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	<title>Rosiska Darcy - Blog</title>
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	<description>Rosiska Darcy é Presidente do movimento Rio Como Vamos</description>
	<pubDate>Tue, 15 May 2012 16:16:28 +0000</pubDate>
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		<title>Paradoxo tragicômico</title>
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		<pubDate>Tue, 15 May 2012 16:16:28 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[O velho ditado – a pressa é inimiga da perfeição – foi virado do avesso. Agora nada é perfeito se não for instantâneo.
A aceleração, o fenômeno contemporâneo mais vivenciado e menos compreendido, permeia o cotidiano como uma condenação coletiva e provoca relações ambíguas. De um lado o sentimento lúdico de concorrer consigo mesmo e ganhar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">O velho ditado – a pressa é inimiga da perfeição – foi virado do avesso. Agora nada é perfeito se não for instantâneo.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">A aceleração, o fenômeno contemporâneo mais vivenciado e menos compreendido, permeia o cotidiano como uma condenação coletiva e provoca relações ambíguas. De um lado o sentimento lúdico de concorrer consigo mesmo e ganhar o jogo de multiplicar atividades ao longo das inarredáveis horas de um dia. De outro o sentimento de esfacelamento, de nunca pousar em nada, vivendo uma temporalidade de zapping. Nos espíritos sobrecarregados, uma atividade deleta a outra e banaliza todas.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Viciado na aceleração, o psiquismo, por adaptação, se transforma e, na urgência do instantâneo, vai perdendo a capacidade de reflexão. Daí ser mal percebida a revolução cultural que está moldando as dimensões essenciais da vida como trabalho e as relações de amor e de amizade. Esses sentimentos, que amadureciam no tempo da convivência, encolheram em relações virtuais, efêmeras e indolores.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">A impaciência que nos ataca quando um clique não produz imediatamente o resultado esperado é uma espécie de regressão infantil, resquício do tempo em que a criança quer tudo, aqui e agora. Corre a lenda que, em  Hong Kong, o botão mais usado no elevador é o que apressa o fechamento das portas para ganhar uma infinitesimal fração de segundo.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">A parafernália tecnológica, celulares e computadores, o milagroso Google em particular, nos habituaram a receber respostas imediatas a toda e qualquer pergunta. Uma falha de conexão é vivida como uma frustração intolerável. Instaurou- se uma relação perigosa entre informação e conhecimento. A informação estocada, que pode a qualquer momento ser acessada, não precisa ser memorizada para se tornar conhecimento. Em seu sábio “Livro das ignorãças”, Manoel de Barros sentencia: as coisas me ampliaram para menos.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Para os jovens, o ritmo dos grandes clássicos do cinema é insuportável. Hollywood adotou a estética frenética dos clipes de publicidade em que a mensagem deve passar em segundos, antes que a atenção se desvaneça.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Na linguagem escrita o despotismo da pressa se exerce de maneira ainda mais evidente. A carta tornou- se um objeto impensável abduzida no email, no SMS e na mais perfeita expressão da rapidez como valor, os 140 toques do Twitter.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">A economia financeira viceja no reino da urgência. Na era industrial a confecção de um produto obedecia aos tempos e ritmos incontornáveis de transformação da matéria. Os produtos negociados no mercado financeiro são, em sua imaterialidade, de confecção instantânea e as fortunas que nele se fazem, meteóricas. Cada investidor se acredita destinado a um dia banhar- se em dinheiro como os bilionários texanos se banhavam em petróleo. O exemplo dos meninos do Silicon Valley, que, em vinte anos, se fizeram os mais ricos do mundo, excita a urgência em enriquecer.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">A aceleração, que até aqui foi vivida como fator de progresso, atinge um momento em que pode se tornar fator de retrocesso. A cultura do imediato, do eterno presente, da volatilidade e da fugacidade, não favorece a compreensão de problemas que se estendem no longo prazo, a exemplo da crise ecológica, talvez o maior desafio colocado à inteligência humana. Que mentes viciadas na satisfação instantânea, no estilo zapping, serão capazes de reconhecer e equacionar um problema que se enuncia em décadas e cuja solução exige, hoje, renúncias em nome do amanhã? É mais fácil olhar para o umbigo do que para o horizonte.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">As respostas à crise ecológica, que dependem essencialmente de uma mudança de mentalidades e comportamentos de pessoas, empresas e governos, esbarram no paradigma do eterno presente. Exigem sabedoria que permita entender que a tecnologia não impede a deriva dos pólos, a desolação das florestas amputadas, a morte do mar e outros flagelos que reconhecemos como ameaça futura ainda que não tenham ainda invadido totalmente o presente. Exigem um saber que vai muito além da pletora de informações.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">O grande T.S. Elliot se perguntava: “Onde está a sabedoria que se perdeu no saber? Onde está o saber que se perdeu na informação?”</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">A Rio+20 não promete grandes avanços. A conferência é mais uma etapa da lenta negociação de consensos de extrema urgência. O dissenso entre as nações não se resolve com um clique, deletando as relutantes do cenário político. A crise ecológica impõe a aceitação do longo prazo a um mundo viciado no curto prazo. Paradoxo tragicômico. Quando a urgência é vital somos incapazes de rapidez.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">
<p class="MsoNormal">O Globo, 13 de maio de 2012</p>
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		<title>Três meninas e uma sentença</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Apr 2012 13:32:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Apesar dos seus 12 anos, o adulto que as possui é somente ‘imoral e reprovável’?
