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Rio Como Vamos completa 10 anos acompanhando as transformações da cidade

25 de outubro de 2017

Há dez anos um grupo de cariocas apaixonados pelo Rio de Janeiro se reuniu para discutir e promover mudanças positivas, visando que a cidade seja cada vez mais maravilhosa. Tendo a cidadania em foco, o movimento Rio Como Vamos viu o “coração do Brasil” passar por mudanças profundas em sua primeira década de atuação. Momentos de festividade e projeção global se contrapõem a crises e mazelas recorrentes. Diversas áreas dos serviços públicos e da qualidade de vida oscilaram entre evoluções e retrocessos. De 2007 a 2017, o carioca se transformou. A seguir, o Rio Como Vamos apresenta um breve panorama desse cenário.

Infográfico -RCV 10 anos

Segurança: declínio após esperanças
O Rio de Janeiro tem muitos aspectos que podem tirar o sono de seus moradores. A preocupação com o destino de suas vidas e o barulho de tiros estão entre os principais deles. Os problemas de segurança pública na cidade são antigos, mas o mais recente capítulo dessa trágica história foi acompanhada de perto pelo Rio como Vamos. Um ano após a fundação do movimento, em 2008, o governo estadual deu início às Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), projeto que chegou a ser visto como a solução e cujo desfecho, hoje, é um noticiário banhado em sangue.

Nos primeiros anos, a UPP fez jus às expectativas, segundo lembra a coordenadora executiva do Rio Como Vamos, Thereza Lobo. “Era um momento de euforia, com queda nos índices de criminalidade, o que refletiu até no preço dos imóveis dos bairros em torno das comunidades”, nota. No entanto, ela destaca, houve uma gradual mudança a partir de 2013, quando os números começaram a mudar de rumo, enquanto, quase simultaneamente, a crise fiscal batia à porta do governo do estado.

De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), entre 2008 e 2014, quando a última das 38 UPPs foi instalada, houve quedas de 65% nos homicídios dolosos, de 59,8% nos roubos de rua e de de 80,7% nos casos de letalidade violenta. O último quesito, aliás, manteve-se estável até 2015, quando a taxa por 100 mil habitantes parou de oscilar na faixa entre 24 e 25 casos e alcançou 29,4. Os números absolutos também impressionam. Ao todo, nos últimos dez anos (até agosto de 2017), a polícia apreendeu 2.170 fuzis, 688 metralhadoras e submetralhadoras, mais de 13 mil pistolas e quase 12 mil revólveres. “Hoje, sabe-se que as facções criminosas têm armamentos pesados às vezes tão fortes quanto os das próprias polícias”, lamenta a socióloga.

Porém, nem todas as iniciativas na área de segurança tiveram o mesmo destino das UPPs. A Operação Segurança Presente chega a seu terceiro ano provocando o desejo de permanência na população. O projeto teve início com a Lapa Presente, em 2014, e se expandiu, no ano seguinte, para Centro, Méier, Lagoa e Aterro do Flamengo. “A percepção deste policiamento de proximidade é muito positiva. Basta ver a repercussão nos comentários na página do projeto no Facebook”, constata Thereza Lobo, que exemplifica algumas melhorias percebidas, como o fim dos arrastões no Centro feitos por menores infratores.

Nesses dez anos de atuação do movimento, as Forças Armadas ocuparam 12 vezes a cidade. Nas ações para “Garantia da Lei e da Ordem” (GLO), as tropas federais ganham atributos e funções de polícia. O dispositivo foi acionado em todas as eleições municipais desde 2008, nas ocupações dos Complexos do Alemão e da Maré, em grandes eventos (Olimpíada, Copa do Mundo, Jornada Mundial da Juventude, Rio+20, Jogos Mundiais Militares) e, mais recentemente, para reprimir manifestações durante a votação do pacote de austeridade na Alerj e na implantação do Plano Nacional de Segurança Pública.

Para Thereza Lobo, essas ações podem ser necessárias, dependendo do contexto, mas alerta para a transformação em rotina da ocupação militar. “O trabalho das polícias estaduais deveria ser suficiente para coibir o crime”, afirma. Como alternativa, a socióloga defende que a União contribua também de outras maneiras, como provendo informações de inteligência e recursos financeiros para que o estado invista em suas próprias forças. “É fundamental o pagamento das horas extras para os policiais militares para reforçar o policiamento ostensivo nas ruas e evitar a onda de crimes sazonais, como arrastões e roubos de carga”, diz.

