingidos pelas cores da infância.

O respeito às regras, saber ganhar e saber perder, são conquistas de um pacto civilizatório cuja validade se testa a cada jogo. A violência em campo que, aos habitués dos estádios parece normal, aos olhos de uma leiga torcedora de Copa do Mundo é aflitiva. Em equilíbrio instável, as equipes oscilam entre o compromisso com o fair-play e os tambores da guerra refletindo a banalidade com que, mundo afora, se convive com a brutalidade.

O futebol é useiro e vezeiro em contrariar cenários previsíveis. O acaso pode ser um desmancha prazer. A multidão que se identifica com os craques e que conta com eles para realizar o gesto de grandeza que em vidas sem aventura nunca acontece, essa massa habitada pela nostalgia da glória deifica os jogadores e esquece — e por isso não perdoa — que deuses às vezes tropeçam nos próprios pés, na angústia e no medo.

É essa irrupção do acaso que faz do futebol mais do que um esporte, um jogo, cuja emoção nasce de sua indisfarçada semelhança com a própria vida, onde sucesso ou fracasso depende tanto do imponderável. Não falo de destino porque a palavra tem a nobreza das tragédias gregas, do que estava escrito e fatalmente se cumprirá. O acaso é banal, é próximo do absurdo. É, como poderia não ter sido. Se o acaso é infeliz chamamos de fatalidade. Feliz, de sorte. O acaso decide um jogo. Nem sempre a vida é justa, é o que o futebol ensina.

A melhor técnica, o treino mais cuidadoso, está sujeito aos deslizes humanos. Quando toca o apito, entra em campo, com as seleções, a possibilidade de um pênalti que só existiu aos olhos do juiz, de uma expulsão que desarruma todo o time ou, reverso da medalha, de um prodigioso voo de pássaro de um atacante holandês.

Seremos campeões? Não sabemos. Tomara. O melhor do futebol é a alegria de torcer. Essa Copa do Mundo vem sendo uma festa vivida nos estádios, nas ruas e em cada casa onde se reúnem os amigos para misturar ansiedades. A cada gol da seleção há um grito que vem das entranhas da cidade. A cidade grita. Nunca tinha ouvido o Rio gritar de alegria. Um bairro ou outro, talvez, em decisões de campeonato. Nunca a cidade inteira, um país inteiro. Em tempos de justificado desencanto e legítimo mau humor, precisamos muito dessa alegria que se estende noite adentro nas celebrações e na confraternização das torcidas.

Passada a Copa, na retomada do cotidiano, é provável que encontremos intactos, o desencanto e o mau humor, já que não há, à vista, sinais de mudança no que os causou. Uma razão a mais para valorizar esse tempo de alegria na vida de uma população que, no jogo da vida, sofre tantas faltas.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

O crime das meninas

É imperdoável: elas iam à escola, abriam-se ao mundo, escapavam à truculência de bandidos sanguinários

O clamor que o rapto das meninas nigerianas despertou no Ocidente — uma cúpula de chefes de Estado se reuniu em Paris — é o único consolo frente a um ato vil que, por seus requintes de crueldade, nos devolve, como espécie, ao mundo das feras. As autoridades e os grupos de mulheres que protestam exigindo uma ação imediata de resgate estão dizendo uma coisa simples: o que aconteceu naquela escola nos faz a todos menos humanos. O silêncio e a indiferença são cúmplices. Queremos as meninas de volta.

O governo de um certo Goodluck — má sorte para as meninas — não agiu a tempo de impedir o sequestro apesar de ter sido avisado do risco e, quando pressionado pelos países do Ocidente, não foi capaz de articular uma ação efetiva que as salvasse. Logo um brutamonte armado até os dentes anunciava em vídeo que as meninas seriam vendidas como escravas, o que supõe que encontrariam facilmente compradores. Dias depois, outro vídeo, dessa vez as meninas com olhos aterrorizados, encolhidas, já amortalhadas em roupas islâmicas, são mostradas como “convertidas”.

O crime das meninas é imperdoável: frequentavam a escola, liam livros, abriam-se ao mundo, escapavam à truculência de um grupo de bandidos sanguinários que impõe às mulheres a treva da ignorância, o estupro no casamento forçado ainda na quase infância ou a escravidão, vendidas no mercado. Em pleno século 21 bárbaros usam a internet para transmitir uma mensagem de Neanderthal.