uízes do Superior Tribunal de Justiça absolveram do crime de estupro um homem que teve relações sexuais com três meninas de 12 anos. O tribunal alegou que elas não eram “ingênuas, inocentes, inconscientes a respeito de sexo”. As meninas se prostituíam, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="nth-child-even nth-child-2" style="text-align: justify;">Apesar dos seus 12 anos, o adulto que as possui é somente ‘imoral e reprovável’?</p>
<p class="nth-child-odd nth-child-3" style="text-align: justify;">uízes do Superior Tribunal de Justiça absolveram do crime de estupro um homem que teve relações sexuais com três meninas de 12 anos. O tribunal alegou que elas não eram “ingênuas, inocentes, inconscientes a respeito de sexo”. As meninas se prostituíam, ergo, a atitude do réu, “imoral e reprovável”, não configurava esse crime.</p>
<p class="nth-child-even nth-child-4" style="text-align: justify;">A nota do STJ, defendendo- se da enxurrada de criticas suscitadas pela decisão, informa que o tribunal permitiu ao acusado produzir provas — dada a absolvição, devem ter sido consideradas convincentes — de que o ato sexual se deu com o consentimento do que a nota chama de “suposta vítima”.</p>
<p class="nth-child-odd nth-child-5" style="text-align: justify;">A sociedade brasileira, estarrecida com a sentença, tem o dever de se perguntar que valores informaram essa interpretação jurídica e o direito de julgá-la severamente. Crianças de 12 anos que, abandonadas por quem lhes deveria acolher e educar, família e estado, entregues à violência das ruas, se prostituem são objeto de um desprezo ancestral que dois mil anos de compaixão cristã não conseguiram apagar. Ainda há quem atire a primeira pedra.</p>
<p class="nth-child-even nth-child-6" style="text-align: justify;">Quando uma decisão ofende a sociedade, a pedra, como um bumerangue, volta. O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos e as instâncias que, no Executivo e no Legislativo, protegem esses direitos, deploraram a decisão. A opinião publica condenou os juízes por insensibilidade.</p>
<p class="nth-child-odd nth-child-7" style="text-align: justify;">Não lhes comoveu o destino dessas crianças, órfãs de tudo, que até hoje, por descaso, o Brasil não conseguiu perfilhar. E, no entanto, elas nos são bem conhecidas, desde as páginas de Jorge Amado. Contra elas nada é crime. Despojadas de direitos, vegetam nas esquinas e praças das grandes cidades como restos humanos, tratadas como malditas, pequenas Genis, “boas de apanhar, boas de cuspir”. <br class="first-child nth-child-odd only-child nth-child-1 last-child" />Há pouco tempo, no estado do Pará, uma menor infratora foi jogada por ordem de uma delegada de polícia na cela de detentos que a estupraram. Quem se lembra? Alguém foi condenado?</p>
<p class="nth-child-even nth-child-8" style="text-align: justify;">O tribunal achou relevante salientar que a “educação sexual das jovens certamente não é igual, haja vista as diferenças sociais e culturais”. Que sentido tem, nesse contexto, estabelecer essa diferença? Afirmar que elas não eram ingênuas? As diferenças sociais e culturais que lhes tiraram a “inocência” e a “ingenuidade”, requeridas pela juíza relatora para enquadrá-las na figura da vítima, são, por acaso, culpa delas?</p>
<p class="nth-child-odd nth-child-9" style="text-align: justify;">Por que se prostituem — e o que quer dizer isso quando se trata de crianças — não existe violência contra elas? Apesar dos seus 12 anos, o adulto que as possui é somente “imoral e reprovável”? <br class="first-child nth-child-odd only-child nth-child-1 last-child" />Quem, em sã consciência, chamaria de consentimento o ato de se prostituir na infância? Teriam as meninas consentido do alto de seu bom-senso e maturidade, amplo domínio de suas emoções e destinos?</p>
<p class="nth-child-even nth-child-10" style="text-align: justify;">Em nenhuma hipótese, a relação sexual de um adulto com meninas de 12 anos deixa de ser uma violência.</p>
<p class="nth-child-odd nth-child-11" style="text-align: justify;">Qualquer pessoa que vê meninas se prostituindo procura uma autoridade que as tire da rua e se ocupe delas ou, pelo menos, indignado, lamenta a sua sorte. Não vai se deitar com elas. Se o faz, aproveita-se não da ingenuidade, exigida pelo tribunal para condenar o acusado, mas da vulnerabilidade, de que fala o Código Penal, ao capitular como estupro de vulnerável a relação com menor de 14 anos.</p>
<p class="nth-child-even nth-child-12" style="text-align: justify;">A nota do tribunal avisa que “nada impede que, no futuro, o STJ volte a interpretar a norma e decida de modo diverso”. Enquanto os juízes, de tempos em tempos, vão mudando as interpretações da norma, que mulheres irão se tornando essas meninas que, já na infância, marcadas com o estigma da prostituição, perdem todos os seus direitos? Quando alguém for enfim considerado culpado por juízes mais bem afinados com seu tempo e com o mérito do que julgam, quem lhes devolverá a justiça que lhes foi negada?</p>
<p class="nth-child-odd nth-child-13" style="text-align: justify;">Quando o ministro da Justiça, ainda que declarando-se contrário à decisão do tribunal, diz que ela tem que ser “respeitada”, pede muito de nós, escolhe mal a palavra. Melhor seria dizer “cumprida”. Decisões desse tipo, que vão contra o bom-senso mais elementar, provocam inconformidade e indignação por parte de uma sociedade cada vez mais alerta na defesa de direitos. O que é legítimo e auspicioso.</p>
<p class="nth-child-even nth-child-14" style="text-align: justify;">O repúdio nacional e internacional que a decisão colheu deveria ter dado aos juízes a medida do seu equívoco. Mas não. Investindo-se no papel de Tribunal da Cidadania, repeliram as críticas, que definiram como levianas. Enganam-se mais uma vez. No verdadeiro tribunal da cidadania, os juízes somos todos nós. E, aí, a condenação é certa e sem apelação.</p>
<p class="nth-child-even nth-child-14" style="text-align: justify;"><span>O Globo, de 14 de abril de 2012</span></p>
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		<title>Vidas Sustentáveis</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Apr 2012 13:54:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[O tempo é o meio ambiente impalpável onde nossa vida evolui. A relação com o tempo é, nesse sentido, uma relação ecológica, marcada no mundo contemporâneo pela poluição das horas. Todos temos relógios, mas ninguém tem tempo. Essa constatação levou o filósofo Michel Serres a propor que renunciássemos a comprar relógios e guardássemos o tempo. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O tempo é o meio ambiente impalpável onde nossa vida evolui. A relação com o tempo é, nesse sentido, uma relação ecológica, marcada no mundo contemporâneo pela poluição das horas. Todos temos relógios, mas ninguém tem tempo. Essa constatação levou o filósofo Michel Serres a propor que renunciássemos a comprar relógios e guardássemos o tempo. Afinal, na vida de cada um, o tempo é um recurso não renovável.</p>
<p style="text-align: justify;">O paradigma da onipotência e da falta de limite, o pressuposto de energias inesgotáveis que destruiu e continua destruindo os equilíbrios da Terra, contaminou o cotidiano das pessoas e se manifesta na multiplicidade de vidas que transbordam das 24 horas do dia: trabalho, casa, viagens. Some-se a isso a bulimia da informação e o frenesi dos relacionamentos no espaço virtual, segundas vidas que permeiam o real. Mesmo se a duração da vida humana é cada vez mais longa as horas são percebidas como cada vez mais curtas.</p>
<p style="text-align: justify;">O dia a dia nas grandes metrópoles tornou-se insustentável como modelo de consumo e também como escolhas equivocadas, que não se sustentam em se tratando de qualidade de vida. As horas passadas em engarrafamentos de pesadelo são momentos privilegiadospara pensar em como desatar os nós do tempo das cidades. Na Itália, a lei obriga cidades com mais de cem mil habitantes a criar uma Secretaria do Tempo para estudar essa variável, decisiva na relação das pessoas com o meio urbano. Resta ainda a relação ao trabalho e à família.</p>