Melhoria incompleta nos transportes
A rede de transportes do Rio de Janeiro foi um dos serviços públicos que mais passaram por transformações na última década. Novos modais foram inaugurados, e sistemas antigos foram reformados ou ampliados. Este é o caso do metrô. Desde 2007, a linha 1 foi esticada, e novas estações foram criadas em Copacabana, Ipanema e Tijuca. Mais recentemente, a linha 4 avançou por Leblon e São Conrado, até a Barra da Tijuca. O projeto, porém, deixou incompleta a estação Gávea, que seria o entreposto entre as linhas 1, 4 e a futura 5, levando ao Centro.

Para suprir o aumento da demanda, que já era anterior à inauguração da linha 4, foram comprados, em 2012, 19 trens chineses. Investimento semelhante foi feito no sistema de trens urbanos da Supervia. Além de reformar diversas estações usadas nos Jogos Olímpicos e de construir a parada Silva Freire, no Méier, a concessionária e o governo do estado compraram 100 trens chineses e dez brasileiros, todos com ar condicionado, para renovar a frota. Do “império do meio” também foram compradas sete barcas da CCR Barcas e outras duas brasileiras. No entanto, nem todas as embarcações estão circulando devido a dificuldades financeiras do governo e da empresa.

Outros investimentos foram feitos em novos modais de transporte. A região da Barra da Tijuca se conectou ao restante da Zona Oeste e à Zona Norte com três linhas de BRT (Transoeste, Transcarioca e Transolímpica). Já o Centro e a Zona Portuária ganharam duas linhas do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). Thereza Lobo atenta para o fato de que a evolução desses sistemas é o caminho ainda a se percorrer, afinal, algumas linhas ainda estão em construção. “A linha 2 do VLT deve chegar à Rodoviária Novo Rio, passando pela Central do Brasil, e a linha 3, intermediária, irá da Central ao Santos Dumont, passando pela avenida Marechal Floriano”, explica. O BRT também tem pendências. “O corredor TransBrasil sofreu com atrasos nas obras, mas está saindo do papel”, ressalva.

Tamanha variedade de meios de transporte pode, no entanto, não ser utilizada em massa e compensar os investimentos. O Bilhete Único, criado em 2010, sofreu um duro golpe com a crise do governo do estado. Sem verba para o subsídio, o valor de integração tarifária disparou para R$ 8,55, inviabilizando o desconto nas passagens. “Sem integração, as pessoas vão continuar optando por fazer o mínimo de baldeações, deixando de lado o transporte sobre trilhos”, diagnostica a socióloga.

A preferência pelos ônibus acaba se dando pela questão econômica, não prática, segundo Thereza Lobo. “A maior parte dos veículos ainda não têm ar-condicionado, apesar do que foi acordado pelas empresas e a prefeitura”, lembra. O imbróglio entre os agentes do transporte rodoviário perdura até hoje, quando a meta era refrigerar toda a frota até dezembro de 2016. Informações mais recentes dão conta de que apenas 48% dos ônibus possuem ar-condicionado. Ao mesmo tempo, algumas empresas do setor passam por maus momentos financeiros. Nos últimos dois anos, sete faliram e três têm atrasado salário e benefícios de funcionários, provocando paralisações.

A urgência nos investimentos em mobilidade urbana se demonstra em outros índices. Em 2014, a Região Metropolitana do Rio de Janeiro registrou o maior tempo de deslocamento entre casa e trabalho, de 52 minutos, em média. A Grande São Paulo, em segundo lugar, ficou com 47 minutos, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), do IBGE. A perda de tempo reflete um prejuízo de R$ 35 bilhões por ano, de acordo com um estudo da Câmara Metropolitana. Thereza Lobo pondera que esse tempo pode ter diminuído nos últimos anos. “Acabaram várias obras dos eventos esportivos e da própria infraestrutura de transportes, então esse tempo gasto pode ter diminuído, sobretudo, a partir de 2016”, diz.