O ódio às mulheres é tão poderoso que não espera que elas cresçam para se manifestar. O medo de que não aceitem mais ser escravas as escraviza desde já como coisas desprezíveis que esses homens — não sei se cabe a palavra — acham que elas são. E, de quebra, fazem chantagem contra o governo, pedem a libertação de outros bandidos e conseguem sujar as páginas dos jornais com suas carantonhas.

É difícil ir além da imensa compaixão pelas crianças cujo terror é possível imaginar e que deixará marcas indeléveis. Além da piedade por essas mães que urram pedindo as filhas de volta e pelos pais que se embrenham sozinhos na floresta armados de pedaços de pau sabendo do armamento moderno posto nas mãos desses assassinos. Por quem?

E, no entanto, é preciso repetir que não se trata de um ato isolado, ainda que seja a expressão mais primitiva de um edifício ideológico. A violência contra as mulheres é constitutiva do fundamentalismo. Foi nessa mesma Nigéria que, há alguns anos, Amina Lawal, acusada de adultério, ia ser jogada em um buraco e lapidada pelo pai e pelos irmãos em nome da lei corânica. Uma imensa corrente de protesto pela internet, capitaneada pelo movimento internacional de mulheres, obteve a clemência no último momento. O mesmo aconteceu no Irã, com Sakineh, igualmente acusada de adultério, salva da morte por lapidação graças à comunidade internacional. Os talibãs no Afeganistão jogaram ácido no rosto das meninas que quiseram se educar, e, pela mesma razão, deram um tiro na cabeça de Malala Yousafzay, que, com 15 anos, estudava e defendia o direito das mulheres de estudar. Ela sobreviveu e se tornou um símbolo mundial de resistência à barbárie.

A questão da dignidade das mulheres e do seu lugar no mundo apenas começou a ser aflorada nas Conferências Mundiais da ONU sobre Direitos Humanos, em Viena, e sobre as Mulheres, em Pequim. É uma dura batalha que tem que prosseguir e traz à tona a necessidade do direito de asilo quando vítimas em seus países de perseguição religiosa que desemboca na pena de morte. O argumento do respeito ao relativismo cultural, invocado de maneira simplista, justifica todo tipo de brutalidade e impede que se estabeleça com clareza como se exerce a proteção internacional à vida e à liberdade dessas mulheres.

Só em 1994, em Viena, na Conferência Mundial sobre Direitos Humanos, após noites brancas e debates ásperos em que enfrentamos a resistência empedernida de islamistas, a Declaração finalmente aprovada reconheceu que “os direitos das mulheres são direitos humanos’’. Penhorada, a metade da Humanidade agradeceu tamanha magnanimidade. Tive vontade de chorar…

O reconhecimento das mulheres como seres humanos com direitos, que vem do século passado, ainda vai se arrastar pelo século 21 e continuará sendo pedra de toque de conflitos internacionais. Porque no rapto das meninas nigerianas está presente um vírus que não é exclusivo do Boko Haram. Nesse caso, ele foi terrivelmente agressivo, mas não é um vírus desconhecido. Está presente sempre e onde quer que uma mulher seja humilhada.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

 

Órfãos de Gabo

Tordesilhas teria tornado o pertencimento latino-americano difícil para os brasileiros, não fora García Márquez

Nenhum latino-americano escapou de se perguntar, um dia, se a América Latina de fato existe. Não aos olhos estrangeiros face aos quais uma estranheza nos irmana, mas aos nossos próprios olhos, quando nossas diferenças parecem irremediáveis. A cicatriz de Tordesilhas teria tornado o pertencimento latino-americano difícil para os brasileiros, não fora Gabriel García Márquez que, com sua literatura, apresentou a América latina a seus filhos, transfigurada na força torrencial de seu imaginário.

Nós, latino-americanos, creio que o seríamos menos, não fosse a ficção que escrevemos sobre nós mesmos com a fidelidade perfeita que tem a verdade das mentiras de que fala Vargas Llosa. Vargas Llosa tem razão, toda ficção é uma forma de utopia, nasce de uma relação ao mundo sentida como inconclusa. García Márquez à frente com a estatura maior de sua obra, a literatura latino-americana se fez uma pátria mítica e aproximou identidades.