<p style="text-align: justify;">A concorrência no mercado global exerce uma pressão inclemente sobre as empresas que, por sua vez, pressionam quem trabalha, fixando metas e além-metas, exigindo prontidão, ubiquidade e nomadismo. Cada um é o contramestre de si mesmo, tanto mais severo quanto mais competitivo. No mundo do trabalho, o que é urgente prima sobre o importante. Nesse reino da urgência, o estresse é a regra, e a somatização, o sintoma.</p>
<p style="text-align: justify;">Família e trabalho se tornam rivais, lealdades conflitantes. Esse foi o leitmotiv das incontáveis comemorações do Dia Internacional da Mulher. Como conciliar carreira e vida privada? A pergunta vale para mulheres e homens que trabalham a tempo integral. Crianças e idosos terão certamente muito a dizer sobre seus pais e filhos que nunca têm tempo para eles. Um sentimento de culpa, permanente, habita os jovens adultos, com duas faces, uma voltada para a família, outra para a empresa. Homenagear as mulheres é colocar na pauta da sociedade brasileira, como um valor, o direito — para mulheres e homens — a dispor de tempo para a vida privada. Em respeito à infinidade de gestos que, em todos os tempos, elas fizeram para transformar cada um de nós em seres humanos melhores do que os selvagens que somos ao nascer. Gestos que nunca mereceram registro nos livros de história da civilização ainda que tenham sido a grande aventura educativa da espécie.</p>
<p style="text-align: justify;">As mulheres entraram no mundo do trabalho pela porta dos fundos. Transgressoras de uma lei não escrita que lhes proibia o acesso, aceitaram condições leoninas. Acataram uma dupla mensagem: aqui, trabalhe como um homem qualquer; fora daqui, continue a ser a mulher que sempre foi. Temendo a desqualificação — a família como um “defeito” feminino — tentaram dar respostas biográficas a contradições sistêmicas. O tempo elástico tornou-se insustentável.</p>
<p style="text-align: justify;">A vida privada foi ocultada enquanto desafio social, sem que se levasse em conta sua contribuição à sociedade De difícil solução, a questão foi devolvida à intimidade dos casais. Essa ocultação, angústia diária de homens e mulheres, é um dos núcleos problemáticos da contemporaneidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Em tempos de Rio+20, quando a palavra sustentabilidade está em todas as bocas, ainda que definida como na fábula dos cegos e do elefante, seria oportuno criar o Clube do Rio. A exemplo do Clube de Roma que, há quarenta anos, numa reviravolta epistemológica introduziu a polêmica noção de limite ao crescimento, retomada em recente e assertivo artigo de André Lara Resende, o Clube do Rio reuniria inteligências criativas e ousadas, hoje espalhadas pelo mundo.  Atento às dimensões insustentáveis do cotidiano, buscaria o equilíbrio entre o uso do tempo e as energias humanas, mobilizando ciência e imaginação para gerar uma ecologia do tempo a serviço de vidas e cidades sustentáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">No futuro das cidades sustentáveis tempo não será dinheiro. Nada nos condena a transformarmo-nos em um sub-Estados Unidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais uma bela oportunidade para o Rio de Janeiro: ser a matriz de um conceito de sustentabilidade balizado pelo bem viver.</p>
<div>O GLOBO 17/03/2012</div>
<div></div>
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		<title>Um crime de lesa-cidade</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Feb 2012 13:14:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Não havia, na certa, carnavalescos entre os que tentaram instrumentalizar a greve da polícia do Rio para sabotar o carnaval. Se houvesse saberiam que com o carnaval não se brinca. Essa instituição milenar que sobreviveu à travessia de oceanos, que, em nossas plagas, vicejou como em nenhum outro lugar graças à afortunada mistura de culturas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não havia, na certa, carnavalescos entre os que tentaram instrumentalizar a greve da polícia do Rio para sabotar o carnaval. Se houvesse saberiam que com o carnaval não se brinca. Essa instituição milenar que sobreviveu à travessia de oceanos, que, em nossas plagas, vicejou como em nenhum outro lugar graças à afortunada mistura de culturas e cores de peles de que somos feitos, não é, simplesmente, passível de sabotagem. Tampouco havia entre esses pescadores de águas turvas quem de fato conheça o povo carioca. Enquanto políticos oportunistas tentavam detonar a festa, sacudindo o estandarte do caos e manipulando a dura e, sem dúvida, mal paga vida dos policiais, o Bola Preta, sem medo de ser feliz, desfilou na sexta-feira em que a greve foi decretada, abrindo a folia e apostando na alegria contra os maus presságios.</p>
<p class="MsoNormal"><span>Essa respeitável agremiação popular que há 94 anos mostra um poder convocatório superior ao de qualquer político - põe dois milhões de foliões na rua - se alimenta do mistério do carnaval. Vive da fantasia, não só daquela que veste, branca com bolinhas pretas, mas da fantasia ancestral que renasceu a cada século, habitou tantas épocas e povos e que nos leva, durante alguns dias, a viver outras vidas, o que ajuda a suportar, no resto do ano, a áspera vida real. O caos dos blocos tem uma natureza que lhe é própria - é o caos do imaginário e nele é banal encontrar-se um sheik abraçado a uma índia de espanador. E segue o cordão que vai por aí, colhendo nas calçadas barbados de meia arrastão. É graça dada aos carnavalescos acreditar em fantasias, a eles é dada a pele colorida dos arlequins. </span></p>
<p class="MsoNormal"><span>Políticos de diminuta estatura, que pouco se importam com o destino do Rio, apenas com suas próprias medíocres ambições, esquecem que aqui vive um povo que encarna e leva a sério o carnaval. Mesmo se é para tudo se acabar na quarta-feira, a força do Bola, do Simpatia, do Boitatá e tantos outros é maior que a insensatez dos que cometeram um verdadeiro crime de lesa-cidade.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span>No magistral filme de Nelson Pereira dos Santos, &#8220;A música segundo Tom Jobim&#8221;, o desfile do maestro na Passarela do Samba, com seu terno branco e chapéu de malandro, como um imperador dos trópicos encarapitado em uma profusão de verde, sintetiza a glória que cobriu sua vida. Esse gran finale enche de orgulho o espectador: orgulho de Tom, de Nelson, do Brasil. </span></p>
<p class="MsoNormal"><span>Darcy Ribeiro, ele mesmo um personagem arlequinal, mineiro que dizia ser o Rio a mais bela província da Terra, a contragosto dos caciques das escolas de samba legou-nos o controverso Sambódromo. A passarela é hoje um panteão a céu aberto onde se inscrevem nas retinas e memórias de milhões de pessoas imagens e nomes dos que fizeram a história política ou cultural do país, homenageados e recriados pelo talento dos que continuam a escrevê-la.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span>Pouco importa se a evocação de heróis deve menos aos historiadores do que a Stanislaw Ponte Preta. Ali se encontra de Ana Botafogo à Intrépida Trupe puxando uma comissão de frente. Ali se exerceu o gênio barroco de Joãozinho Trinta. Ali se produz o milagre das escolas de samba e sua multidão de figurantes, onde se misturam moradores de todos os bairros, onde a cidade, por algumas noites, se encontra, se recompõe e acena com a promessa do que poderia ser e ainda não é. Mas, como Darcy gostava de dizer; &#8220;havemos de amanhecer&#8221;. </span></p>
<p class="MsoNormal"><span>Há uma beleza única nas madrugadas de carnaval, nos arredores da passarela, onde pássaros de todas as plumagens, as asas quebradas pelo cansaço depois de um voo cego sobre a Avenida, pousam no asfalto e adormecem. Manhã de carnaval.</span></p>
<p class="MsoNormal"><span>Era dever das autoridades proteger essa festa como o rico patrimônio cultural que ela é, luminosa fantasia com que o Rio se veste e se apresenta ao mundo. Sabotar o carnaval é, sim, um crime de lesa-cidade, no momento em que ela, mais do que nunca, busca afirmar-se e ser respeitada como metrópole global. </span></p>
<p class="MsoNormal"><span>Frente à chantagem, o comando da Polícia Militar deu uma prova de firmeza e sentido de responsabilidade: a ordem seria mantida. Quem saiu às ruas confiou no que lhe foi prometido. Ganhou a cidade. </span></p>
