Pandemônio
Tudo começou há anos atrás. Pássaros mortos encontrados nos jardins eram o sinal macabro de que o vírus da gripe aviária voava baixo. Passou, ninguém mais falou nisso como se alguém tivesse confundido um tsunami com poeira de maresia. No inconsciente coletivo entrou o sentimento de uma possível devastação mundial não por uma estrondosa bomba atômica mas por um ser minúsculo e invisível. A antipática palavra pandemia entrou no vocabulário corrente.
Agora corre mundo a gripe suína, felizmente menos letal mas, ainda assim, assustadora. Ninguém é capaz de avaliar com certeza a extensão do desastre que esse vírus espírito de porco é capaz de provocar. Ninguém o conhece direito e é da má natureza dos vírus a vocação de camaleão. São mutantes, fugindo de quem tenta conhecê-los e dominá-los.
Uma pandemia é um revelador. O que ela dá a ver é o desgoverno mundial, a precariedade dos recursos coletivos para fazer face a uma real ameaça. Por medo a maioria se cala, outros minimizam o perigo, uns poucos, melhor informados, com carradas de razão perdem o sono. A diretora da Organização Mundial de Saúde, com voz pausada e a impassibilidade dos orientais, para ser bem compreendida, afirmou que a pandemia é inevitável.
A globalização pode ser descrita de várias maneiras, mas uma delas é a frenética movimentação de pessoas em aviões gigantescos, transitando por aeroportos que se assemelham a cidades. Em pouco mais de um dia, qualquer um dá a volta ao mundo. E leva consigo seus talentos, seus traços físicos, sua cultura mas também seus males. Um espirro, por exemplo.
Os vírus não têm passaporte, não apitam no detector de metais, são temíveis e invisíveis terroristas. Inevitáveis imigrantes ilegais. Face a eles não há fronteiras, viajam tão incógnitos e livres quanto os capitais
Uma pandemia está aí. A gripe suína é o nosso presente. E agora?
Vivemos em um mundo global que mostra todo dia sua vulnerabilidade. Uma espécie de selva bruta, mesmo a curto prazo inviável.
É uma evidência que o mundo precisa de instituições globais com legitimidade de direito internacional e com capacidade operacional para responder a crise mundiais como as emergências sanitárias, o aquecimento global ou os destemperos da economia. Ou vive-se como em uma Terra Pátria ou em uma anarquia do tamanho do mundo. Ou no pânico e no corre-corre de um formigueiro pisado cada vez que uma tragédia acontece. A dimensão das tragédias está cada vez maior e mais extensa.
O sinal vermelho já tinha se acendido e ainda não tinha se apagado. A alucinante e selvagem circulação de capitais destruindo moedas e economias já tinha demonstrado o poder corrosivo da lei do mais forte. A recente crise financeira deixou nus todos os reis que pretendiam vestir lindas calças de veludo e, assim, desfilavam em seus castelos de areia ou, melhor imagem, castelos de cartas que desabaram uns após outros em uma sucessão de falências. Nada disso bastou para convencer a todos de que o mundo está girando desgovernado e que, de tempos em tempos, passamos perto do abismo.
A vida retoma seu curso e ficam pelo caminho as vítimas de economias arruinadas, transformadas em imigrantes ilegais, mundo afora se esgueirando pelas fronteiras, forçando a porta lá onde sentem cheiro de riqueza, assombrando a vida de quem dentro teme a invasão e defende seu território com unhas e dentes. Os vírus, ninguém consegue deter e, insidiosos e subversivos, não respeitam poder nem riqueza. Mas costumam maltratar especialmente os mais pobres.
Agora que uma pandemia se instalou que recursos tem o sistema de saúde de um país como o Brasil para fazer frente a ela? Nenhum país será poupado. A questão é quão duramente será atingido. E é cada um por si.
Nesse pandemônio quanto mais pobre o país, maior o desvalimento.
O vírus é uma metáfora trágica e de mau gosto. O que está em questão é o presente e o futuro de um mundo frágil e desequilibrado que se tornou uma ameaça para cada um de nós e para si mesmo. Diante dele que conselho nos dão? Lavar as mãos?
(Artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 02/08/2009)

muito bom esse artigo, não tinha lido no jornal e adorei!
Realmente, muito muito muito bom esse artigo.
Nos leva a refletir sobre alguns pontos menos ressaltados pela mídia, referente à gripe suína.
Dizem que em grandes catástrofes, quando todo o planeta se sensibiliza, é possível perceber como o mundo é um só.
Já acho que são as pandemias que nos mostram como o mundo é único, igualmente vulnerável e desorganizado.
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