A ficção de García Márquez transpira esse desejo de viver para contar essas mentiras que dizem a verdade sobre nossas sociedades, nossos países. Sua ficção não conta apenas o que uma sociedade é, mas o que ela gostaria de ser, não documenta somente vidas improváveis, mas também os demônios de uma época que não é feita só de gente de carne e osso, mas também de fantasmas. O fantasma das revoluções e seus comandantes, os caudilhos e anti-heróis, as guerras civis, as ditaduras militares, que assombram há mais de cem anos a solidão da América Latina e integram, em “Os funerais da Mama Grande”, o testamento desta que foi “a dona de toda a chuva chovida e por chover”.

O século XX foi um tempo de agonia em que a morte veio ao proscênio arrastando consigo os despojos de bom número de convicções. Morte de Deus, morte do homem, morte do sentido. Os próprios artistas proclamavam, então, a morte da Arte. Contemporâneo dessa condenação, García Márquez publica em 1967 um romance prodigioso, “Cem anos de solidão”. O mesmo Márquez que, ao receber o Premio Nobel de Literatura, em 1982, encerrou seu discurso de Estocolmo invocando Wiliam Faulkner que, no mesmo local, 30 anos antes, declarara: “Nego-me a admitir o fim do homem.”

Márquez fechou seu discurso afirmando não ser demasiado tarde para empreender uma nova e arrasadora utopia de vida onde ninguém possa decidir pelos outros, até mesmo a forma de morrer, onde o amor seja seguro e a felicidade possível, e onde as estirpes condenadas a cem anos de solidão tenham, enfim e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra.

García Márquez cumpriu o destino da grande literatura, aquela que capta a cadeia de mensagens que a humanidade ao longo do tempo transmite em código estético e de cuja descodificação se alimenta a memória coletiva e o sentido de pertencimento à aventura humana. Sua noção de cultura registra a herança do passado, a tradição do Amadis de Gaula e dos romances de cavalaria — Dom Quixote lia romances de cavalaria — e reconhece no presente o tempo cíclico que, como um cão raivoso, morde o próprio rabo. E que dita o passo de vidas que caminham no fio da navalha entre o fato histórico e o imaginário, convivendo com o mistério integrado ao cotidiano com a naturalidade com que o dia amanhece. Nada fantástico, como erroneamente se disse, apenas lembranças. Não o realismo fantástico e sim os fantasmas da nossa realidade.

Segundo o próprio autor, tudo que escreveu já sabia ou já tinha ouvido contar quando tinha 8 anos, talvez um exagero a mais no que, em sua ficção, é recorrente, associado a uma escrita em ritmo de reiterações superlativas que a faz encantatória. E, estruturante, a dimensão do sonho que alimenta as 32 guerras civis, todas perdidas, do coronel Aureliano Buendía.

Que grande literatura poderá ainda gerar este mundo desencantado que é o nosso, que se satisfaz com as migalhas que o consumo espalha sobre um cotidiano medíocre, pontuado por sonhos esquálidos cuja expectativa de vida não vai além do dia seguinte? Um tempo infenso à aventura coletiva, sem promessas e sem heróis — heróis viraram ditadores, revolucionários se corromperam — um tempo de órfãos da esperança. Um tempo sem sonhos e sem lembranças, que vive no imediato e imediatamente destrói o que viveu.

A morte de García Márquez, a indefinição sobre a quem pertencem suas cinzas que não encontram uma terra sua para adubar, copiam como pastiche os seus mais improváveis enredos. Epílogo na história de um personagem trágico, um homem de lembranças ferido de morte pela doença do esquecimento.

O Globo, 26/04/2014.

Elogio da democracia

O regime de 64 não só foi corrupto como sequestrou, com terror instalado nas escolas, a formação de crianças e jovens.

Há meio século uma geração ganhou de presente de 20 anos uma ditadura que a marcaria pela vida inteira com a memória da prisão, da tortura e do exílio. Aos mortos, só agora uma comissão presta a homenagem póstuma da verdade.

O golpe de 64, a pretexto de combater a corrupção e a ameaça comunista que supostamente pairava sobre o país, acabou com a democracia. O regime que se instalou não só foi corrupto como sequestrou com o terror instalado nas escolas a formação de crianças e jovens. Tentou inutilmente calar os artistas.