<p class="MsoNormal"><span>A alegria da população, o desejo de paz e a civilidade são valores que vão falar cada vez mais alto. A cultura, entendida como os modos de ser e de fazer de uma sociedade, irrompe na cena política como um fator determinante do futuro do Rio. Quem a despreza ignora o que move a cidade e por onde ela se está movendo. </span></p>
<p class="MsoNormal"><span>Não havia no bloco dos desmancha-prazeres ninguém capaz de avaliar a que ponto o Rio está mudando e para melhor. </span></p>
<p class="MsoNormal"><span>O Globo 18/2/2012</span></p>
<p class="MsoNormal"><span> </span></p>
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		<title>Um Tempo Sem Nome</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 17:45:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[

Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando
madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Holanda vai
bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais
essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue seu caminho e
tomara que ele [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><font size="3" face="Times New Roman"></p>
<p></font>
<p style="margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;" class="MsoNormal"><span style='color: rgb(102, 102, 102); line-height: 115%; font-family: "Arial","sans-serif"; font-size: 10pt; mso-bidi-font-weight: bold;'>Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando<br />
madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Holanda vai<br />
bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais<br />
essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue seu caminho e<br />
tomara que ele continue cantando “eu sou tão feliz com ela” sem encontrar<br />
resposta ao “que será que dá dentro da gente que não devia”.<?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /><o:p></o:p></span></p>
<p><font size="3" face="Times New Roman"></p>
<p></font>
<p style="margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;" class="MsoNormal"><span style='color: rgb(102, 102, 102); line-height: 115%; font-family: "Arial","sans-serif"; font-size: 10pt; mso-bidi-font-weight: bold;'>Afinal, é o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a nós mesmos e<br />
cria os interditos que balizam o que supostamente é ou deixa de ser adequado a<br />
uma faixa etária. O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas. É<br />
ele que mina a autoimagem, que nos constitui como velhos, desconhece e, de<br />
certa forma, proíbe a verdade de um corpo sujeito à impiedade dos anos sem que<br />
envelheça o alumbramento diante da vida.<o:p></o:p></span></p>
<p><font size="3" face="Times New Roman"></p>
<p></font>
<p style="margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;" class="MsoNormal"><span style='color: rgb(102, 102, 102); line-height: 115%; font-family: "Arial","sans-serif"; font-size: 10pt; mso-bidi-font-weight: bold;'>Proust, que de gente entendia como ninguém, descreve o envelhecer como o<br />
mais abstrato dos sentimentos humanos. O príncipe Fabrizio Salinas, o Leopardo<br />
criado por Tommasi di Lampedusa, não ouvia o barulho dos grãos de areia que<br />
escorrem na ampulheta. Não fora o entorno e seus espelhos, netos que nascem,<br />
amigos que morrem, não fosse o tempo “um senhor tão bonito quanto a cara do meu<br />
filho“, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se perceberia envelhecer?<br />
Morreríamos nos acreditando jovens como sempre fomos.<o:p></o:p></span></p>
<p><font size="3" face="Times New Roman"></p>
<p></font>
<p style="margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;" class="MsoNormal"><span style='color: rgb(102, 102, 102); line-height: 115%; font-family: "Arial","sans-serif"; font-size: 10pt; mso-bidi-font-weight: bold;'>A vida sobrepõe uma série de experiências que não se anulam, ao<br />
contrário, se mesclam e compõem uma identidade. O idoso não anula dentro de si<br />
a criança e o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um corpo<br />
que os acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que não se reconhecem. E, se é<br />
verdade que o envelhecer é um fato e uma foto, é também verdade que quem não se<br />
reconhece na foto, se reconhece na memória e no frescor das emoções que<br />
persistem. É assim que, vulcânica, a adolescência pode brotar em um homem ou<br />
uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em uma vida inteira.<o:p></o:p></span></p>
<p><font size="3" face="Times New Roman"></p>
<p></font>
<p style="margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;" class="MsoNormal"><span style='color: rgb(102, 102, 102); line-height: 115%; font-family: "Arial","sans-serif"; font-size: 10pt; mso-bidi-font-weight: bold;'>Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do esforço<br />
patético de camuflar com cirurgias e botoxes — obras na casa demolida — a<br />
inexorável escultura do tempo. O medo pânico de envelhecer, que fez da cirurgia<br />
estética um próspero campo da medicina e de uma vendedora de cosméticos a<br />
mulher mais rica do mundo, se explica justamente pela depreciação cultural e<br />
social que o avançar na idade provoca.<o:p></o:p></span></p>
<p><font size="3" face="Times New Roman"></p>
<p></font>
<p style="margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;" class="MsoNormal"><span style='color: rgb(102, 102, 102); line-height: 115%; font-family: "Arial","sans-serif"; font-size: 10pt; mso-bidi-font-weight: bold;'>Ninguém quer parecer idoso, já que ser idoso está associado a uma<br />
sequência de perdas que começam com a da beleza e a da saúde. Verdadeira até<br />
então, essa depreciação vai sendo desmentida por uma saudável evolução das<br />
mentalidades: a velhice não é mais o que era antes. Nem é mais quando era<br />
antes. Os dois ritos de passagem que a anunciavam, o fim do trabalho e da<br />
libido, estão, ambos, perdendo autoridade. Quem se aposenta continua a viver em<br />
um mundo irreconhecível que propõe novos interesses e atividades. A curiosidade<br />
se aguça na medida em que se é desafiado por bem mais que o tradicional choque<br />
de gerações com seus conflitos e desentendimentos. Uma verdadeira mudança de<br />
era nos leva de roldão, oferecendo-nos ao mesmo tempo o privilégio e o susto de<br />
dela participar.<o:p></o:p></span></p>
<p><font size="3" face="Times New Roman"></p>
<p></font>
<p style="margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;" class="MsoNormal"><span style='color: rgb(102, 102, 102); line-height: 115%; font-family: "Arial","sans-serif"; font-size: 10pt; mso-bidi-font-weight: bold;'>A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por<br />
progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com uma<br />
naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor. Esmaece a<br />
fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice que envelhece.<br />
Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser uma profecia que se<br />
autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez sobre o desfecho.<o:p></o:p></span></p>
<p><font size="3" face="Times New Roman"></p>
<p></font>
<p style="margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;" class="MsoNormal"><span style='color: rgb(102, 102, 102); line-height: 115%; font-family: "Arial","sans-serif"; font-size: 10pt; mso-bidi-font-weight: bold;'>”Meu tempo é curto e o tempo dela sobra”, lamenta-se o trovador, que não<br />
ignora a traição que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que<br />
conhecemos melhor que nossa própria alma, companheiro dos maiores prazeres, um<br />
dia nos trairá, adverte o imperador Adriano em suas memórias escritas por<br />
Marguerite Yourcenar.<o:p></o:p></span></p>
<p><font size="3" face="Times New Roman"></p>
<p></font>
<p style="margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;" class="MsoNormal"><span style='color: rgb(102, 102, 102); line-height: 115%; font-family: "Arial","sans-serif"; font-size: 10pt; mso-bidi-font-weight: bold;'>Todos os corpos são traidores. Essa traição, incontornável, que não é<br />
segredo para ninguém, não justifica transformar nossos dias em sala de espera,<br />
espectadores conformados e passivos da degradação das células e dos projetos de<br />
futuro, aguardando o dia da traição.<o:p></o:p></span></p>
<p><font size="3" face="Times New Roman"></p>