Favelização crescente
Outro fator que interfere na mobilidade urbana diz respeito à moradia. A residência longe do trabalho, via de regra, não é opção. Os empregos estão longe dos subúrbios. Na busca por casa próxima às regiões centrais, as comunidades irregulares podem incorporar moradores, aumentando as favelas. De acordo com o Censo 2010 do IBGE, a capital fluminense concentrava a maior quantidade de moradores de favelas do Brasil: quase 1,4 milhão de pessoas, que equivalem a 22% da população da cidade. O valor representa um crescimento de 27,65% em comparação com o Censo 2000. “As políticas habitacionais não dão conta do crescimento das comunidades, ao passo que o poder público demonstra pouco interesse em mover essas populações para locais dignos”, constata Thereza Lobo.

Esse gigantismo da cidade somado ao relevo peculiar e ao clima contribuem para a formação de áreas alagadiças. Para combater esse problema, a prefeitura incorporou o Plano de Contenção de Enchentes da Grande Tijuca ao legado olímpico. Até 2016, foram construídos três piscinões (Praça Vanhargem, Praça da Bandeira e Praça Niterói) para absorver o excesso de água da chuva. Uma parte fundamental da obra, contudo, ainda não ficou pronta, alerta Thereza Lobo. “O desvio do rio Joana não terminou, então toda a água acumulada não tem como escoar até a Baía de Guanabara”, afirma, lembrando que a expectativa é de que o BRT TransBrasil também acabe com os bolsões d’água na Avenida Brasil.

Crise após grandes eventos
Com tantas obras de infraestrutura em execução e grandes eventos esportivos, a cidade do Rio acabou retardando os efeitos da crise econômica. Conforme o boom foi passando, a taxa de desemprego disparou na cidade. Em agosto, a desocupação na capital chegou a 13%, segundo o IBGE. Para efeito de comparação, o menor valor havia sido notado em junho de 2015: 4,2%. De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, em 2017 o Rio apresenta um saldo negativo de 42 mil vagas de emprego.

Para a coordenadora executiva do Rio Como Vamos, Thereza Lobo, a continuidade dos investimentos em infraestruturas essenciais à cidade é fundamental à redução do desemprego. “Ainda temos em andamento obras de BRT e VLT, além de perspectiva de expansão do metrô, mas precisamos focar também em outras frentes urgentes, como o saneamento básico”, aponta, lembrando que 17% dos mais de 6 milhões cariocas ainda não eram atendidos pela rede de esgoto em 2014 (último ano disponibilizado). “A evolução tem sido muito lenta”, conclui.

O incentivo a setores-chave da economia local também é uma frente com potencial, segundo a representante do Rio Como Vamos. A cidade recebeu 886 mil turistas na Copa do Mundo e 1,17 milhão na Olimpíada, o que comprova a capacidade do Rio de receber esse público e tornar-se uma cidade global. “O turismo alavanca uma série de segmentos das áreas de serviços e comércio, que são os setores que mais geram emprego nesta era pós-industrial da cidade”, avalia Thereza Lobo.

A recuperação das contas públicas estaduais é outro fator, dos mais relevantes, que interfere nesse panorama econômico. O chamado boom das commodities – com a valorização do barril do petróleo para a faixa dos US$ 100 – e a exploração do pré-sal a partir de 2010 foram a locomotiva da economia fluminense até os ventos do mercado internacional mudarem de direção. A partir de 2013, a Arábia Saudita forçou o preço do ouro preto despencar para cerca de R$ 30, visando quebrar os produtores de gás de xisto dos Estados Unidos. “Foi aí que começou a tempestade perfeita do Rio”, pontua a socióloga.

Educação e saúde: altos e baixos
A situação do Rio quanto à educação, apesar de alguns avanços, ainda tem muito o que melhorar, conforme demonstram as notas bienais do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). órgão ligado ao Ministério da Educação. Nos primeiros anos do Ensino Fundamental, as escolas municipais obtiveram uma significativa melhora: passaram da nota 4,5, em 2007, para 5,6, em 2015, alcançando a meta estabelecida. Nesse tempo, só houve uma leve queda de 0,1 ponto entre 2011 e 2013.

