setembro 2019
D S T Q Q S S
« fev    
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930  

Paradoxo tragicômico

O velho ditado – a pressa é inimiga da perfeição – foi virado do avesso. Agora nada é perfeito se não for instantâneo.

A aceleração, o fenômeno contemporâneo mais vivenciado e menos compreendido, permeia o cotidiano como uma condenação coletiva e provoca relações ambíguas. De um lado o sentimento lúdico de concorrer consigo mesmo e ganhar o jogo de multiplicar atividades ao longo das inarredáveis horas de um dia. De outro o sentimento de esfacelamento, de nunca pousar em nada, vivendo uma temporalidade de zapping. Nos espíritos sobrecarregados, uma atividade deleta a outra e banaliza todas.

Viciado na aceleração, o psiquismo, por adaptação, se transforma e, na urgência do instantâneo, vai perdendo a capacidade de reflexão. Daí ser mal percebida a revolução cultural que está moldando as dimensões essenciais da vida como trabalho e as relações de amor e de amizade. Esses sentimentos, que amadureciam no tempo da convivência, encolheram em relações virtuais, efêmeras e indolores.

A impaciência que nos ataca quando um clique não produz imediatamente o resultado esperado é uma espécie de regressão infantil, resquício do tempo em que a criança quer tudo, aqui e agora. Corre a lenda que, em Hong Kong, o botão mais usado no elevador é o que apressa o fechamento das portas para ganhar uma infinitesimal fração de segundo.

A parafernália tecnológica, celulares e computadores, o milagroso Google em particular, nos habituaram a receber respostas imediatas a toda e qualquer pergunta. Uma falha de conexão é vivida como uma frustração intolerável. Instaurou- se uma relação perigosa entre informação e conhecimento. A informação estocada, que pode a qualquer momento ser acessada, não precisa ser memorizada para se tornar conhecimento. Em seu sábio “Livro das ignorãças”, Manoel de Barros sentencia: as coisas me ampliaram para menos.

Para os jovens, o ritmo dos grandes clássicos do cinema é insuportável. Hollywood adotou a estética frenética dos clipes de publicidade em que a mensagem deve passar em segundos, antes que a atenção se desvaneça.

Na linguagem escrita o despotismo da pressa se exerce de maneira ainda mais evidente. A carta tornou- se um objeto impensável abduzida no email, no SMS e na mais perfeita expressão da rapidez como valor, os 140 toques do Twitter.

A economia financeira viceja no reino da urgência. Na era industrial a confecção de um produto obedecia aos tempos e ritmos incontornáveis de transformação da matéria. Os produtos negociados no mercado financeiro são, em sua imaterialidade, de confecção instantânea e as fortunas que nele se fazem, meteóricas. Cada investidor se acredita destinado a um dia banhar- se em dinheiro como os bilionários texanos se banhavam em petróleo. O exemplo dos meninos do Silicon Valley, que, em vinte anos, se fizeram os mais ricos do mundo, excita a urgência em enriquecer.

A aceleração, que até aqui foi vivida como fator de progresso, atinge um momento em que pode se tornar fator de retrocesso. A cultura do imediato, do eterno presente, da volatilidade e da fugacidade, não favorece a compreensão de problemas que se estendem no longo prazo, a exemplo da crise ecológica, talvez o maior desafio colocado à inteligência humana. Que mentes viciadas na satisfação instantânea, no estilo zapping, serão capazes de reconhecer e equacionar um problema que se enuncia em décadas e cuja solução exige, hoje, renúncias em nome do amanhã? É mais fácil olhar para o umbigo do que para o horizonte.

As respostas à crise ecológica, que dependem essencialmente de uma mudança de mentalidades e comportamentos de pessoas, empresas e governos, esbarram no paradigma do eterno presente. Exigem sabedoria que permita entender que a tecnologia não impede a deriva dos pólos, a desolação das florestas amputadas, a morte do mar e outros flagelos que reconhecemos como ameaça futura ainda que não tenham ainda invadido totalmente o presente. Exigem um saber que vai muito além da pletora de informações.

O grande T.S. Elliot se perguntava: “Onde está a sabedoria que se perdeu no saber? Onde está o saber que se perdeu na informação?”

A Rio+20 não promete grandes avanços. A conferência é mais uma etapa da lenta negociação de consensos de extrema urgência. O dissenso entre as nações não se resolve com um clique, deletando as relutantes do cenário político. A crise ecológica impõe a aceitação do longo prazo a um mundo viciado no curto prazo. Paradoxo tragicômico. Quando a urgência é vital somos incapazes de rapidez.

O Globo, 13 de maio de 2012

3 comments to Paradoxo tragicômico

  • Jairo Marcondes de Souza

    Prezada Rosiska, havia lido o seu artigo no O Globo de sábado 12/05/2012. Adorei o artigo. Você conseguiu traduzir, de forma bastante clara, o mundo contemporâneo em que vivemos, em que se imagina que tudo esteja ao alcance de um clique e num tempo infinitesimal. As relações são cada vez mais virtuais e menos pessoais. Abraços.

  • Juan Herrera

    Prezada Rosiska,Os elogios foram dispensados por razoês obvias.
    Estou substituindo seu paradoxo pelo que tinha na minha mente. Como economista, adotei o paradoxo chamado do “brasileiro” formulado pelo Econ. Eduardo Gianetti do IPEA. Esse paradoxo tenta explicar o porque nunca nada é feito a pesar de ser o desejo de todos; o Gianetti explica que a mudança implica em fazer um trajeto, para fazer esse trajeto são necessários várias condições, dentre as quais uma chamada de “vontade política”. Esta condição é a que está mais em falta no “mercado” e por essa razão, o trajeto para chegar ao ponto desejado pela maioria, nunca é realizado.
    Agora tenho duas explicações para o mesmo paradoxo: o da falta de vontade política e o da lentidão da urgência. Ambos muito trágicos. Eu (70anos) que luto pela sustentabilidade de uma localidade serrana do Rio de Janeiro, só tenho motivos para chorar.

  • me indentifiquei bansatte com esta pe1gina ,deixa a nossa mente mente mais aberta ate9 para entendermos a nf3s mesmo temos que para de tentar entendermos com a raze3o aberta e deixar que a nossa alma seja aberta para podermos nos compreendermos melhor muitOoO BoM

Deixe uma resposta

  

  

  

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>