<p></font>
<p style="margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;" class="MsoNormal"><span style='color: rgb(102, 102, 102); line-height: 115%; font-family: "Arial","sans-serif"; font-size: 10pt; mso-bidi-font-weight: bold;'>Chico, à beira dos setenta anos, criando com brilho, ora literatura , ora<br />
música, cantando um novo amor, é a quintessência desse fenômeno, um tempo da<br />
vida que não se parece em nada com o que um dia se chamou de velhice. Esse<br />
tempo ainda não encontrou seu nome. Por enquanto podemos chamá-lo apenas de<br />
vida.<o:p></o:p></span></p>
<p><font size="3" face="Times New Roman"></p>
<p></font>
<p style="margin: 0cm 0cm 10pt; text-align: justify;" class="MsoNormal"><span style='color: rgb(102, 102, 102); line-height: 115%; font-family: "Arial","sans-serif"; font-size: 10pt; mso-bidi-font-weight: bold;'>O Globo de 21 de janeiro de 2012<o:p></o:p></span></p>
<p><font size="3" face="Times New Roman"></p>
<p></font></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Hoje a noite</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Jan 2012 14:50:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[ 
Na noite de Natal há uma pulsação acelerada no coração do mundo. É um tempo de exacerbação de sentimentos, quando presenças e ausências ganham maior intensidade.
Há quem não goste do Natal, torça para que passe depressa esse frenesi do consumo, com desempregados patéticos sentados entre eletrodomésticos, equilibrando seus mal colados bigodes de algodão, mais assustando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; color: navy; font-size: 10pt;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;">Na noite de Natal há uma pulsação acelerada no coração do mundo. É um tempo de exacerbação de sentimentos, quando presenças e ausências ganham maior intensidade.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;">Há quem não goste do Natal, torça para que passe depressa esse frenesi do consumo, com desempregados patéticos sentados entre eletrodomésticos, equilibrando seus mal colados bigodes de algodão, mais assustando do que encantando as crianças. Há muita dor nesse dia mesmo se a televisão afirma que o Natal é alegria, propondo o mundo surreal das compras em um mega shopping superlotado. Essa histeria comprovaria a perversão de uma festa religiosa.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;">São verdades que não são toda a verdade. Dando o laço nos embrulhos dos presentes não me vejo estimulando o consumo e sim criando laços com que amarro a esperança de manter próximos e unidos os que chamo de meus. Não fosse a vida destruidora de laços e criadora de nós&#8230; Ainda assim, é possível preservar nossos gestos em um espaço interior, excêntrico às análises econômicas e que elas não têm o poder de desencantar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;">O chamado sistema — o que quer que isso queira dizer em sua imprecisão conceitual — não expropria a vida do sentido que lhe damos, a exemplo do valor das memórias do Papai Noel da infância, indeléveis, revividas nos que hoje ainda são crianças e acreditam em um ser que não existe mas lhes é benfazejo. Essas também entram no pacote dos críticos do Natal. Uma tolice, dizem, fazer acreditar no que não existe.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;">O que seria de nós sem as coisas que não existem? O mundo seria de uma banalidade insuportável e, nós, prisioneiros dos cinco sentidos. Não aconteceria, por exemplo, a literatura, essa arte de dar vida a criaturas imaginárias que, no entanto, nos acompanham vida afora. Se às crianças basta crer para ver, aos adultos também.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;">Nem tudo se explica pelo volume de negócios e seus negociantes. A economia não é a senha que descodifica o mundo. Há um outro modo de viver o Natal, como um desejo de vínculos que se exprime na ceia das famílias e dos amigos, no cartão de boas-festas ou no telefonema dado às pressas, em meio à correria nossa de cada dia, que sublinha que alguém não deixou de existir para nós. São os vínculos que resistem a um mundo de relações esgarçadas, de amores líquidos, de individualismo delirante, do cada um por si. A força e o mistério da noite de Natal é trazer à tona o ancestral desejo de pertencimento.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;">Nem tudo se explica pelo volume de negócios e seus negociantes. A economia não é a senha que descodifica o mundo. Há um outro modo de viver o Natal, como um desejo de vínculos que se exprime na ceia das famílias e dos amigos, no cartão de boas-festas ou no telefonema dado às pressas, em meio à correria nossa de cada dia, que sublinha que alguém não deixou de existir para nós. São os vínculos que resistem a um mundo de relações esgarçadas, de amores líquidos, de individualismo delirante, do cada um por si. A força e o mistério da noite de Natal é trazer à tona o ancestral desejo de pertencimento.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;">Há um potencial regenerador, um desejo de comunidade religiosa ou familiar ou, simplesmente, de união a algum ente querido. No Natal dói mais a solidão e disso bem sabem os que conheceram o exílio e as noites gélidas em terra estrangeira, com saudade da falsa neve de algodão. Doem mais as ilusões perdidas, os que</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;">já não estão nas fotos e perambulam nos corredores da memória, presentes, mas invisíveis, fantasmas da permanência que a vida promete e não cumpre.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;">Em todo o mundo multidões se deslocam para passar essa noite com “os seus”, o que pode ser — e é — o inferno dos aeroportos e rodoviárias, o pesadelo dos engarrafamentos, mas é também o esforço de riscar, no espaço, um traço de união entre os que vivem separados. A dificuldade na noite de hoje é multiplicar-se entre</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;">os entes queridos, espalhados em casamentos rompidos e recompostos ou em cidades que a globalização e a imigração fizeram conviver sem que por isso sejam menos distantes.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;">Por que Bing Crosby, morto há décadas, cantando “White Christmas”, ainda faz chorar mesmo os politicamente corretos? Talvez porque, no fundo de si mesmo, ninguém tenha renunciado a uma noite feliz.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;">A noite de Natal é um tempo suspenso, um desafio à temporalidade hipermoderna. Um sursis em um mundo predatório que trata o tempo como tratou seus recursos naturais, exigindo de todos os malabarismos da quase ubiquidade. Dia a dia luta-se pelo que se acredita será, no futuro, um lugar ao sol enquanto, no presente, o sol é subtraído dos escritórios sem janelas. No Natal cada um reserva para si um tempo inegociável — nessa noite tempo não é dinheiro — e se recolhe a um espaço privado, na contramão do</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;">cotidiano frenético que, impiedoso, devora os momentos de intimidade.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;">Há uma inocência nessa noite em que se dá presente, come-se bem, misturam-se gerações e, imperceptível, vive em cada um de nós um Deus pobre e nu, mas acalentado, a quem reis magos trazem ouro, incenso e mirra. Os amigos nos trazem um vinho, um livro, um brinquedo. Esse Deus, cedo ou tarde encontrará seu Judas e morrerá na cruz. Mas terá tido sua noite feliz, sua noite de criança.</span><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;">Feliz Natal.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; color: #000000; font-size: small;">Artigo publicado no jornal O Globo em 24/12/2011</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="color: navy;"><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span></span></p>
<div class="MsoNormal" style="text-align: center; margin: 0cm 0cm 0pt;"></div>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;" align="center"><span style="font-size: 14pt;"></span></p>
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		<title>Um certo José</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Dec 2011 12:36:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Ele conseguirá sobreviver nesse mundo de maquiáveis de fancaria?