Liberdade, “essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”, é como o ar, cujo valor só se percebe quando se é sufocado. Descobrimos o valor da democracia quando ela foi abolida. Os anos de chumbo produziram um clamor nacional pelo restabelecimento do regime democrático e já lá vão 30 anos das jornadas em verde e amarelo das Diretas Já. De lá para cá, três perseguidos pela ditadura chegaram à Presidência. A estabilização da moeda, as políticas de inclusão social e a irrestrita liberdade de opinião mudaram o país para melhor.

Mas a democracia exige uma reinvenção permanente. Neste momento inspira cuidados. As ameaças que pesam sobre nós são a generalização da corrupção e a banalização da violência, que têm uma raiz comum: o abismo entre o apodrecimento do sistema político e as expectativas cada vez maiores e mais definidas da sociedade.

A noção clássica de democracia pressupõe eleições, pluralidade de partidos, alternância no governo, equilíbrio entre poderes. Nada disso nos falta. O paradoxo é a coexistência de eleições majoritárias legítimas com um sistema político desmoralizado e uma sociedade dinâmica que faz ouvir sua voz.

O ideal da democracia representativa não se encarna nos desmandos de parlamentares, o que a coloca em risco, vítima não de ideias revolucionárias que envelheceram já no século passado, e sim de surtos de violência que, a múltiplos pretextos, se alastram. A esfera política, que mediava e representava os interesses conflitantes da população junto ao Estado, se desfez no ácido de seu próprio cinismo. O escárnio face à população desqualificou-a como interlocutora. Se não, como explicar a violência que frequentemente explode e incendeia uma rua qualquer do Brasil?

A banalização da violência eclode desvinculada dos grandes números que não acusam uma crise social aguda. Há baixo desemprego, indicadores de aumento de renda e de bem-estar material nas camadas mais pobres, redução constante, ainda que lenta, das desigualdades de todo tipo, sociais, raciais, de gênero, regionais. Há liberdade de imprensa e de opinião.

A crise social não está nos grandes números, está no sentimento das pessoas. A democracia que se quer não se esgota em eleições. Uma parte significativa da população defende valores — repudia a corrupção, que associa justamente a tudo o que lhe falta, quer ser respeitada e ter a liberdade de escolher sua vida e vivê-la em paz — e não encontra onde ancorar essas aspirações. Há um voto órfão que ninguém sabe, nas próximas eleições, para onde irá. Se for.

A fé cega e exclusiva na economia serve de antolhos à direita e à esquerda. O sobe e desce dos indicadores econômicos ignora que as sociedades têm uma dimensão moral, definem o que é justo ou injusto. Se assim não fosse, não se explicaria por que, há 50 anos, uma parte da juventude que vivia confortavelmente e tinha diante de si um futuro garantido, tenha arriscado a vida e o futuro no sonho de um país mais justo.

Esse artigo é dedicado às sucessivas gerações que lutaram contra a ditadura e aos jovens herdeiros dessa estirpe. Os que hoje não aceitam a corrupção e a desigualdade como uma peça do cenário nada esperam de partidos terminais e, rejeitando a violência destruidora, com imaginação criadora tecem a democracia com o fio espesso das microações que humanizam as pessoas, as cidades e o país.

A pluralidade está inscrita na democracia. Que as formas de exercê-la possam ser elas mesmas plurais ainda é pouco percebido. A democracia se faz com atores múltiplos que balizam seus passos pela ética, que vivem a liberdade e a defendem para todos, que exigem direitos que se traduzem em qualidade de vida. Esses, como células-tronco, têm o poder de reavivar tecidos mortos. O fundamento da democracia contemporânea não é o Estado, é o cidadão.

Uma democracia vivida no dia a dia é a melhor garantia de que nunca mais virá nos assombrar o pesadelo histórico que foi o golpe de 64.

O Globo, 29/03/2014.

Baile de máscaras

Que se abstenham os cientistas sociais que explicam, os caretas que julgam, os crentes que proíbem. Só os carnavalescos entendem o carnaval, ouvem seu silêncio estridente e conhecem as cinzas da quarta feira. É graça dada a eles a pele colorida dos arlequins que, vestida na infância, cola para sempre e resiste à banalidade dos dias. Os carnavalescos conhecem a divina liberdade de transformar-se no que bem lhes aprouver e desvendam o segredo das máscaras.