A situação nos anos finais do EF, entretanto, não é tão positiva. Desde 2007, as notas só ficaram acima da meta duas vezes. Em 2007 e em 2015, o Ideb foi de 4,3, sendo que a maior nota no período foi de 4,4, em 2011. A meta de 2015 era 5. Thereza Lobo acha pouco provável que o alvo de 5,2 para 2017 seja alcançado. “Existe uma diferença muito grande entre as faixas etárias, e há uma tendência de estagnação nos anos finais”, diz.

O Índice de Desenvolvimento da Educação do Rio de Janeiro (IDERio), levantado pela própria secretaria de educação, por outro lado, revela uma fotografia diferente. Em 2015, ambos os segmentos do Ensino Fundamental alcançaram nota 5,6 – um crescimento de 12% em relação a 2014, nos dois casos. Em 2009, a nota dos anos iniciais havia sido 4,3, e dos finais, 3,5.

Algumas das sementes para a evolução do modelo educacional carioca já foram plantadas, segundo a coordenadora executiva do Rio Como Vamos. Uma das primeiras foi o fim da aprovação automática, em 2009. Em seguida, Thereza Lobo destaca o projeto Escolas do Amanhã, projeto que reúne alunos da creche ao fim do Ensino Fundamental em instituições de tempo integral. “Já é sabido que o turno único é um dos segredos do alto desempenho de escolas asiáticas e europeias”, afirma.

Na saúde, por sua vez, a implantação das Clínicas da Família foi um dos grandes avanços na última década. Elas fazem parte de um projeto criado em 2009, que permitiu a expansão da Estratégia de Saúde da Família no município. A cobertura de ESF passou de 3,5% em 2009 para 67,25% ao final de 2016. O projeto levou o Rio a contar com mais da metade de todas as equipes de Estratégia de Saúde da Família do país. Atualmente, são 111 Clínicas da Família em 68 bairros, alcançando 4 milhões de pessoas, com grande aprovação pelos usuários.

O sucesso do projeto, no entanto, não impediu polêmicas. Geridos por Organizações Sociais, foi visto com desconfiança por parte da sociedade, principalmente de profissionais da área de saúde. Recentemente, o anúncio da Prefeitura de que reduziria as verbas do programa levou uma OS a dizer que poderia até fechar 11 unidades caso a medida não fosse revista. A discussão levou a um corte mais moderado dos recursos, e as unidades continuaram em funcionamento. “Embora represente um grande avanço na cobertura de saúde da família na cidade, com incremento da prevenção e do primeiro atendimento, o projeto enfrenta a questão da falta de profissionais e da carência da qualificação das equipes em alguns locais”, destaca a coordenadora do Rio Como Vamos.

Na outra ponta, as Unidades de Pronto Atendimento 24 horas, projeto idealizado pela equipe do ex-governador Sérgio Cabral e que foi copiado e implantado em várias cidades do país e até no exterior, viveram, nesta última década, seu ápice e seu declínio. As unidades de média complexidade, que deveriam funcionar como porta de entrada para o sistema de atendimento de urgência e emergência, desafogando hospitais, estão sobrecarregadas e desabastecidas inclusive na capital fluminense, onde parte delas é gerida pela Prefeitura.

“As UPAs, que já foram muito bem avaliadas pela população, hoje sofrem com a crise econômica do Rio de Janeiro. Além da falta de investimentos, a crise trouxe um aumento de demanda. Muitos cariocas de classe média, cujos rendimentos foram achatados com a crise, deixaram o plano de saúde e passaram a recorrer às unidades ”, destaca Thereza Lobo. Relatos de pacientes dão conta de falta de médicos e de medicamentos, filas gigantescas e até carência de vigilantes.

Sobre o Rio Como Vamos
Fundado em 2007 por cariocas apaixonados pelo Rio de Janeiro e empenhados em promover mudanças no município, o Rio Como Vamos tem como objetivo contribuir para o aumento na qualidade de vida da cidade. É um movimento de cidadania, que acredita na combinação de uma boa governança com uma sociedade comprometida para trazer melhorias sociais, econômicas e estruturais para a cidade. O grupo promove trimestralmente e anualmente atualizações de números indicadores do Rio e a cada dois anos pesquisas de percepção dos cariocas, além de participar de interlocuções frequentes com o poder público e a população.