O que faz dele um personagem insólito no panorama dessa cidade que não é asua e que conquistou? Trata-se de um homem aparentemente comum, voz mansa, fala pausada e gestos sóbrios, distante do estereótipo do policial truculento, espécie de misterioso herói urbano que, de camisa polo e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3 style="margin: 9pt 0cm 0pt; background: white;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; font-weight: normal; mso-bidi-font-weight: bold;">Ele conseguirá sobreviver nesse mundo de maquiáveis de fancaria?<br />
O que faz dele um personagem insólito no panorama dessa cidade que não é asua e que conquistou? Trata-se de um homem aparentemente comum, voz mansa, fala pausada e gestos sóbrios, distante do estereótipo do policial truculento, espécie de misterioso herói urbano que, de camisa polo e desarmado, dobrou o poderio do tráfico e devolveu a dignidade à polícia que comanda. De onde vem o poder de José Mariano Beltrame?</p>
<p>Tínhamos esquecido, a golpes de decepção, que há quem tenha convicções, sentido de dever e que, quando tudo isso vem associado à competência técnica, à honestidade e à determinação,<br />
dessa combinatória improvável pode enfim resultar um homem público que cumpra o seu destino.</p>
<p>Quando conheci Beltrame, há cerca de três anos, o que mais me impressionou, além de sua cortesia, foi a coragem de dizer a verdade, de admitir o que, na época, eram seus estreitos limites, não prometer o que não poderia fazer. Prometia, isso sim, fazer tudo que pudesse.</p>
<p>É o antidemagogo, pensei, saindo de seu gabinete. Sobreviverá nesse mundo de maquiáveis de fancaria? Sobreviveu graças a vitórias que estabeleceram entre ele e seus comandados um clima de respeito, entre ele e a população laços tão fortes de confiança que essa aliança lhe deve dar a segurança de que já foi por nós plebiscitado no posto que ocupa.</p>
<p>Estamos celebrando a derrubada de um mito persistente que apregoava a invencibilidade do tráfico, a incurável corrupção da polícia, o destino dos pobres encurralados e humilhados em becos e vielas, de prisioneiros de classe média por trás das grades de suas casas. O fim das noites de ruas desertas e dos sonhos de imigração.</p>
<p>Há que celebrar o prestígio da honestidade e da honra que se recuperam como valores depois de uma longa treva em que bandidos eram heróis e modelo para os jovens. Talvez seja essa a maior das vitórias de Beltrame, que nos chega junto com os territórios devolvidos à cidade. Não se subestime esse legado impalpável, mas precioso: a força do seu exemplo.</p>
<p>A julgar pelo entusiasmo da população, ela não esperava por outra coisa, embora muitos exprimissem seu ceticismo e desesperança sob a forma do ”não vai dar certo, é fogo de palha”. Louvem-se as exceções, iniciativas como o Disque Denúncia, os familiares de vítimas que, inconformados, protestavam, os juízes e promotores incorruptíveis e a mídia que chamou a si o drama do Rio e não deu sossego à corrupção e à violência.</p>
<p>Os cariocas têm pelo Rio um estranho amor, ambíguo, que canta a beleza da cidade em prosa e verso, mas a maltrata no dia a dia. Uma espécie de contentamento passivo como se, por obra e graça de uma melhor gestão pública, da beleza natural ou do heroísmo de alguns, um milagre se produzisse. Passamos da euforia ao pessimismo como se o sucesso ou fracasso da cidade dependesse apenas de quem nos governa. Uma gangorra emocional em que pesam pouco os atos de cada um. Torcemos, mas não entramos em campo. Apesar do encantamento pela cidade, não creio que, nós cariocas, nos sintamos responsáveis por ela.</p>
<p>O que se tem dito e escrito sobre as favelas, sua ilegalidade e desordem, são puxões de orelha mais que justificados. Mas esse é também — e disso falamos bem menos — o cotidiano do asfalto. Nos últimos anos a alegria e a descontração da cultura carioca deslizaram perigosamente para a incivilidade.</p>
<p>Como um bumerangue, o vale-tudo se volta contra todos. Quem bloqueia os cruzamentos estrangula a si próprio com os nós do trânsito. Quem tem seu lixo recolhido na porta, nem por isso poupa do lixo as praias e praças, resquícios da casa grande em que a senzala são os lixeiros. Nem as ruas de seus carros mal estacionados. Nem se priva de andar de bicicleta na contramão. Quem fora do Brasil atravessa as ruas na faixa aqui não anda meia quadra para respeitar um mínimo de ordem urbana. São atos aparentemente triviais, mas que praticados por todos — ou quase todos — alimentam a cultura da desordem e da incivilidade. É esta cultura — que não é da favela ou do asfalto, mas de toda a cidade — que está em questão.</p>
<p>Têm agora uma chance única de se redimir todos aqueles que, ao longo dos anos, foram espelhando a omissão e a desordem do Estado e incorporando-as a seus próprios comportamentos como uma lei não escrita que absolvia a grande e a pequena corrupção, as grandes e as pequenas violências.</p>
<p>A população do asfalto, como a das favelas, está devendo a si mesma — e a um certo José Mariano — uma mudança de comportamento. Outro compasso em que acerte o passo aos novos tempos.<br style="mso-special-character: line-break;" /><br style="mso-special-character: line-break;" /></span></h3>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt; background: white;"><span style="font-family: Arial; color: #5d5d5d; font-size: 10pt;">*Artigo publicado no jornal O Globo em 26.11.2011</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Times New Roman; font-size: small;"> </span></p>
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		<title>O ano que está apenas começando</title>
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		<pubDate>Tue, 18 Oct 2011 20:16:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[

Às vezes, inesperadamente, a história se acelera. Foi assim em 1968, quando, mundo afora, jovens foram às ruas, pedindo, uns, a imaginação no poder, outros, o povo no poder. Foi assim em 1989, quando caiu o muro de Berlim, levando de roldão o carcomido socialismo real. Tempos em que novas idéias e valores vieram à [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div></div>