Crescemos neste país de loucos, passamos o ano chorando os tantos lutos e lutas que escurecem nossas vidas e, de repente, eis que se abre o pano, se acende uma cena luminosa, um demônio ancestral solto nas ruas. É carnaval.

Esse mundo de pernas pro ar diz muito sobre a vida. Sabe que ninguém é totalmente autêntico quando fala em primeira pessoa, mas quando escolhe uma máscara se revela. Sabe com Oscar Wilde que a escolha das máscaras é mais verdadeira do que as autobiografias. Com Fernando Pessoa que “cada um é muitos”. E com Chico que “seja você quem for, seja o que Deus quiser”. Vestir fantasias e máscaras é uma aventura mais arriscada do que qualquer second life virtual.

Os homens desde os velhos carnavais sempre gostaram de sair de mulher — “sair de” é expressão do carnavalês castiço — talvez porque vestir a pele e as formas das senhoras fosse uma transgressão absolvida pela impunidade desses quatro dias. Havia nas pernas cabeludas amassadas na meia arrastão e na boca pintada de batom muito mais desafio do que o exibicionismo de vir nu, sacudindo um corpo malhado no luxo dos carros alegóricos.

Hoje, no que o carnaval desnuda, são as mulheres que se fantasiam de mulheres. Uma, fantasiada dela mesma quando era jovem, outra, lipoaspirada, de quando era magra, uma terceira, que a natureza não favoreceu, passada a limpo, exibe a fantasia de mulher bonita. Costumam vestir, ou melhor, despir essa fantasia de Eva as esquálidas ou as rechonchudas, todas fantasiadas da Globeleza que sonham ser. Toda Eva malha na academia, toma tarja preta para baixar a ansiedade e janta uma folha de alface. É a máscara mais usada no carnaval do Rio.

Há uma insuspeita sabedoria no carnaval, que ninguém percebe em meio ao burburinho das escolas que desfilam hipermodernas, dos blocos resistentes que, pra consolo da lua, entoam as saudades de um amor que se acabou. Atenção, pois, às máscaras: no ano em que Dilma foi eleita sua máscara foi a mais vendida. No ano passado sofreu a concorrência de Joaquim Barbosa. Ao que dizem, este ano voltará a ser a mais procurada. Surgirão máscaras novas? O itinerário das máscaras contribui para entender em que passo está dançando o Brasil.

Na história milenar dessas caixas de ressonância com que o teatro grego ampliava a voz dos atores, que a Commedia dell’Arte incorporou como caricatura de cada um, que o nosso carnaval adotou para multiplicar as identidades individuais, as máscaras conheceram recentemente um triste capítulo que perverte seu sentido, invertendo-o. As máscaras do Anonymous, que há tempos vêm assombrando as ruas do mundo, dizem o contrário: não somos ninguém, somos legião, somos todos um só, o vingador.

A identidade individual, que o espírito das máscaras recria de maneira original na fantasia de cada um, aqui faz o caminho inverso: anula-se, dissolve-se em uma sombria identidade coletiva, um rosto único — e não existe máscara mais perigosa do que a que se quer única — que representaria todos unidos por um mesmo desejo de vingança. Um bloco de encapuzados desfila produzindo uma espécie de anticarnaval. Armados de paus e pedras, com o passo e gestos de primatas, são poucos e trazem uma mensagem de ódio que é o contrário mesmo da alegria.

No baile de máscaras que o Brasil sempre foi, convidou-se agora mais esse cordão do bota pra quebrar, dissonante e estrangeiro em uma cultura que até então não temia os mascarados porque os associava à alegria. Indomável alegria que os brasileiros nunca perderam apesar de todas as privações que corroem seu dia a dia e das injustiças infames com que convivem. E continuam a desfilar sua ainda irrealizada vocação para a felicidade no irreverente Cordão do Bola Preta, ou da Preta, em blocos populares que, Brasil afora, arrastam multidões. Bons carnavalescos preferem a alegria ao ódio.

Manda o código de honra dos bailes de máscaras que elas sejam retiradas à meia-noite. Passado o carnaval viveremos esse momento que, em todos os bailes, é o das surpresas. Quando todas as máscaras caírem, terá chegado a hora da verdade.

O Globo, 01/03/2014.

Não à violência, já

Diz um velho ditado que não se deve falar no diabo porque o diabo aparece. Discordo. O demônio da violência anda à solta nas avenidas reais e virtuais do país.

A violência policial que pretende reprimir a fúria de um tipo minoritário de manifestante é gasolina jogada na fogueira. O problema é grave demais para ser deixado ao duvidoso bom senso das autoridades de segurança. Existe uma opinião pública democrática que é majoritária e, por isso mesmo, tem que se fazer ouvir.

O que as manifestações de junho, que refluíram sob o peso da violência, defendiam era o interesse público. Diziam uma verdade incontestável: a política não serve ao bom governo, são os governos que servem à má politica como moeda de troca, promessa ou ameaça de concessão ou retirada de privilégios. Essa lógica diabólica rege todos os partidos. Transforma governos em caixa-forte, administrações em pasto de aliados, impede que se priorize o que é do interesse dos cidadãos.

Quando pacíficas, e assim deveriam ter continuado a ser, as manifestações são a expressão mais viva da democracia contemporânea, que nos desafia a decifrar seus códigos e a reinventá-la. “Decifra-me ou te devoro”, disseram as ruas em que a internet veio desaguar.

No sábado passado, em São Paulo, dois desastres ilustraram o imenso risco que a violência que assombra as manifestações faz pesar sobre a democracia. Uma menina escapou de morrer queimada em uma barreira de fogo que interrompia o tráfego como forma de protesto. Salta aos olhos que nenhum pretexto justifica incendiar, literalmente, as ruas.

A Polícia Militar, num ato que mistura covardia, boçalidade e incompetência, baleou e feriu gravemente um rapaz de 22 anos. Antes invadira um hotel em que manifestantes tinham se refugiado. São espetáculos de truculência que lembram os malfadados tempos da ditadura, inclusive na canhestra tentativa de justificar-se culpando a vítima.

O conflito cego entre pedras e balas só pode desandar numa espiral enlouquecida em que, a História nos mostra, ao fim e ao cabo triunfa o mais forte, o mais brutal, o mais implacável.

A violência não pode se tornar a linguagem do protesto. Difícil imaginar que esse chamado à paz possa vir de lideranças políticas. Em temporada de caça aos votos, cada um se regozija quando o adversário enfrenta dificuldades. O drama das ruas, o rastro de destruição que deixa, é manipulado como arma eleitoral, o que dá a medida exata da miopia das supostas “lideranças”. Há quem torça pela aceleração desta engrenagem em todo o país, com a aproximação da Copa. São sonâmbulos dançando na beira do abismo.

A violência, de onde quer que venha, tem que parar agora, antes que aconteça o irreparável. Com a palavra, a sociedade. Deter a radicalização dos protestos e a truculência da repressão, quebrando o círculo vicioso do olho por olho, dente por dente, deve ser prioridade na agenda da opinião democrática. Condenando, em defesa da paz, os incendiários, que são minoria, chamando às falas os governadores que são, em última instância, os responsáveis pelos desmandos de suas polícias, cobrando da Justiça que quem quer que infrinja a lei — manifestante ou autoridade — seja responsabilizado e punido.

Há 30 anos, vestida de verde e amarelo, fui numa cadeira de rodas, com a perna quebrada e o coração inteiro, a uma inesquecível festa democrática, o Comício das Diretas Já. No palanque estavam artistas e políticos em quem acreditávamos, lideranças respeitadas que ocupariam o governo quando nos livrássemos dos restolhos da ditadura militar.

A democracia reconquistada, ainda que imperfeita, permitiu que as liberdades se ampliassem, a moeda se estabilizasse, a pobreza e a desigualdade diminuíssem. Teriam diminuído ainda mais não fosse a corrupção, essa lepra que corrói a credibilidade das instituições, expropriando a população do capital simbólico que é a confiança nas lideranças políticas. Confiança que estimulou toda uma geração a enfrentar os riscos da luta contra a ditadura.

Trinta anos depois, a população volta às ruas reais e virtuais, sem lideranças. Amadurecida, a opinião democrática entra em cena, fala com voz própria. O que grita, neste ano de eleição para Presidência da República, governos estaduais e parlamentos, é muito mais que a sua decepção. É a exigência de honestidade e qualidade no trato do interesse público. Atos, não palavras. Resultados, não promessas. Valores, não espertezas. Participação, não apatia, Construção, não destruição. E, sobretudo, não à violência, já.

O Globo, 01/02/2014.