<p><span style="line-height: 115%; font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: EN-US; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-language: AR-SA;"></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;">Às vezes, inesperadamente, a história se acelera. Foi assim em 1968, quando, mundo afora, jovens foram às ruas, pedindo, uns, a imaginação no poder, outros, o povo no poder. Foi assim em 1989, quando caiu o muro de Berlim, levando de roldão o carcomido socialismo real. Tempos em que novas idéias e valores vieram à tona, regenerando tecidos sociais e culturais. Anos que invadiram as décadas que se seguiram. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;">2011 está sendo um ano assim. Do Cairo a Tel-Aviv, de Madri a Nova York, a indignação move multidões. São pessoas, não partidos, ocupando praças onde ecoa um sonoro “não”, entoado em diferentes refrões. Gente que, afirmando o que não quer, diz, pelo avesso, o que quer. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;">Não querem mais ditaduras. A Praça Tahrir deu o exemplo. O mundo árabe ecoou a mensagem primaveril e vai pondo para correr, um a um, ditadores que se acreditavam eternos. Mulheres sauditas saem às ruas dirigindo automóveis em desafio à lei que até isso lhes proibia. Além da carteira de motorista, ganham título de eleitoras e o direito de ser candidatas. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;">Na Indonésia, maior país islâmico, minissaias e véus se misturam nas praças em protesto contra a violência sexual. Oslo responde atribuindo o Prêmio Nobel da Paz a três mulheres, duas da Libéria e uma do Iêmen, defensoras dos direitos humanos e — coisa rara por lá — que entendem por humanidade os homens e as mulheres. Longe do espantalho fundamentalista, querem liberdade. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;">No Brasil não queremos mais a corrupção, que não é mais aceita, como já foi, como fato cultural, o que desonrava nossa cultura e exilava a ética. O movimento Ficha Limpa, inovador e eficaz, nos redime desse estigma. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;">Os indignados que acamparam em Madri — e o rastilho está correndo em toda a Europa — não querem mais injustiça. Questionam uma lógica econômica que destrói empregos e direitos sociais, denunciam o banditismo que impregna o sistema financeiro global. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;">Em Nova York</span><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;">, americanos ensaiam ocupar Wall Street e chamam de escroques senhores que até ontem eram o símbolo mesmo do poder e do sucesso. Sustentam que é dali, não do Iraque ou do Afeganistão, que provém a ameaça mais clara e iminente aos Estados Unidos. Em 2003, Warren Buffet, que entende do assunto, já alertava para o risco de uma “megacatástrofe” provocada pelos derivativos financeiros, “armas de destruição em massa” com o poder de destroçar a economia mundial. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;">Quando essa percepção se espalha pelo mundo, o rei nu perde suas míticas calças de veludo. O que está sendo repudiado como imoral não é só a ordem econômica. É um sistema de valores, ou melhor, um sistema desprovido de valores, que tem o dinheiro como fim e a ganância como princípio, destruidor dos laços de solidariedade que construíram a civilização, contrariando a lei da selva. <span style="mso-tab-count: 1;">   </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;"><span style="mso-tab-count: 1;">   </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;">Não importa quantos manifestantes estarão neste sábado em frente à City de Londres ou na Grand Place de Bruxelas, e quantas mais cidades pelo mundo terão aderido ao dia mundial de protesto. A profundidade da indignação não se mede pelo número de indignados. A radicalidade da mensagem que estão mandando quebra o senso comum que teve longa vida e entregou ao mercado e aos políticos — e quão promíscua é a relação entre eles — o direito de decisão sobre o destino de todos. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;">Os protestos planetários dão o depoimento vivo sobre a agonia de um sistema político que, contaminado pelo sistema econômico, perdeu legitimidade. Órfãos de seus representantes os manifestantes se representam a si mesmos. Iniciativas debatidas na grande rede deságuam nas praças. Sem a rede não existiria a praça. Mas é a praça que tece a vida real. A rede e a praça são os recursos com que os “99%” contam frente à falência e à cumplicidade dos sistemas econômico e político. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"> </p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;">Fechado em sua lógica, o mundo político não decodifica o enigma das ruas e desqualifica seus atores: arruaceiros, sonhadores que não sabem o que querem, sem programa e sem organização. Desconectados do mundo real, políticos míopes não medem a extensão de seu próprio desastre. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;">Os protestos não são um revival de nada. São um fato inaugural. Manifestações de rua são febris e, como a febre, sintomáticas. Podem refluir, mas nada será como antes. Terão sido o rascunho de uma nova agenda de angústias e alegrias humanas, não de perdas e ganhos financeiros. Liberdade, justiça e ética são demandas que sintetizam um novo humanismo. Expressões como bem viver e felicidade, que soavam piegas e fora de moda, ressurgem como esperanças. </span></p>
<p><span style="line-height: 115%; font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: EN-US; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-language: AR-SA;">A indignação é uma resposta à procura de sua pergunta. 2011 é um ano que está apenas começando.</span></p>
<p> </p>
<p></span><span style="line-height: 115%; font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: EN-US; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-language: AR-SA;"><em>*Artigo publicado no jornal O Globo em 15.10.2011</em></span></p>
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		<title>O Beijo da morte</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Oct 2011 14:07:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[
Ponte Vecchio, tesouro arquitetônico e coração turístico de Florença. A multidão ignora a deslumbrante perspectiva das pontes que se sucedem e se refletem no espelho do Rio Arno. Os olhos se voltam para grosseiras imitações de marcas famosas que imigrantes africanos, com os olhos assustados e gestos nervosos dos sem documentos, espalham pelo chão.
Um quarteirão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="LINE-HEIGHT: 115%; FONT-FAMILY: Arial; FONT-SIZE: 10pt"></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 6pt 0cm;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-fareast-language: PT-BR;">Ponte Vecchio, tesouro arquitetônico e coração turístico de Florença. A multidão ignora a deslumbrante perspectiva das pontes que se sucedem e se refletem no espelho do Rio Arno. Os olhos se voltam para grosseiras imitações de marcas famosas que imigrantes africanos, com os olhos assustados e gestos nervosos dos sem documentos, espalham pelo chão.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 6pt 0cm;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-fareast-language: PT-BR;">Um quarteirão adiante, a sede mundial de um dos ícones da moda, instalada em um palácio renascentista, garante a autenticidade de sua marca, símbolo de elegância e nobreza. O palácio é frequentado por poucos. A ponte é um formigueiro humano. Verdadeira ou falsa, todos usam a mesma marca.<span style="background: #141414;"></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 6pt 0cm;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-fareast-language: PT-BR;">A publicidade associa uma bolsa a um estilo de vida como se dentro dela viessem a felicidade e o refinamento. Quem não tem acesso ao produto verdadeiro compra na calçada, ao preço do camelo, a ilusão de uma vida que não tem e não terá, mas encena como real. Assim é se lhe parece.<span style="background: #141414;"></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 6pt 0cm;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-fareast-language: PT-BR;">Uma celebridade vende a peso de ouro sua imagem para associar seu nome a uma determinada marca. Marcas famosas não precisam produzir beleza ou qualidade. O que elas produzem passa a ser o padrão de beleza e qualidade. Seu valor é simbólico, muito mais do que real. Símbolos cobiçados mesmo sabendo tratar-se de uma contrafação. Mas um dia o feitiço se volta contra o feiticeiro.<span style="background: #141414;"></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 6pt 0cm;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-fareast-language: PT-BR;">Anders Breivik, assassino de jovens na Noruega, sinistra celebridade pela carnificina que provocou, ostenta orgulhoso as camisas de renomada marca. No manifesto psicótico que lançou na rede sugere que gente refinada como ele deveria vestir-se assim. Sem arrependimentos, apresenta-se como padrão de elegância. A tentativa da empresa dona da marca de impedi-lo de vestir sua camisa fracassou. Na Noruega, o tratamento dado aos presos, por mais repugnante que tenha sido o crime, é respeitoso. Desastrosa reversão de expectativas, uma antipropaganda de alcance mundial.<span style="background: #141414;"></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 6pt 0cm;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-fareast-language: PT-BR;">Os promotores de marcas famosas sabem – e é a chave do seu sucesso – que as necessidades têm limites, mas os desejos, não. Não previram que assassinos corruptos, mafiosos, cada vez mais numerosos e milionários, se enfeitariam com suas grifes na tentativa de ascender a uma suposta elite. Agora a publicidade terá que rever suas estratégias e proteger as marcas desvinculando-as de rostos – que ninguém sabe o que farão -, renunciando à sua vocação de vendedora de sonhos e aproximando-se do mundo real, terreno mais seguro e convincente.<span style="background: #141414;"></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 6pt 0cm;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-fareast-language: PT-BR;">No mundo regido pelo deus dinheiro, protetor dos mafiosos e corruptos que, no Brasil, proliferam como cogumelos, quem pode impedir um lavradaz eleito para o Congresso Nacional de posar com seu relógio símbolo de luxo, comprado com o dinheiro público? A ostentação cínica, primeira preocupação dos recém-chegados aos privilégios da fortuna, provoca a justificada ira dos que, trabalhando honestamente, têm sua carteira batida em impostos malversados. Ira não só contra ele, ou ela, lavradaz, mas também contra o malfadado relógio que, de objeto refinado, é rebaixado ao mundo dos cafajestes. Anos atrás um presidente malquisto desmoralizou o renome de uma gravata.<span style="background: #141414;"></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 6pt 0cm;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-fareast-language: PT-BR;">A náusea que a população sente frente à corrupção é tal que seus agentes estão se tornando Midas ao contrário: o que tocam vira lama. São párias com quem ninguém quer se parecer.  Cada dia fica mais clara a relação direta entre os desastres da sociedade brasileira e a criminalidade que sustenta os luxos e fantasias de funcionários públicos e políticos desonestos.<span style="background: #141414;"></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 6pt 0cm;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-fareast-language: PT-BR;">Afinal, se não atiraram à queima-roupa em oitenta adolescentes, na certa, roubam o futuro de milhares de meninos pobres e negros que dão corpo e rosto às estatísticas de mortos na juventude. O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, disse, em entrevista recente, que seu sonho para as UPPs é oportunidade para os jovens. Sabe que aí reside o problema que a polícia, por si, não resolverá nunca.<span style="background: #141414;"></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 6pt 0cm;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-fareast-language: PT-BR;">A ética está se tornando um clamor público. Escolhendo a companhia de causas nobres e contemporâneas, também as empresas redefinem a relação com suas marcas. É o caso das que se empenham em criar nas áreas pacificadas as oportunidades que Beltrame reclama. Outras incorporam o valor da sustentabilidade como referência no presente e anúncio do futuro.<span style="background: #141414;"></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 6pt 0cm;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt; mso-fareast-language: PT-BR;">Amadurece, enfim, a consciência de que o envolvimento com a corrupção que turva as relações entre estado e mundo empresarial pode destruir a marca de uma empresa. Esse reconhecimento de que a corrupção é um beijo da morte vale também para os políticos. A sociedade compra cada vez menos propaganda, o que vale é a verdade. <span style="background: #141414;"></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 6pt 0cm;"><span style="line-height: 115%; font-family: Arial; font-size: 10pt;"></span></p>
<p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 10pt"> </p>
<p></span><em>* Artigo publicado no jormal O Globo em 17.09.2011</em></p>
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		<title>Um novo site e um convite do Rio Como Vamos</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Aug 2011 10:06:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[
Sobre esse fundo azul, porque o Rio é um espelho do mar, vocês vão encontrar não apenas os dados sobre a vida da cidade – indicadores que informam sobre o andamento das políticas públicas. Também as informações sobre a nossa colaboração com a UPP Social e sobre a campanha de mudança de cultura cidadã que o RCV está lançando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><span style="font-family: 'Times New Roman'; font-size: small;"></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;">Sobre esse fundo azul, porque o Rio é um espelho do mar, vocês vão encontrar não apenas os dados sobre a vida da cidade – indicadores que informam sobre o andamento das políticas públicas. Também as informações sobre a nossa colaboração com a UPP Social e sobre a campanha de mudança de cultura cidadã que o RCV está lançando – a campanha do Mané. E ainda o acompanhamento do legado que os grandes eventos internacionais que escolheram o Rio como sede prometem deixar.<!--?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /--></span></p>
<p><span style="font-family: 'Times New Roman'; font-size: small;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;"> </span></p>
<p><span style="font-family: 'Times New Roman'; font-size: small;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;">O novo site comemora o nosso quarto aniversário. Nesses quatro anos o RCV tem a festejar a aprovação da Emenda à Lei Orgânica nº 22, que obriga a Prefeitura a trabalhar com metas e indicadores; o monitoramento do Plano Estratégico apresentado pelo prefeito em dezembro de 2009 e os Acordos de Resultado, que são pactos firmados entre a Casa Civil da Prefeitura e os órgãos públicos para o acompanhamento e cumprimento das metas traçadas no Plano Estratégico. Esse tem sido nosso investimento, colaboramos e vamos continuar a colaborar para que a gestão da cidade se faça de maneira transparente. Mas só a própria população pode garantir que essa transparência seja permanente e cada vez maior. Só a população pode agir e exigir reparação quando sente que um interesse seu não foi atendido. Em cada bairro, em cada rua.</span></p>
<p><span style="font-family: 'Times New Roman'; font-size: small;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;"> </span></p>
<p><span style="font-family: 'Times New Roman'; font-size: small;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;">À população não cabe apenas reclamar. Ela tem responsabilidades como, por exemplo, a manutenção dos espaços públicos como ruas e praças que são nossas. Sujar e depredar são atitudes inaceitáveis, são o que chamamos de manezices, porque só um Mané tem a idéia de fazer essas coisas. E para conhecer melhor o Mané, clique na imagem dele em nossa home. E divirta-se, e colabore.</span></p>
<p><span style="font-family: 'Times New Roman'; font-size: small;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;"> </span></p>
<p><span style="font-family: 'Times New Roman'; font-size: small;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-family: Arial; font-size: 10pt;">Apresente o Mané aos seus amigos.</span></p>
<p><span style="font-family: 'Times New Roman'; font-size: small;"> </span></p>
<p></span></div>
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